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05-06-2008
Fernando Trueba terminou filmagens de seu novo documentário, realizado no reino da Timbalada.Fernando Trueba diz que seu filme trata de Salvador, fala do artista Carlinhos Brown e dá mais atenção à "transformação social que aconteceu no bairro (Candeal Pequeno) através da música" O próximo filme do espanhol Fernando Trueba - um dos mais respeitados cineastas da Europa - pode ser definido como uma tentativa de resgate da diáspora africana. Na Bahia, o pianista Bebo Valdés, lenda da música cubana, 85 anos de idade, 41 deles exilado na Suécia, veio tentar se reencontrar com suas raízes negras. Sobretudo na música e na religião, tendo como cenário principal o Candeal Pequeno, e como cicerones os músicos Carlinhos Brown e Mateus Aleluia - ex-integrante do grupo Os Tincoãs, que marcou época pelo ineditismo de trabalhar com temas do candomblé. Em entrevista coletiva realizada anteontem, um dia antes de embarcarem de volta para a Espanha, Fernando Trueba e Bebo Valdés deram detalhes sobre a produção, que tem nome provisório de O milagre do Candeal. "Bebo já me havia falado da vontade de conhecer Salvador. Imaginei um filme que falasse da cidade, de Brown e da transformação social que aconteceu no bairro através da música. Tudo isso pelo olhar estrangeiro de Bebo. Pode parecer estranho, mas no fundo, as raízes entre Cuba e Bahia são muito coerentes", afirmou Trueba. O desejo de Bebo é antigo e remonta à sua vida em Cuba, sua formação musical e à sua mãe, que era iniciada na Santeria, o equivalente ao nosso candomblé. "Quem não gosta de samba...", cantarolou o simpático Bebo, dizendo que começou a gostar da música brasileira nos anos 1940, encantado com Aquarela do Brasil, de Ari Barroso, "um hino em toda Antilhas". Ele também tem intimidade com o candomblé e interesse, de uma forma geral, pela herança iorubá. É por isso que uma das pessoas que mais impressionaram o músico foi Dona Angelina, a ialorixá Mãe Mayamba, que ele diz lembrar sua própria mãe. Mãe Mayamba é uma das personagens do filme de Trueba. Ela aparece ao lado de outras pessoas do Candeal, como seu Mariano - que apresentou a música cubana a Brown - a líder comunitária Chita e muitos meninos e meninas de lá. O quadro se completa com os artistas Caetano Veloso (de quem Trueba é amigo e fã), Gilberto Gil e Marisa Monte. Trueba conta que já tinha ouvido falar de Brown e, numa visita à Espanha, ano passado, o baiano o visitou. Daí surgiu a idéia de conhecer Salvador, o que o cineasta fez em agosto do ano passado. As filmagens duraram sete semanas e incluem locações no Pelourinho, na Igreja do Rosário dos Pretos, na Ribeira e no Carnaval. Oscar e mercado - Projetado para o mundo a partir de 1994, ano em que ganhou o Oscar de melhor filme estrangeiro por Sedução (Belle époque), Trueba tem um forte discurso contra a indústria do cinema americano. "O mundo é muito estúpido em dar tanta importância ao Oscar", criticou Trueba, acrescentando que se aproveitou do fato de ganhar a premiação para conseguir créditos a fim de embarcar em projetos como O milagre do Candeal. "Nunca faço filmes pensando no mercado, senão estaria fazendo outras coisas", disse o cineasta, que pretende lançar o trabalho mundialmente, em setembro. Antes disso, ele fará uma exibição no Candeal e tentará uma parceria com alguma tevê brasileira. De volta à Espanha, Trueba vai editar o material de mais de 50 horas de filmagens que tem nas mãos. Tudo foi filmado formato mini DV, para depois ser passado para película. Trueba define O milagre do Candeal como um "musical social" e diz que gostaria que ele servisse de exemplo para outras sociedades que vivem em situações desfavoráveis. "O Candeal é um lugar onde se apresenta uma nova maneira de ajudar as pessoas", elogia o cineasta. A música propriamente dita aparece em números solos de Bebo e de Brown ou em parcerias de Bebo com o grupo Hip Hop Roots (do Candeal) ou com Mateus Aleluia. A parte musical foi comandada pelo técnico de som francês Pierre Gamet, que trabalha com Trueba desde 1979, inclusive no elogiado documentário musical Rua 54 (2001), no qual ele conta a história do jazz latino. Bebo Valdés e seu filho, o também pianista Chucho Valdés - que vive em Cuba e é considerado um dos maiores músicos cubanos vivos - participam do documentário de Trueba, num encontro emocionado, após cinco anos sem se verem. A partir daquela produção, o cineasta e o velho pianista estreitaram laços, que resultaram na produção do disco Lágrimas negras (2002) e do filme no Brasil. O próximo trabalho de Trueba no cinema será um projeto com a atriz Penélope Cruz, com quem ele já havia trabalhado em Belle époque. "Tenho vários projetos, alguns na Espanha, mas este me interessou porque é bem diferente do que faço habitualmente, um pouco na linha Hitchcock", contou. (© Correio da Bahia) Uma história chamada Bebo Valdés Quem assistiu ao show de Carlinhos Brown no último Festival de Verão deve ter se encantado com a elegância do senhor ao piano, que o acompanhou em duas músicas. Era Bebo Valdés, superatuante do alto de seus 85 anos. Encantado com a Bahia, o pianista, pai de seis filhos, entre eles o virtuoso Chucho Valdés, de alguma forma revive nas gravações a sua longa e movimentada trajetória de vida. Bebo nasceu em 1918, na cidade cubana de Quivicán. Começou tocando piano em orquestras, dirigiu várias delas, tornando-se um nome importante da música pré-revolução. Sua história com o jazz começa nos anos 50, quando gravou músicas do gênero para o mercado americano, atendendo a pedidos do produtor Norman Granz. Em 1960, o artista deixa Cuba, passando a morar, a partir de 1963, em Estocolmo (Suécia). Lá, o artista casou e teve dois filhos. "Descobri um país que me deu tudo", afirmou Bebo. Ele disse que está totalmente adaptado à Suécia e que não tinha como ser diferente, já que foi expulso de sua terra e abraçado em outra. Durante muitos anos, Bebo trabalhou na noite sueca. Passou 34 anos sem gravar, o que só voltaria a fazer em 1994, através de um convite de Paquito de D''Rivera. O disco era Bebo rides again, para o qual ele compôs 11 músicas em 36 horas, e que representou uma retomada em sua carreira. Depois deste disco e do filme de Trueba (Rua 54), veio o disco Lágrimas negras, dueto com o cantor espanhol Diego el Cigala, 36 anos, que se tornou um sucesso na Espanha, com mais de 200 mil cópias vendidas. Revigorado com a nova fase, Bebo estreitou o contato musical com Cuba. Ano passado, ele fez um concerto nas Ilhas Canárias, juntamente com seu filho, Chucho, e com a neta, Dayane Valdés, 20 anos, também pianista e novo talento da família. Bebo só não quer voltar ao país, porque quando o desejou muito, em 1978, quando da morte de sua mãe, não obteve permissão. "Não tenho mais vontade", disse, sorriso no rosto e olhar perdido em lembranças. (© Correio da Bahia)
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