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Mesmo que o tempo e a distância...

05-06-2008

Marcus Dias e Isaac Cândido (com o violão), hoje

Doze anos depois, os cantores cearenses Isaac Cândido e Marcus Dias voltam a subir juntos no palco. Eles revivem a antiga dupla, em apresentação única no TJA

   ''Sábado/ É o dia dos bêbados/ E das moças católicas/ Que vão para a missa rezar/ Pra tentar encontrar algum/ Bêbado/ Aquele cara simpático/ Quando não está estático/ Sentado na mesa de um bar/ A tentar encontrar algum/ Método/ De burlar o estético/ De furar o ilógico/ E de tentar conquistar/ Uma moça que não sabe nada dos/ Bêbados''. Na virada dos anos 1980 para 1990, uma bem-humorada homenagem à boemia tornou-se um hit nos bares e rádios locais. ''Os Bêbados'' trazia a assinatura da dupla cearense Isaac Cândido e Marcus Dias e sua empatia instantânea acabava resultando até mesmo em situações picarescas.
''Certa vez, fomos participar do Festival de Música de Camocim e inscrevemos duas canções, 'Os Bêbados' e 'Outra Estação'. Essa até foi mais bem classificada. Mas 'Os Bêbados' caiu nas graças do público, principalmente dos boêmios da cidade. Resultado: na hora da apresentação, subiu um monte de 'bebinhos', puxados pelo mais famoso da cidade, chamado Lelé Saboya, para cantar junto da gente. Foi a coisa mais desafinada do mundo. Sem falar que eles erraram a letra toda'', diverte-se Marcus.

   Apesar do sucesso em Fortaleza e de até terem arriscado uma incursão em outros estados, Isaac e Marcus resolveram seguir caminhos separados, a partir de 1992. Isaac continuou com a música, dividindo-se entre o Rio e Fortaleza. Marcão virou empresário - esteve à frente do Domínio Público, reduto da dança na década passada. ''Ele não assumiu a música'', diz Isaac. Doze anos depois, a dupla está reunida de novo. O palco do Theatro José de Alencar (TJA) recebe Isaac Cândido e Marcus Dias no espetáculo Algo sobre a Distância e o Tempo, hoje, a partir das 21 horas.

   O show terá participação especial de Raimundo Fagner. Para acompanhá-los, Adelson Viana (acordeon e piano), Carlinhos Patriolino (violão de 12 cordas e bandolim), Lu de Souza (guitarra), Luisinho Duarte (bateria e violão de sete cordas) e Ricardo Leite (baixo e baixolão). ''O espetáculo terá três momentos. Um primeiro que será mais acústico, a participação do Fagner, para qual vamos guardar surpresas, e, por fim, um momento mais descontraído'', revela Isaac.

   Não é a primeira vez que os dois pensam num reencontro. Agora, há um fator novo. ''O interessante deste show é que o Isaac me chamou para a gente fazer alguma coisa juntos exatamente no momento em que voltei a escrever'', conta Marcus. Isso aconteceu há uns dois meses. Nos escritos do letrista, uma nova temática - o tempo e a distância - que acabou por batizar o espetáculo. Dessa forma, as músicas antigas que, por coincidência, versam sobre o tema, serão intercaladas com os novos textos de Marcus. E é claro que ''Os Bêbados'' não ficará de fora. O show de logo mais contará ainda com intervenções videográficas de Alexandre Veras. ''O Alexandre vai mostrar imagens em vídeo, inspiradas nos textos. Mas nada do tradicional telão. São várias telas que criam outras dimensões'', explica Marcus.

   A apresentação de espetáculos multimídia não é novidade para Marcus e Isaac. Pelo contrário, essa sempre foi uma das características do trabalho dos dois. O ex-vizinhos de Bairro de Fátima - ''separados por quatro casas'', lembra Isaac - começaram a tocar juntos em 1986. Durante cinco anos, firmaram-se no circuito de bares, cantando no Cana Verde, Boca de Forno, Outras Palavras e Bar Academia, entre outros. ''Já nessa época, nosso show tinha como base a música e a leitura de poemas. Outra coisa legal é que 99% do repertório era de composições próprias. Nas apresentações, também era distribuído um folder com as letras e ficha técnica. Era o tempo do A poesia pelos cantos'', afirma Isaac. Em 1991, o amigo Drawlio Joca chegou com a nova proposta de um show conceitual. Nascia Para Bom Entendedor MPB, com direção artística de Drawlio. ''Tinha roteiro, slides, dança'', descreve Marcus. A estréia aconteceu no BNB Clube. Depois, eles passaram pelo TJA e deslancharam. Fizeram a abertura para Moraes Moreira na festa de Santo Antônio em Barbalha, apresentaram-se em calouradas da Universidade Federal do Ceará (UFC).

   Isaac e Marcus decidiram, então, conquistar novos públicos. Partiram para Brasília, acompanhados por Drawlio. Passaram um mês por lá. Para Bom Entendedor MPB foi apresentado na Sala Martins Penna do Teatro Nacional. Também tentaram a sorte no 3º Festival Carrefour de MPB, realizado em cinco estados. Marcus e Isaac estiveram na eliminatório de Goiás, com ''Os Bêbados'' e ''A Máquina''. Por essa época, a dupla passou por uma verdadeira aventura. ''Quando a gente estava em Brasília, um maluco nos convidou para fazer um show em Cornélio Procópio (Paraná). Era para ser num restaurante, mas quando a gente chegou lá o lugar estava falido. Não deu ninguém no show. Tinha apenas uma mesa que eu desconfio que estava ocupada pelos parentes do dono. Com o bolo, a gente ficou sem dinheiro para pagar o hotel. Ficamos 'presos' lá. A gente até podia ir embora, mas as coisas tinham que ficar. A sorte é que o dono do restaurante era gente fina e ficou nosso amigo. A gente almoçava na casa dele e, uma semana depois, ele conseguiu o dinheiro para o hotel e as passagens de volta'', lembra Marcus.

   De volta a Fortaleza, montaram novo show: Todos Nós Enfim, tendo a produção de outra fotógrafa, Nely Rosa. A montagem estreou em julho de 1992. Eles chegaram a cantar no Rio de Janeiro. Mas a dupla não iria durar mais por muito tempo. Isaac quis voltar ao Rio. Marcus ficou. Hoje, Isaac foi ''apadrinhado'' pela cantora Leny Andrade. ''Fiz a abertura de 22 shows dela e ainda me apresentei nos espetáculos. Também estou com o produtor Djalma Marques, que trabalha com a Leny, Pery Ribeiro e César Camargo Mariano'', afirma Isaac, acrescentando que volta ao Rio depois do show de hoje. Ou seja, o reencontro de Isaac e Marcus será uma apresentação única. (Patrícia Karam)

DE ISAAC PARA MARCUS

''O Marcão é, sem dúvida, o meu melhor parceiro de música, de estrada e de vida. Ao longo desses quase vinte anos de amizade, trabalhando juntos ou não, já viramos uma dupla meio ''crônica''. Na verdade, não podemos falar de retorno mas de reencontro, ou até mesmo de um prazeroso encontro de dois grandes amigos''.

DE MARCUS PARA ISAAC

"É incrível como o tempo consegue enganar a gente! Quando resolvemos fazer esse show, a primeira coisa que veio às nossas cabeças foi justamente essa questão do afastamento. Só aí eu percebi que a gente tinha perdido completamente a noção do tempo, pois o Isaac, assim como eu, pensava que fazia no máximo seis anos que a dupla tinha ''acabado'', quando, na verdade, fazia doze. Mas o mais legal disso é descobrir que nada mudou na nossa velha amizade, pelo contrário, amadureceu e ficou ainda mais forte''.

Serviço:
Algo sobre a Distância e o Tempo
- Show dos cantores Isaac Cândido e Marcus Dias. Hoje, no Theatro José de Alencar, às 21 horas. Ingressos: R$ 10,00 (inteira) e R$ 5,00 (meia). Informações: 452-1590 e 452-1561.

(© NoOlhar.com.br)

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