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29/02/2004
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A
cantora baiana Daniela Mercury |
João Pimentel
Uma das principais vozes da
axé-music, Daniela Mercury, já há alguns anos, anda em busca do sucesso
fonográfico perdido. A musa que estourou nacionalmente, em 1991, com
“Swing da cor”, e permaneceu por alguns anos nas paradas com músicas como
“O canto da cidade” (parceria com Tuta Gira), “À primeira vista”, de Chico
César, e “Rapunzel”, de Carlinhos Brown, apesar de continuar arrastando
multidões nos trios de Salvador, não tem encontrado a mesma resposta nas
vendagens. E o caminho buscado foi justamente o de levar para o CD
“Carnaval eletrônico de Daniela Mercury” as experiências que, há cinco
anos, ela realiza em seu Trio Techno no circuito Barra/Ondina do carnaval
baiano.
Com a participação dos DJs Bid,
Anderson Noise, Marcelinho da Lua, Zé Pedro, Memê, entre outros, ela
acrescenta ao seu balançado samba-reggae as batidas em moda nas pistas
como drum’n’bass, house, techno e lounge. O disco tem um bom repertório.
No entanto, as intervenções eletrônicas não são das mais inspiradas.
O parceiro Carlinhos Brown produziu
a faixa que abre o disco, “Maimbê dandá”, além de dividir os vocais com
Daniela. A música, que traz o refrão adaptado da tradição afro-brasileira,
não perderia a pegada se fosse retirada sua roupagem pseudo-eletrônica.
Brown também compôs e produziu, com Alê Siqueira, “Charles Ylê”, em que a
criatividade está muito mais presente na letra e na melodia do que nas
batidas fabricadas.
A segunda música do disco, “Quero
ver o mundo sambar”, de autoria da própria cantora, é um remix
techno-house, especialidade do DJ Renato Lopes. Na letra, o conceito do
samba globalizado de Daniela: “Quero ver o mundo sambar.../ Na love
parade em Berlim/ Na escola de samba da Holanda/ Na percussão do
menino argentino/ Com Alexandre e seu mundo latino”. Do cavaquinho que soa
vazio no fim desta faixa, surge o berimbau eletrônico da série de batidas
drum ’n’ bass que o DJ Zé Pedro e Gui Boratto introduzem na regravação de
“Vou batê pá tu”, clássico de Orlandivo e Arnaud Rodrigues, pinçado do
disco “E?”, de Baiano e os Novos Caetanos, de 1974. O DJ se utiliza das
mesmas batidas em “Por trás da fantasia”.
Já Marcelinho da Lua e Rafael Ramos
acrescentam o breakbeat a “Que baque é esse?”, de Lenine, que também
empresta sua voz para a faixa. A versão dele em “No dia em que faremos
contato”, também com sutis arremedos eletrônicos, soa bem melhor.
“Tonga da mironga do Kabuletê”, de
Toquinho e Vinicius, ganha uma doce versão lounge de Ramílson Maia e
Deeplick. Memê dá um ar house tribal à sua parceria com a cantora, “O
canto da rainha”.
DJ Bid acerta a mão em “Amor de carnaval”, de Gil
Curiosamente, a melhor faixa do
disco, “Amor de carnaval”, de Gilberto Gil, que participa fazendo um duo
de primeira com Daniela, é uma das que passam à margem das inovações. Não
por economia, mas sim pelo bom senso de Bid. Prova que nem todas as
músicas pedem uma enxurrada de efeitos.
Na contramão desta faixa está “Ago
lonan”, em que Anderson Noise interfere de forma direta na música de
Daniela, dando a ela uma característica techno completamente diferente. A
música soa como algo que foge à unidade formal do disco. Melhor para as
pistas do que para os ouvidos.
Fechando o CD, outra regravação
pertinente. “Quero voltar pra Bahia”, de Paulo Diniz e Odibar. No refrão
“I don’t want to stay here/ I want to go back to Bahia”, talvez um desejo
inconsciente de uma volta a um tempo sem grandes invenções, quando o ritmo
dos tambores soava mais fiel do que as batidas eletrônicas.
(© O Globo)
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