Glauber Rocha é homenageado em documentário de Silvio Tendler, com
imagens só agora liberadas pela família, e no DVD do histórico
Terra em transe
Eliane
Lobato
Um caixão, muitos intelectuais,
música, discursos, lágrimas, flashes e closes no rosto do cadáver famoso.
São cenas que, para quem não estava presente, até agora eram proibidas pela
família do polêmico diretor baiano Glauber Rocha, que, em 14 de março, faria
65 anos. Mais de 20 anos depois de sua morte, ocorrida em 22 de agosto de
1981, finalmente as famosas tomadas do velório e do enterro do cineasta,
poeta, pintor, escritor, articulista, dramaturgo e todos os etc. cabíveis
aparecem inteiras no documentário Glauber o filme, labirinto do Brasil,
de Silvio Tendler, que estréia no Rio de Janeiro, em São Paulo e Salvador na
sexta-feira 5. “Não fiz esse longa para mostrar trechinhos geniais de filmes
ou uma antologia. Mostro o Glauber libertário, o artista e o retrato de uma
época”, adianta Tendler. Nas lembranças-homenagens ao criador do filme O
dragão da maldade contra o santo guerreiro (1968), a primogênita Paloma
Rocha oferece outra preciosidade: o DVD duplo do histórico Terra em
transe (1966), trazendo duas horas de extras dirigidas por ela em
parceria com o videomaker Joel Pizzini; cenas inéditas com atores como
Jardel Filho, Paulo Autran, José Lewgoy e Glauce Rocha; e o making of das
gravações, entrevistas e uma montagem que simula um diálogo entre Glauber
Rocha e seus messiânicos, bárbaros, exagerados e doces personagens.
Mas são muitos outros os projetos
que marcarão a data de seus 65 anos. No próprio dia 14, está prevista a
exibição do clássico Deus e o diabo na terra do sol (1963) no Parque
da Previdência, zona oeste de São Paulo, dentro do projeto Cinema no
parque. Na televisão, o Canal Brasil exibirá Retrato da terra,
produção de Paloma sobre uma longa entrevista do diretor ao amigo e também
cineasta Orlando Senna, em 1978, na qual, para não variar, o passional
Glauber rasga o coração e fala sobre cinema novo, mercado, morte, Embrafilme
e toda sorte de assuntos que na sua voz tornavam-se sempre palpitantes.
Ava Rocha, irmã mais nova de Paloma, ainda imprime um tom internacional às
homenagens, ao organizar em Buenos Aires a mostra Da fome ao sonho,
com fotos, roteiros inéditos, cartazes e reportagens. E, por último, mas não
menos importante, a editora Cosac & Naify prepara biscoitos finos como o
romance inédito Adamastor – sobre o mito de Os luzíadas e cujo
nome é o mesmo do pai do diretor, Adamastor Bráulio Silva Rocha – e Os
diários de Glauber Rocha. Ambos, porém, só serão lançados em 2005. Em
2004, a editora decidiu caprichar nas reedições de Revolução no cinema
(1981) e O século do cinema (1985).
Revolucionário –
Considerado louco, gênio, revolucionário, original, Glauber Pedro de Andrade
Rocha passou seus breves 42 anos entre láureas e pichações, eternizando-se
como um dos grandes paradoxos da cultura brasileira. O documentário de
Silvio Tendler abre portas para reflexões com depoimentos de quem conviveu
com o diretor, por muitos considerado genial e por outros tantos
incompreensível. A atriz e cineasta Ana Maria Magalhães conta que, após
insultar duramente o colega francês Louis Malle, um dos vencedores da Mostra
Internacional da Arte Cinematográfica de Veneza, na qual seu Idade da
terra (1978-1980) recebeu críticas negativas, Glauber colecionou tantos
desafetos que foi consolado pelo próprio Malle. Arnaldo Jabor sentencia:
“Perto do Glauber, nada era normal. Ele criava um clima épico de
excepcionalidade.” Há, também, o reconhecimento da segregação. O colega Cacá
Diegues endossa: “Até à véspera da morte, ele era uma espécie de saco de
pancadas. Só virou personalidade artística por causa de sua morte trágica.”
Ele morreu de complicações broncopulmonares. Orlando Senna completa: “Quando
estava vivo, ninguém queria saber dele. Esculhambava a direita, a esquerda,
todo mundo.”
Os episódios que João Ubaldo
Ribeiro revela no documentário de Tendler arrancam muitas risadas e provocam
certa polêmica com a família do cineasta. Ubaldo diz que, durante reunião em
sua casa, no Rio de Janeiro, Glauber foi fumar um cigarro de maconha no
quarto e sugeriu que o escritor discretamente perguntasse a Jorge Amado se
ele também queria fumar. Também conta a vergonha que passou quando Glauber,
em outra reunião, soltou gases fétidos e fez com que Ubaldo parecesse o
autor da flatulência. Por estes e outros incidentes, Paloma Rocha não aprova
totalmente a obra de Tendler. “O filme é válido, mas tem coisas que
contesto, como a mitificação do Glauber e essa coisa de falar que ele
soltava pum, que usava droga. Isso é bobagem e está fora do contexto. A
maconha era uma questão cultural da época, um hábito”, diz. A mãe do
cineasta, Lúcia Mendes de Andrade Rocha, 85 anos, também protesta. “Isso faz
com que a memória dele fique fora de foco.”
Divergência –
Tendler entende, mas rechaça. “Elas, como filha e mãe, têm uma visão
diferente. Eu quis mostrar o artista. Depois do Festival de Brasília do
Cinema Brasileiro 2003 (no qual Glauber, o filme conquistou os
prêmios de crítica e do júri popular), a garotada foi correndo às locadoras
alugar os filmes dele. É isso que quero: despertar o interesse.” Material
para os aficionados não falta. Na instituição Tempo Glauber, no Rio de
Janeiro, presidido por dona Lúcia, há 80 mil documentos inéditos sendo
preparados para deleite do público. São cartas, telegramas, anotações de
patrocínios, de custos, bilhetes, ensaios, prêmios, desenhos e esboços que
estão sendo inventariados pelo professor universitário Lécio Augusto sob o
zelo da mãe. “Quando Glauber tinha nove anos, escreveu a primeira peça de
teatro e me deu. Eu guardei. E, desde então, guardo tudo dele”, segreda dona
Lúcia. Ela também comemora o patrocínio de R$ 3 milhões da Petrobras, que
está permitindo a restauração em alta definição de Terra em transe,
Barravento (1960-1961) e Idade da terra, todos feitos em
preto-e-branco, O dragão da maldade contra o santo guerreiro, em cores, e o
lançamento das quatro obras em DVD. Goste-se ou não, Glauber Rocha está
entranhado na cultura brasileira.