|
05-06-2008
O fotógrafo Marcio Costa abre, hoje, exposição que retrata as escadarias públicas de Salvador Marcio Costa destaca a relação do olhar com os espaços cotidianos: `Muitas vezes, a gente olha mas não vê` Embora fundamentais para o deslocamento das pessoas na cidade, as escadarias de Salvador geralmente passam despercebidas ao olhar da população. Atento a este comportamento, o fotógrafo carioca Marcio Costa captou imagens de escadas localizadas em diversos bairros da capital baiana, movido pelo desejo de instigar o observador a contemplar os equipamentos sob diferentes pontos de vista. O resultado do trabalho será exibido na mostra Degrau, aberta hoje, às 20h, na Galeria Moacir Moreno (foyer do Theatro XVIII, Pelourinho). A exposição segue até o dia 4 de abril, com entrada franca. "A idéia é chamar atenção para a relação que o olhar estabelece com as coisas que estão à nossa volta. A gente passa por vários lugares e muitas vezes olha, mas não vê", diz Costa, que é repórter fotográfico do Correio da Bahia. Ao todo, serão expostas nove imagens ampliadas para o formato médio de 1,2 x 0,80 metros, dimensão também pensada para despertar a percepção do público. "Parece que, quanto maior a foto, a pessoa presta mais atenção", presume. As fotografias serão postas à venda. Antes de restringir o trabalho às escadarias, Marcio Costa cogitou fotografar construções e ruas. Decidiu-se pelo tema ao perceber que as escadas são indispensáveis ao funcionamento da cidade. "Assim como não podemos viver sem energia elétrica, a arquitetura das cidades não seria possível sem as escadas", diz. Produzidas entre o meses de dezembro do ano passado e janeiro último, as fotos apresentam cenas colhidas na estação rodoviária, Calçada, Pau da Lima, Cajazeiras 8, Vale do Canela, Porto da Barra, prefeitura de Salvador (Praça Municipal), Santo Antônio e Estação da Lapa. O fotógrafo, por vezes, chegou à maioria dos locais escolhidos já sabendo o que e como fotografar. Mas, em outros casos, deixou-se levar pelo acaso: "Quando tinha o lugar mas não tinha nenhuma idéia, ficava de olho, esperando". Foi o que aconteceu com a foto da passagem subterrânea da Calçada. Depois de um tempo pensando em alternativas, acabou flagrando o dégradé de cores que envolveu o momento de uma pessoa subindo a escada com uma criança no colo. Espaços turísticos importantes e, portanto, exaustivamente fotografados - como Pelourinho, Porto da Barra e a sede da prefeitura municipal - são vistos em Degrau de forma inusitada. Assim como a Estação da Lapa, freqüentada por um grande fluxo de pessoas diariamente. "O público passa por ela e nem percebe os detalhes. Muitas vezes, se surpreendem quando vêm imagens da Lapa publicadas no jornal", comenta o fotógrafo que aprendeu a gostar da profissão através do pai, que não se separava da câmera fotográfica e costumava registrar cenas familiares. Na Bahia desde 1992, Marcio Costa entrou na Universidade Federal Fluminense, no final da década de 80, para cursar comunicação e com o intuito de estudar cinema. Como na época, há 15 anos, o cinema brasileiro era quase inexistente e sem perspectivas, trocou para publicidade. Nesse meio tempo, veio para Salvador a passeio com um amigo e acabou ficando. A exposição Degrau, a propósito, é seu trabalho de conclusão no curso de jornalismo da Universidade Federal da Bahia. Ilustres influências - Explorando formas e volumes, Marcio admite que na sua mostra podem ser identificadas influências do trabalho do fotógrafo húngaro Andre Kertész, que marcou sua trajetória pelas imagens da vida comum registradas despretensiosamente. Kertész foi mentor de ninguém menos que Henri Cartier-Bresson e Robert Capa, dois importantes nomes da fotografia contemporânea que fundaram juntos, em 1947, a prestigiosa agência de fotos Magnum. Exemplo desta influência é a fotografia tirada na Estação da Lapa, que resume a impotência de uma senhora diante da força da chuva. Esta foi a única pinçada do arquivo do fotógrafo. "É uma imagem muito bonita que reúne espera, paciência e impossibilidade", analisa. Além de Kertész, Marcio admira os profissionais Ernest Haas, nascido na Áustria, e Miguel Rio Branco. O primeiro deles, morto em 1986, é aclamado como um dos mais importantes nomes da fotografia mundial do século XX e considerado o pai da fotografia em cores. Já Miguel Rio Branco, espanhol radicado no Brasil, destaca-se pelo uso da cor e expressa, com a temática predominante do seu trabalho (imagens da pobreza, prostituição e marginalidade), um estilo que é comparado ao do pintor italiano Caravaggio. Essa é a primeira exposição individual de Marcio Costa, que já participou de quatro edições da Mostra de fotografia contemporânea promovida pelo Museu de Arte Moderna da Bahia (MAM), ganhou o Prêmio Banco do Brasil de Jornalismo/Fotografia em 1999 e o Prêmio da Associação Bahiana de Imprensa, em fevereiro do ano passado. Atuou como free lancer para publicações como a revista Bizz, Áudio News, Jornal do Brasil, e jornais O Dia, O Globo e Folha de S. Paulo. (© Correio da Bahia)
|
||
|
||
© NordesteWeb.Com 1998-2004