Projeto resgata os
caminhos da sanfona pelo Brasil e relaciona 164 tocadores e afinadores do
instrumento em todo o País
Edson Wander
Instrumento europeu
bem adaptado ao Brasil, a sanfona é um caso particularíssimo de
entroncamento com hábitos e modos de ser do brasileiro. Em certas regiões,
como no Nordeste, a sanfona rivaliza em popularidade com o violão; no Sul,
ganha disparado. O Brasil da Sanfona, inventário que a produtora
paulista Myriam Taubkin fez do instrumento, traduz bem a força que a sanfona
- e suas diferentes denominações e simbolismos - ganhou pelo Brasil afora.
Um livro, dois CDs e um DVD recolhem cenas, sons e personagens que marcaram
e marcam a história brasileira da sanfona - também chamada em diferentes
regiões de acordeão, pé de bode, "supers" de 80, 120 baixos - trazida ao
País pelos imigrantes europeus no século 19.
O projeto O Brasil da Sanfona
começou em 1999 a partir do Rio Grande do Sul e estendeu-se para várias
regiões brasileiras. Ao final do livro, são listados 164 tocadores e
afinadores do instrumento.
Para fazer O Brasil da Sanfona,
Myriam viajou pelo País por quatro anos e contou com a fotógrafa Angélica
Del Nery, Sérgio Roizenblit para as imagens em vídeo e Gal Oppido na
concepção gráfica. Produtora oriunda de uma família de músicos, Myriam
Taubkin já realizou outras cinco séries semelhantes de registro de
instrumentos e instrumentistas brasileiros. O próximo deve ser com
instrumentos de sopro (Um Sopro de Brasil).
Lugares e sons
"Diferentemente de muitos
instrumentos, a sanfona cria altas personalidades, movidas pelo trabalho,
pela religião e até pela desesperança. Isso é uma coisa da sanfona, é como
se fizesse parte da pessoa. Talvez eu só tenha percebido relação igual com a
viola caipira", comenta Myriam, que organizou a série Violeiros do Brasil,
em 1997.
É essa simbiose
instrumento-homem-lugar que a produtora buscou registrar no trabalho,
evidenciando sanfoneiros famosos e anônimos. O livro registra os diferentes
sotaques da sanfona nas diversas regiões brasileiras. Em cada lugar, o
cotidiano impregna cada nota e cada acorde dos vários ritmos tirados do
instrumento, cujo caráter polivalente permite conjugar ritmo, melodia e
harmonia.
Além de radiografar a vida dos
sanfoneiros e suas sanfonas, o projeto traz depoimentos dos próprios e de
estudiosos, o que reaviva passagens interessantes de mestres que não tiveram
a mesma visibilidade de Luiz Gonzaga (referência maior de todos), como
Chiquinho do Acordeon, e retoma discussões culturais acaloradas como a velha
rixa dos gaúchos tradicionalistas dos Centros de Tradição Gaúcha (CTGs)
ganindo contra as inovações de estilo, propensas a um virtuosismo de
coloração jazzística. Aí, mostra o músico e pesquisador Arthur de Faria,
surge Renato Borghetti como apaziguador de ânimos, colhendo simpatias em
ambos os lados. Chiquinho do Acordeon (Francisco Seibel, 1828-1993), outro
sanfoneiro gaúcho de fino trato (foi parceiro de Guerra- Peixe, Radamés
Gnatalli, Endino Krieger) que fez carreira no Rio de Janeiro nos anos 50,
foi protagonista de uma guinada incentivada por Dominguinhos. No início,
Chiquinho só tocava com orquestra e os artistas que gravitavam em torno
dela. Vivia dizendo a Dominguinhos para deixar de tocar com os
"cabeças-chatas". Um dia, Dominguinhos convenceu-o a experimentar o forró e
ele não parou mais. Morreu defendendo o projeto Asa Branca, de Gonzagão.
Está tudo contado no livro pelo próprio Dominguinhos. Além dele, há
depoimentos dos mais tarimbados aos novatos e anônimos tocadores: Hermeto
Pascoal ("tocou piano, tem que tocar sanfona"), Arlindo dos Oito Baixos,
Dino Rocha, Sivuca, Camarão, Chiquinha Gonzaga (irmã de Gonzagão que pegou a
sanfona a contragosto da mãe), Helder Vasconcelos (do Mestre Ambrósio),
Targino Gondim, Waldonys ("a sanfona é meu pulmão, eu respiro com ela no
peito"), Camarão, Caçulinha, Gaúcho da Fronteira e muitos outros.
Em passagem por Goiás, por
exemplo, além de registrar a história do ex-tocador e agora consertador Zino
Prado na oficina dele em Goiânia, Myriam Taubkin esteve na cidade de Goiás,
onde clicou a Casa de Cora Coralina, a poeta-maior do Estado. Por quê? "Cora
Coralina é uma figura que expressa a região como ninguém. Ela é uma
escritora que deixa claro o lugar dela, assim como Érico Veríssimo no Sul,
Patativa do Assaré no Nordeste e Manoel de Barros no Centro-Oeste. Assim
como a sanfona, eles marcam seus territórios, foi um questão de
identificação", explicou.
O trabalho traz o último registro
de Patativa (1909-2002), numa poesia dele para Gonzagão ("Ao Rei do Baião").
Myriam diz que não teve o propósito de fazer um levantamento completo da
sanfona no País, quis apenas que fosse um panorama aprofundado do
instrumento. "É o meu olhar, o nosso olhar, dos produtores associados. Ele
traduz uma visão nossa sobre o caminho da sanfona no Brasil. Não quer ser
mais do que isso", resumiu.
Escrito em duas línguas (português
e inglês), O Brasil da Sanfona foi feito com um olho no exterior e já tem
viajado a outros países. Myriam levou parte dos sanfoneiros do projeto para
o Encuentro de Las Americas, no México, e prepara-se para ampliar o time que
participará do Strictly Mundial, o maior festival da música do mundo que
ocorrerá em abril em Istambul, na Turquia. A produtora destacou um
sanfoneiro de cada região para integrar a comitiva brasileira.
Sotaques em som e imagem
Mais do que um panorama da música
feita a partir da sanfona no Brasil, o dois discos e o DVD do projeto "O
Brasil da Sanfona" fazem uma homenagem às possibilidades técnicas e
estéticas do instrumento. Os CDs, primeiros produtos do trabalho, lançados
há dois anos pelo Selo Núcleo Contemporâneo (de Benjamin Taubkin, irmão de
Myriam), mostram em gravações ao vivo a variada gama de estilos fundados a
partir da sanfona. Citado o tempo todo no livro, nos discos e DVD ninguém
interpretou Gonzagão. Myriam corrige e diz que interpretaram sim, vários,
mas não entraram no material por dificuldades na liberação dos direitos
autorais e também para valorizar as obras dos instrumentistas, a maioria
também compositores.
Nordeste + Brasil Central
O volume Nordeste + Brasil Central
destaca quatro virtuoses de um lado (Camarão, Arlindo dos 8 Baixos,
Dominguinhos e Zé Calixto) e duas lendas regionais de outro (Dino Rocha e
Zino Prado). Discípulo de Gonzagão, Dominguinhos é sanfoneiro improvisador,
compositor e cantor já bem conhecido no País e aparece aqui gravando e
cedendo suas próprias composições (Toque de Pife, Triunfo e outras).
Camarão, paraibano, é forrozeiro nato (Forró Beleza e Festejo),
assim como o pernambucano Arlindo dos 8 Baixos, referência do "pé de bode"
(nome popular da sanfona de oito baixos) e produtor dos mais famosos bailes
de forró de Recife. Zé Calixto, paraibano radicado no Rio, é mais voltado
para o chorinho e clássicos da música brasileira interpretados na sanfona de
oito baixos. Gravou, aqui, Choramingo, dele mesmo.
O sul-matogrossense Dino Rocha é
símbolo maior da música pantaneira, cultuado por outros instrumentistas em
todo o Centro-Oeste. Instrumentista altamente técnico, explora como ninguém
melodia e ritmos como a guarânia, o chamamé e polcas característicos da
região pela proximidade com o Paraguai. Gravou aqui Corumbá (Almir
Sater/Guilherme Randon) e Curupi (dele). Zino Prado é outra
referência para sanfoneiros do Brasil Central interessados na cadência do
som sertanejo. Gravou, em duo com Elias Filho, uma homenagem ao Mato Grosso
(Meu Mato Grosso) e KM 11 (de Constante Aguer/Coquimarola).
Patativa do Assaré fecha o disco declamando o poema que fez para Luiz
Gonzaga.
Rio Grande do Sul + São Paulo
O CD Rio Grande do Sul + São Paulo
traz a riqueza ambivalente dos gaúchos Gilberto Monteiro, Renato Borghetti,
Luciano Maia e Oscar dos Reis e os paulistas Toninho Ferragutti, Caçulinha e
as damas sanfoneiras Gilda Montans e Meire Genaro (em duo) e Regina
Weissmann. O Sul musical é mesmo um universo, diz Myriam Taubkin sobre
criadores que podem ser conferidos neste disco com dois representantes da
tradição gaúcha e dois jovens e mais libertários instrumentistas.
Da tradição vem Gilberto Monteiro
e Oscar dos Reis, eles mesmos distintos entre si. Monteiro, criado na
cultura missioneira-guarani, carrega a mão numa vertente tradicional-
popular (Pra Ti, Guria), enquanto Oscar dos Reis campeia pela gaita
erudita, daí sua opção de reler aqui Adiós Nonino (Astor Piazzolla),
com um inconfundível sotaque "tchê". Entre os jovens, destaca-se o conhecido
internacionalmente Renato Borghetti, músico criado em meio aos
tradicionalistas que despontou para outras linguagens sem perder sua
profunda ligação com a música dos Pampas.
Borghetti defendeu duas pérolas no
CD: Rancheirinha (dele e Geraldo Flach) e Taquito Militar
(Marianito Moraes), ambas tradições embebidas em jazz acompanhado de um trio
de guitarra, violão e sopros. Luciano Maia, 23 anos, é a revelação da gaita
gaúcha, autodidata e filho de gaiteiro, segue na trilha renovadora de
Borghetti. Gravou a milongueira Sonho Novo, dele mesmo, acompanhado
por um violonista. De São Paulo, tem o virtuose Toninho Ferragutti, que
passeia entre o popular instrumental e o camerístico (Dominguinhos no
Parque, dele, e Montreux, de Hermeto Pascoal). Caçulinha
interpretou o clássico de Pixinguinha (Carinhoso) e as mulheres
defendem um misto de folclore (Folcloriando, Gilda Montans e Meire Genaro) e
outros clássicos da música popular urbana com Regina Weissmann tocando
Espinha de Bacalhau, de Severino Araújo. Regina é mineira radicada em
São Paulo, tem formação erudita e é uma das mais conhecidas professoras de
sanfona, além de estudiosa do instrumento.
O DVD O Brasil da Sanfona
registra os shows desses músicos realizado no Sesc, em São Paulo. Adiciona a
participação de Sivuca tocando Quando me Lembro, de Luperce Miranda.
Também dividido por regiões, os shows contam com bela iluminação e
videocenários que reproduzem o ambiente original de cada instrumentista.