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Virtuoses do inusitado

05-06-2008

João Paulo Engelbrecht

Hermeto (D) faz do clarinete um guidon e usa, com Paulo Sérgio (E) e Guinga, o penico como capacete

Paulo Sérgio Santos e Guinga se apresentam com Hermeto Pascoal no CCBB

Helena Aragão

   Num país onde caixinha de fósforo já é popular instrumento de batuque, um músico de barba branca e vitalidade de garoto, apesar dos 68 anos, espalha sua cartilha de mensagem simples: tudo se experimenta, nada é proibido, desde que produza barulho interessante. Ao longo do mês, Hermeto Pascoal - o bruxo, na definição de muitos - vai demonstrar estes ensinamentos no palco do CCBB do Rio. Ele é a inspiração da série Até pinico dá bom som, que inaugura hoje, tendo Guinga e Paulo Sérgio Santos como convidados. Nas próximas semanas, o palco será ocupado por outros admiradores do feiticeiro: Naná Vasconcelos, Uakti, Badi Assad e Barbatuques.

   A homenagem a Hermeto já é explícita no título da série, tirado de uma frase da canção Chá de Panela, que Aldir Blanc e Guinga fizeram sobre o processo de criação do bruxo. O letrista tem participação indireta no projeto: autorizou o uso da frase, com a condição de que ''pinico'' saísse assim, com i mesmo. Dentro do espírito anárquico da licença poética, as três feras em seus instrumentos - Guinga no violão, Paulo Sérgio no clarinete e Hermeto... bem, no piano, na escaleta, nos bonecos de plástico e no que mais pintar - vão mostrar que a originalidade pode ter variadas facetas.

   - Clarinete e violão são instrumentos caretas só para quem é careta. O Guinga e o Paulo Sérgio nunca tocam uma música da mesma maneira, não são convencionais - explica Hermeto, que em seguida pega o clarinete de Paulo e começa a tocá-lo de cabeça para baixo.

   O histórico de Guinga ao lado do compositor alagoano teve início em 1988, quando subiu a um palco como solista pela primeira vez, no Circo Voador ao lado de Hermeto. Os dois chegaram a fazer uma temporada juntos no Rio, nos anos 90.

   - Vou relembrar a primeira visita que fiz ao Jabour (bairro da Zona Oeste do Rio onde Hermeto morava) tocando meu choro Picotado, que apresentei à ele naquele dia - adianta o violonista.

   Lembranças musicais foram a tônica do ensaio da última sexta-feira, que contou com um Hermeto incansável, um Guinga falante e gargalhante como nunca, e um Paulo Sérgio mais contido, mas tão empolgado quanto os demais.

   - É o ensaio mais louco que já vi - comentou Paulo, ao ser intimado a colocar um penico na cabeça e ver seu clarinete virar guidon de motocicleta nas mãos de Hermeto. Tudo isso para a sessão de fotos.

   Diferente de Guinga, Paulo nunca se apresentou junto com o mestre. O máximo que fez foi abrir um show dele, com seu Quinteto Villa-Lobos. Mas sempre foi um dos freqüentadores da casa do Hermeto, onde ganhou mais do que intimidade. Ao chegar no ensaio, tirou da pasta uma partitura que viu o mestre criar para ele num desses encontros, em 1998: uma peça para clarinete solo, batizada somente agora com o nome Paulinetando.

   O que vai entrar no repertório do show, só Deus sabe. Guinga mostrou dois choros novos de sua autoria, e também tocou composições que conheceu no Jabour - sempre de cabeça, já que não lê partitura.

   - Rapaz, nem me lembro disso. É meu? - perguntou Hermeto, curioso.

   O diálogo faz pensar em quantos shows seriam necessários para que o público conhecesse as músicas que Hermeto fez assim, espontaneamente, para seus convidados. Mas os tempos são outros. A tradição dos saraus musicais do Jabour foi quebrada há dois meses, desde que o Bruxo se mudou para Curitiba para morar com a namorada, Aline Morena, uma cantora paranaense de 24 anos.

   - Disseram que me mudei há mais tempo, que falei mal do Rio. Não foi nada disso. A violência teve um pouco a ver com a minha partida, mas é claro que não foi o motivo principal. Minha família continua morando no Jabour.

   Mais magro, com menos shows agendados, Hermeto tem se dedicado à criação no apartamento em que vive com Aline. Acompanha os progressos da namorada ao piano, ensaia com ela para um show em São Paulo e prepara um novo livro de partituras, ao estilo do seu Calendário do som, lançado em 2000. Quando tem tempo, faz exercícios físicos numa esteira. Isso quando consegue se manter disciplinado ao ouvir os ''barulhos maravilhosos'' que a geringonça faz.

   Brincadeiras à parte, os três voltam a falar sério quando o assunto é trabalho. Sobretudo quando a cantora Monica Vasconcelos, uma brasileira residente em Londres que assistia ao ensaio a convite de Guinga, aproxima-se do bruxo e comenta:

   - Quando falo com o Chick Corea e pergunto que músico ele mais admira no Brasil, ele responde: Hermeto. Faço a mesma pergunta ao Marsalis e ele responde: Hermeto.

   - Então faz um favor. Peça para eles falarem isso quando vierem ao Brasil - respondeu o bruxo, de pronto.

   Ele não faz troça. Se é ídolo de muitos brasileiros - e a garotada que freqüenta seus shows confirma isso -, continua, paradoxalmente, pouco ouvido em disco por aqui.

   Guinga e Paulo Sérgio, amigos de longa data, também têm hoje uma carreira internacional cada vez mais consolidada. Com um disco recém-lançado na praça (Noturno Copacabana), Guinga acaba de voltar de uma turnê americana, e em breve vai para a Europa. No Brasil, fez poucos shows de lançamento, em São Paulo e Paraty, por exemplo. No Rio, os fãs ainda estão à espera.

   - Até agora não consegui agendar nada - lamentou.

   Paulo tem mil projetos na cabeça. O próximo a se realizar será também internacional: um disco com o clarinetista italiano Gabriele Mirabassi - com quem Guinga também gravou recentemente - e o violonista Zé Paulo Becker.

   Fim de conversa, volta ao ensaio. Diferente do amigo Paulo, Guinga diz que não tem coragem de experimentar novos instrumentos ou ou tentar tirar som de objetos. Mas pouco depois arrisca-se a fazer som com o penico, que tira da cabeça, às gargalhadas. Sob a batuta de Hermeto, só pára quando o mestre dá a deixa:

- É bom não ensaiar muito para ficar melhor!

(© JB Online)

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