05-06-2008
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O cineasta Silvio Tendler
e dona Lúcia |
Mauro Ventura
Quando Glauber Rocha morreu, em 1981, o cineasta Silvio Tendler registrou o
velório e o enterro do diretor. Ele repetia assim o próprio Glauber, que,
em 1976, filmou o velório de Di Cavalcanti. O filme de Glauber sobre o
pintor ganhou prêmio especial no Festival de Cannes, mas está até hoje
proibido no Brasil por uma decisão da filha de Di, Elizabeth Cavalcanti.
Ironicamente, as imagens de Glauber também foram interditadas por ordem da
mãe do cineasta, dona Lúcia Rocha. Somente em 1999, 18 anos depois, ela
permitiu o uso das cenas. Tendler pegou o material interditado, fez
entrevistas com amigos do diretor, recolheu imagens de arquivo e lança na
sexta-feira — 23 anos depois — “Glauber o filme, labirinto do Brasil”, que
ganhou os prêmios do júri popular e da crítica no último Festival de
Brasília.
Tendler, de 53 anos, e dona Lúcia, de 85, passaram quase duas décadas de
mal. Hoje, estão num chamego só. A convite do GLOBO, eles se encontraram
para falar de Glauber, do filme de Tendler e dos 18 anos de proibição. O
bate-papo foi marcado por brincadeiras, gozações mútuas e cenas de afeto
explícito.
— Eu adoro o Silvio. Estamos sempre juntos. Ele me chama de gatinha —
conta ela.
(© O Globo)
Cineasta diz que foi um êxtase poder usar as imagens
A idéia de filmar o velório e o enterro de Glauber Rocha surgiu quando
Sílvio Tendler foi ao hospital onde o cineasta tinha acabado de morrer.
— O Cacá ( Diegues ) e o Joaquim ( Pedro de Andrade )
falaram: “Vamos filmar. Queremos alguém da sua geração.” Eu estava em
evidência por causa do filme “Os anos JK”, mas fiquei reticente. Falei que
não tinha clima para isso, mas eles disseram: “Faz que nem o Glauber fez
com Di”. E aí fizemos — conta Tendler.
Os câmeras foram Fernando Duarte e Walter Carvalho. Havia um terceiro
cinegrafista, que não agüentou.
— Quando viu Glauber, ele desligou a câmera e saiu.
Som do filme se perdeu na ida da Embrafilme para a Cinemateca
Junto com os cinegrafistas e o técnico de som Cristiano Maciel, Tendler
colheu vários depoimentos no velório.
— Mas sumiu todo o som do filme. No translado da Embrafilme para a
Cinemateca Brasileira, em São Paulo, os rolos de fita se perderam. Só
consegui recuperar o som da entrevista com Darcy Ribeiro.
Uma das cenas mais curiosas mostra os amigos e colegas no velório, no
Parque Lage, assistindo a um depoimento em que Glauber diz: “Todos os
cineastas me traíram, não perdoaram eu ter feito ‘Deus e o diabo’ aos 23
anos.”
— Era uma situação surrealista. O cara, no velório dele, fazendo as
pessoas rirem de nervoso.
O longa-metragem de Tendler é um filme-tributo que ajuda a popularizar o
cineasta. No dia seguinte à exibição no Festival de Brasília, as locadoras
de vídeo foram tomadas por jovens interessados em ver — ou rever — a obra
do diretor de “Deus e o diabo na terra do sol”. Tendler diz que o filme
atual é muito mais maduro do que se tivesse sido feito em 1981.
— À época, seria um curta, um filme-manifesto, militante, só usando
imagens do velório e do enterro. Mas agora, como quis mostrar um Glauber
vivo, trabalhei também a memória dos amigos. Surge um Glauber pulsante.
Tendler diz que o filme é uma homenagem ao diretor, mas está longe de ser
chapa-branca.
— Não foi feito para agradar à família. Falo de tudo e mostro que não há
um Glauber, e sim glauberes.
As imagens feitas em agosto de 1981 só puderam ser manuseadas por Tendler
em 1999.
— Nunca tinha visto as cenas. Filmamos e ficou tudo retido na Embrafilme.
Depois, foi para a Cinemateca Brasileira. Quando finalmente assinei com a
família, foi um êxtase. Até me filmei em São Paulo recolhendo o material.
Recuperado de problemas de saúde, o diretor está filmando agora uma
biografia do geógrafo Milton Santos e “Utopia e barbárie”, que fala sobre
como era ter 18 anos em 1968.
— Tive uma isquemia e, um ano depois, um enfarte. Pensei: “Minha filha vai
ter o que para fazer uma retrospectiva?” Aí esvaziei as gavetas e
desencavei cinco filmes de uma vez só.
(© O Globo)
Entrevista com Dona Lúcia
Dona Lúcia, por que a senhora proibiu as imagens do funeral?
DONA LÚCIA: Eu não proibi, eu dei um tempo. Em 1977, minha filha (
a atriz Anecy Rocha ) tinha morrido. Em 1980, foi a vez de meu
marido ( Adamastor ). E, em 1981, de Glauber. Foi um impacto
muito grande. E eu já tinha perdido uma filha de 11 anos, de leucemia, em
1952. A família acabou. Fiquei doente e tive que pôr cinco pontes de
safena. Glauber morreu em agosto e em dezembro fui operada. Eu estava
muito frágil e aí, 20 dias depois da morte de meu filho, leio no jornal o
Silvio dizer: “Meu próximo filme será o velório de Glauber.” Botei o
jornal debaixo do braço, peguei um táxi e passei primeiro no hospital,
porque a pressão subiu de maneira terrível. Em seguida, bati na casa do (
produtor ) Luiz Carlos Barreto e disse: “Não vou deixar de jeito
nenhum.” Falei que enquanto eu estivesse viva esse filme não sairia. Pedi
para o Celso Amorim ( então presidente da Embrafilme ): “Pelo
amor de sua mãe, não deixa.” Ele falou que não ia deixar. Eu estava com a
cabeça muito louca. Desculpe, Silvio.
SILVIO TENDLER: Imagina, dona Lúcia, compreendi perfeitamente bem a
dor da perda.
Tendler, por que você não foi para os jornais reclamar da proibição?
TENDLER: Achei que não valeria a pena forçar a barra. Seria mais
produtivo esperar baixar a poeira. Uma briga com dona Lúcia era ruim por
dois motivos: primeiro porque iria brigar com a mãe do personagem que eu
iria biografar e segundo porque brigar com ela é brigar com o cinema
brasileiro inteiro.
D. LÚCIA: Acho que você está jogando muito confete e serpentina em
mim ( risos ).
TENDLER: Eu iria me queimar no meio cinematográfico. E eu não
conseguiria fazer este filme sem os depoimentos dos amigos de Glauber e
sem as pessoas que cederam documentos e arquivos.
Tendler, como você conseguiu evitar que a história sobre a proibição
viesse a público?
TENDLER: Era horrível a perspectiva de nunca fazer o filme, mas fiz
voto de silêncio. Sempre me recusei a falar justamente por causa do “Di”.
Qualquer coisa que eu dissesse poderia prejudicar a luta da família de
Glauber pela liberação do filme.
Dona Lúcia, não era uma contradição sua família tentar liberar “Di” e a
senhora vetar as imagens sobre o velório de Glauber?
D. LÚCIA: As pessoas falavam: “Mas o Glauber fez o ‘Di’.” E eu
dizia: “É, mas o Di não tem mãe.” Eu estava com medo de tudo. Havia muitos
inimigos de Glauber no velório, gente que falava muito mal dele e depois
estava lá. Hoje eu acho uma coisa bonita, eles estarem no velório de um
cara que não gostavam ou que gostavam e tinham medo de dizer que gostavam.
Mas na época eu pensava diferente. Vi aquelas pessoas me abraçando e
pensei: “Ah, não.” Não estou arrependida de ter liberado, nem de ter
segurado. Na ocasião, não dava mesmo. Eu tinha perdido a família inteira e
de repente o Silvio aparece falando que ia fazer o filme, sem nem ao menos
dizer que ia combinar comigo. Mas era coisa de criança, ele era um menino.
E como vocês fizeram as pazes?
TENDLER: Foi por causa de uma reportagem do GLOBO que falava sobre
a proibição ao filme “Di”. No texto, o Cacá ( Diegues )
comentava: aconteceu a mesma coisa com o Silvio, que não pode acabar o
“Glauber”. Aí começou um processo de aproximação, feito por amigos como
Orlando Senna e o próprio Cacá. Até que liguei e falei: “Dona Lúcia, sou
eu, Silvio Tendler.” Houve silêncio do outro lado e eu disse: “A senhora
não precisa gostar de mim, mas precisamos conversar olhos nos olhos.”
Fomos almoçar e celebramos a paz.
D. LÚCIA: As pessoas mudam de idéia. Eu pensei: “Não sou nenhuma
Elizabeth, que proíbe o filme do meu filho sem nunca ter visto. Um dia eu
tenho que enfrentar isso.” Ficamos 18 anos de mal, mas depois vi filmes do
Silvio e gostei muito. Pensei: “Esse cara vai fazer um negócio
direitinho.”
A senhora já viu quantas vezes o filme de Tendler sobre Glauber?
D. LÚCIA: Três vezes. Choro toda vez. Preciso tomar calmante antes.
Sempre que passa, o Silvio me leva para ver. Em Tiradentes, Salvador, no
Rio... Se passar no Festival de Cannes, ele vai fazer malandragem comigo e
não vai me levar ( risos ).
TENDLER: Não vou sem a senhora.
Tendler, você fez filmes sobre JK, Jango, Castro Alves, Oswaldo Cruz,
Carlos Marighela, Glauber, Josué de Castro, Paulo Carneiro e, agora, sobre
Milton Santos. O que há em comum entre eles?
D. LÚCIA: É o cemitério inteiro. É gostar de defunto ( risos
).
TENDLER: São pessoas que viveram de forma ousada. Temos que
valorizar nossos heróis, gente que interferiu para construir a nossa
nacionalidade. Glauber, Castro Alves, Milton e Marighela são baianos da
pesada. Glauber, Marighela e Milton são castro-alvistas . Jango e
JK são a politica macro. Josué é porque foi a primeira vez que alguém
falou de fome no Brasil, o que tem a ver com Glauber e a questão da
estética da fome. Paulo Carneiro ajudou a criar o Cinema Novo no Brasil. A
escolha não é gratuita, tem uma intercessão entre eles, além do cemitério
( risos ). E estou fazendo “Utopia e barbárie”, que só tem vivos,
dona Lúcia ( risos ).
D. LÚCIA: Quando eu morrer, você faz o meu velório. Já liberei.
Durante esses 18 anos, vocês se falaram?
TENDLER: A gente se cruzava muito. Uma vez, sem querer, eu pisei no
pé dela no saguão de um hotel.
D. LÚCIA: Ele pisou no meu pé de propósito. Empurrei-o e falei:
“Sai daqui.”
TENDLER: Ela fez uma cena. Aí eu descobri o talento dela como atriz
( risos ).
D. LÚCIA: Ele sabe que eu gosto muito do Festival de Brasília.
Quando era diretor, não mandou passagem para mim.
TENDLER: A senhora não pediu!
D. LÚCIA: Um dia falei para o Silvio: “Estou sem dinheiro.” Ele
falou: “Vou lhe dar um cheque.” Fiquei feliz, mas quando olhei ele tinha
desenhado uns beijinhos, escrito “mil beijos” e assinado Silvio Tendler.
Eu crente que era dinheiro. E esse cheque deu briga na família, pensaram
que era dinheiro. Acharam que o Silvio Tendler estava comprando dona
Lúcia!
(© O Globo)
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