Notícias
 Respeito aos 8 baixos

29/02/2004

 

 



Serviço:
Disco: O Brasil da Sanfona (dois CDs)
Artista: vários
Gravadora: Núcleo Contemporâneo (www.nucleo.art.br)
Preço médio: R$ 15 cada disco
Livro e DVD: O Brasil da Sanfona
Artista: vários
Preço: 100 reais
Aquisição com a própria produtora: myriamtaubkin@ig.com.br

Acima, o músico pernambucano Dominguinhos e capa do disco O Brasil da Sanfona
 

Projeto resgata os caminhos da sanfona pelo Brasil e relaciona 164 tocadores e afinadores do instrumento em todo o País

Edson Wander

   Instrumento europeu bem adaptado ao Brasil, a sanfona é um caso particularíssimo de entroncamento com hábitos e modos de ser do brasileiro. Em certas regiões, como no Nordeste, a sanfona rivaliza em popularidade com o violão; no Sul, ganha disparado. O Brasil da Sanfona, inventário que a produtora paulista Myriam Taubkin fez do instrumento, traduz bem a força que a sanfona - e suas diferentes denominações e simbolismos - ganhou pelo Brasil afora. Um livro, dois CDs e um DVD recolhem cenas, sons e personagens que marcaram e marcam a história brasileira da sanfona - também chamada em diferentes regiões de acordeão, pé de bode, "supers" de 80, 120 baixos - trazida ao País pelos imigrantes europeus no século 19.

   O projeto O Brasil da Sanfona começou em 1999 a partir do Rio Grande do Sul e estendeu-se para várias regiões brasileiras. Ao final do livro, são listados 164 tocadores e afinadores do instrumento.

   Para fazer O Brasil da Sanfona, Myriam viajou pelo País por quatro anos e contou com a fotógrafa Angélica Del Nery, Sérgio Roizenblit para as imagens em vídeo e Gal Oppido na concepção gráfica. Produtora oriunda de uma família de músicos, Myriam Taubkin já realizou outras cinco séries semelhantes de registro de instrumentos e instrumentistas brasileiros. O próximo deve ser com instrumentos de sopro (Um Sopro de Brasil).

Lugares e sons

   "Diferentemente de muitos instrumentos, a sanfona cria altas personalidades, movidas pelo trabalho, pela religião e até pela desesperança. Isso é uma coisa da sanfona, é como se fizesse parte da pessoa. Talvez eu só tenha percebido relação igual com a viola caipira", comenta Myriam, que organizou a série Violeiros do Brasil, em 1997.

   É essa simbiose instrumento-homem-lugar que a produtora buscou registrar no trabalho, evidenciando sanfoneiros famosos e anônimos. O livro registra os diferentes sotaques da sanfona nas diversas regiões brasileiras. Em cada lugar, o cotidiano impregna cada nota e cada acorde dos vários ritmos tirados do instrumento, cujo caráter polivalente permite conjugar ritmo, melodia e harmonia.

   Além de radiografar a vida dos sanfoneiros e suas sanfonas, o projeto traz depoimentos dos próprios e de estudiosos, o que reaviva passagens interessantes de mestres que não tiveram a mesma visibilidade de Luiz Gonzaga (referência maior de todos), como Chiquinho do Acordeon, e retoma discussões culturais acaloradas como a velha rixa dos gaúchos tradicionalistas dos Centros de Tradição Gaúcha (CTGs) ganindo contra as inovações de estilo, propensas a um virtuosismo de coloração jazzística. Aí, mostra o músico e pesquisador Arthur de Faria, surge Renato Borghetti como apaziguador de ânimos, colhendo simpatias em ambos os lados. Chiquinho do Acordeon (Francisco Seibel, 1828-1993), outro sanfoneiro gaúcho de fino trato (foi parceiro de Guerra- Peixe, Radamés Gnatalli, Endino Krieger) que fez carreira no Rio de Janeiro nos anos 50, foi protagonista de uma guinada incentivada por Dominguinhos. No início, Chiquinho só tocava com orquestra e os artistas que gravitavam em torno dela. Vivia dizendo a Dominguinhos para deixar de tocar com os "cabeças-chatas". Um dia, Dominguinhos convenceu-o a experimentar o forró e ele não parou mais. Morreu defendendo o projeto Asa Branca, de Gonzagão. Está tudo contado no livro pelo próprio Dominguinhos. Além dele, há depoimentos dos mais tarimbados aos novatos e anônimos tocadores: Hermeto Pascoal ("tocou piano, tem que tocar sanfona"), Arlindo dos Oito Baixos, Dino Rocha, Sivuca, Camarão, Chiquinha Gonzaga (irmã de Gonzagão que pegou a sanfona a contragosto da mãe), Helder Vasconcelos (do Mestre Ambrósio), Targino Gondim, Waldonys ("a sanfona é meu pulmão, eu respiro com ela no peito"), Camarão, Caçulinha, Gaúcho da Fronteira e muitos outros.

   Em passagem por Goiás, por exemplo, além de registrar a história do ex-tocador e agora consertador Zino Prado na oficina dele em Goiânia, Myriam Taubkin esteve na cidade de Goiás, onde clicou a Casa de Cora Coralina, a poeta-maior do Estado. Por quê? "Cora Coralina é uma figura que expressa a região como ninguém. Ela é uma escritora que deixa claro o lugar dela, assim como Érico Veríssimo no Sul, Patativa do Assaré no Nordeste e Manoel de Barros no Centro-Oeste. Assim como a sanfona, eles marcam seus territórios, foi um questão de identificação", explicou.

   O trabalho traz o último registro de Patativa (1909-2002), numa poesia dele para Gonzagão ("Ao Rei do Baião"). Myriam diz que não teve o propósito de fazer um levantamento completo da sanfona no País, quis apenas que fosse um panorama aprofundado do instrumento. "É o meu olhar, o nosso olhar, dos produtores associados. Ele traduz uma visão nossa sobre o caminho da sanfona no Brasil. Não quer ser mais do que isso", resumiu.

   Escrito em duas línguas (português e inglês), O Brasil da Sanfona foi feito com um olho no exterior e já tem viajado a outros países. Myriam levou parte dos sanfoneiros do projeto para o Encuentro de Las Americas, no México, e prepara-se para ampliar o time que participará do Strictly Mundial, o maior festival da música do mundo que ocorrerá em abril em Istambul, na Turquia. A produtora destacou um sanfoneiro de cada região para integrar a comitiva brasileira.

Sotaques em som e imagem

   Mais do que um panorama da música feita a partir da sanfona no Brasil, o dois discos e o DVD do projeto "O Brasil da Sanfona" fazem uma homenagem às possibilidades técnicas e estéticas do instrumento. Os CDs, primeiros produtos do trabalho, lançados há dois anos pelo Selo Núcleo Contemporâneo (de Benjamin Taubkin, irmão de Myriam), mostram em gravações ao vivo a variada gama de estilos fundados a partir da sanfona. Citado o tempo todo no livro, nos discos e DVD ninguém interpretou Gonzagão. Myriam corrige e diz que interpretaram sim, vários, mas não entraram no material por dificuldades na liberação dos direitos autorais e também para valorizar as obras dos instrumentistas, a maioria também compositores.

Nordeste + Brasil Central

   O volume Nordeste + Brasil Central destaca quatro virtuoses de um lado (Camarão, Arlindo dos 8 Baixos, Dominguinhos e Zé Calixto) e duas lendas regionais de outro (Dino Rocha e Zino Prado). Discípulo de Gonzagão, Dominguinhos é sanfoneiro improvisador, compositor e cantor já bem conhecido no País e aparece aqui gravando e cedendo suas próprias composições (Toque de Pife, Triunfo e outras). Camarão, paraibano, é forrozeiro nato (Forró Beleza e Festejo), assim como o pernambucano Arlindo dos 8 Baixos, referência do "pé de bode" (nome popular da sanfona de oito baixos) e produtor dos mais famosos bailes de forró de Recife. Zé Calixto, paraibano radicado no Rio, é mais voltado para o chorinho e clássicos da música brasileira interpretados na sanfona de oito baixos. Gravou, aqui, Choramingo, dele mesmo.

   O sul-matogrossense Dino Rocha é símbolo maior da música pantaneira, cultuado por outros instrumentistas em todo o Centro-Oeste. Instrumentista altamente técnico, explora como ninguém melodia e ritmos como a guarânia, o chamamé e polcas característicos da região pela proximidade com o Paraguai. Gravou aqui Corumbá (Almir Sater/Guilherme Randon) e Curupi (dele). Zino Prado é outra referência para sanfoneiros do Brasil Central interessados na cadência do som sertanejo. Gravou, em duo com Elias Filho, uma homenagem ao Mato Grosso (Meu Mato Grosso) e KM 11 (de Constante Aguer/Coquimarola). Patativa do Assaré fecha o disco declamando o poema que fez para Luiz Gonzaga.

Rio Grande do Sul + São Paulo

   O CD Rio Grande do Sul + São Paulo traz a riqueza ambivalente dos gaúchos Gilberto Monteiro, Renato Borghetti, Luciano Maia e Oscar dos Reis e os paulistas Toninho Ferragutti, Caçulinha e as damas sanfoneiras Gilda Montans e Meire Genaro (em duo) e Regina Weissmann. O Sul musical é mesmo um universo, diz Myriam Taubkin sobre criadores que podem ser conferidos neste disco com dois representantes da tradição gaúcha e dois jovens e mais libertários instrumentistas.

   Da tradição vem Gilberto Monteiro e Oscar dos Reis, eles mesmos distintos entre si. Monteiro, criado na cultura missioneira-guarani, carrega a mão numa vertente tradicional- popular (Pra Ti, Guria), enquanto Oscar dos Reis campeia pela gaita erudita, daí sua opção de reler aqui Adiós Nonino (Astor Piazzolla), com um inconfundível sotaque "tchê". Entre os jovens, destaca-se o conhecido internacionalmente Renato Borghetti, músico criado em meio aos tradicionalistas que despontou para outras linguagens sem perder sua profunda ligação com a música dos Pampas.

   Borghetti defendeu duas pérolas no CD: Rancheirinha (dele e Geraldo Flach) e Taquito Militar (Marianito Moraes), ambas tradições embebidas em jazz acompanhado de um trio de guitarra, violão e sopros. Luciano Maia, 23 anos, é a revelação da gaita gaúcha, autodidata e filho de gaiteiro, segue na trilha renovadora de Borghetti. Gravou a milongueira Sonho Novo, dele mesmo, acompanhado por um violonista. De São Paulo, tem o virtuose Toninho Ferragutti, que passeia entre o popular instrumental e o camerístico (Dominguinhos no Parque, dele, e Montreux, de Hermeto Pascoal). Caçulinha interpretou o clássico de Pixinguinha (Carinhoso) e as mulheres defendem um misto de folclore (Folcloriando, Gilda Montans e Meire Genaro) e outros clássicos da música popular urbana com Regina Weissmann tocando Espinha de Bacalhau, de Severino Araújo. Regina é mineira radicada em São Paulo, tem formação erudita e é uma das mais conhecidas professoras de sanfona, além de estudiosa do instrumento.

   O DVD O Brasil da Sanfona registra os shows desses músicos realizado no Sesc, em São Paulo. Adiciona a participação de Sivuca tocando Quando me Lembro, de Luperce Miranda. Também dividido por regiões, os shows contam com bela iluminação e videocenários que reproduzem o ambiente original de cada instrumentista.

(© Agência CARTA MAIOR)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind