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05-06-2008
Passados 23 anos da morte de Glauber Rocha, documentário sobre o cineasta baiano, realizado por Silvio Tendler, chega aos cinemas e apresenta depoimentos e cenas históricas
MARCIO PINHEIRO Um dos maiores segredos envolvendo Glauber Rocha (1939-1981) está para ser revelado a partir de amanhã. Desde a morte do cineasta baiano, o documentarista Silvio Tendler, 53, foi impedido de fazer o documentário "Glauber, o Filme, Labirinto do Brasil", que finalmente entra em cartaz. À época, dona Lúcia Rocha, mãe de Glauber, não suportou assistir às imagens do enterro do filho e embargou o longa. Ela soube pelos jornais que Tendler filmara o enterro do filho (não tinha percebido que estava com uma câmera) e que pretendia usá-las em um documentário. Ao tomar conhecimento da idéia, Lúcia impediu a finalização e o lançamento do filme. O documentarista acatou e guardou o segredo. Em 1999, dona Lúcia mudou de idéia. A idéia de fazer o filme surgiu no dia em que Glauber morreu. "Fui na casa de saúde onde ele estava internado, aí o Cacá [Diegues] e o Joaquim Pedro [de Andrade] me pediram para filmar o velório e o enterro para fazer uma homenagem a ele. Eles queriam que fosse alguém da minha geração", explica Tendler, que ganhou, com o longa, os prêmios de melhor filme pelo júri popular e da crítica no Festival de Brasília de 2003. Tendler diz ter aceito a recusa de dona Lúcia não só por respeito à dor, mas "para não prejudicar a liberação de "Di" [curta-metragem sobre o pintor Di Cavalcanti; leia abaixo], que estava sob embargo da Justiça. E qualquer coisa que eu falasse sobre Glauber daria razão à censura de "Di'". Dona Lúcia diz que não houve uma razão específica para a liberação do filme tantos anos depois. "Não sei por que resolvi liberar. As pessoas falavam comigo, pediam e, então, um dia, resolvi [liberar]", explica ela, que ficou 18 anos sem contato com Tendler. "Sempre fui a festivais de cinema e sempre o encontrava, mas não falava com ele." Tendler diz que essa demora foi positiva. "Se tivesse finalizado o documentário naquela época, teria ficado bem diferente. É doloroso esse tempo de espera, mas acho que dona Lúcia tem razão. Ficou melhor." No filme, para mostrar "quem é Glauber Rocha", Tendler une imagens de entrevistas do cineasta, depoimentos de gente como Darcy Ribeiro (1922-97), Nelson Pereira dos Santos, Arnaldo Jabor, Nelson Motta, José Celso Martinez Corrêa...
Não bastasse o problema da demora em
obter as imagens, Tendler teve de lidar com problemas técnicos. Os rolos de
fita de áudio sumiram quando as imagens do enterro de Glauber foram da
Embrafilme para a Cinemateca Brasileira. Segundo Tendler, a perda mais
dolorosa foi o depoimento de Joaquim Pedro de Andrade, "que em 1981 disse
que os cineastas estavam morrendo de câncer; e ele morre, oito anos depois,
de câncer, sem saber". Assim que teve acesso às imagens, em 1999, Tendler não sabia por onde começar. "Não tinha nada na cabeça [para o documentário]. Cinema é construção, você vai fazendo. Pra mim é como montar um quebra-cabeça. Eu vou descobrindo o filme à medida que vou fazendo. Não sei escrever roteiro de cinema." Agora, 18 anos após a morte de Glauber, "teria cabimento fazer um filme sobre velório", afirma o diretor, que se refere ao cineasta no presente. "Aí, a homenagem virou um filme do Glauber vivo, e não dele morto. Glauber é inapreensível; ele está sempre imprevisível." Para Tendler, falar sobre Glauber é falar sobre alguém que quebrou padrões ao fazer cinema no Brasil. "Imaginar o cinema antes da geração do Glauber é imaginar a chanchada, os dramalhões da Vera Cruz. Ele faz um cinema realista, fora dos estúdios." Além do lançamento de "Glauber, o Filme", Silvio Tendler está em dois outros projetos. Realiza "Utopias e Barbáries", para o qual já entrevistou alguns ícones do cinema europeu de esquerda dos anos 50, como Francesco Rossi, além de um longa sobre o geógrafo Milton Santos, morto em 2001. Tendler ressalta também o Glauber documentarista ("Maranhão 66", de 1966, "Amazonas, Amazonas", de 1965, entre outros). Para o diretor, Glauber abriu caminho "para muita coisa que está aí hoje, como "Cidade de Deus", um filme que fala da realidade social brasileira. Esse é o tipo de cinema que ele prega".
No documentário, Tendler acaba
"popularizando" a figura de Glauber, mas não suas obras. "Ele não fazia os
filmes com a meta de atingir público. Ele tinha a meta de falar o que ele
quisesse falar." Além de liberar cenas inéditas do enterro de Glauber para o documentário de Tendler, a família Rocha vai tornar públicas as cenas de outro velório. Trata-se do curta-metragem "Di", no qual Glauber filma o velório do pintor modernista Emiliano Di Cavalcanti (1897-1976) a seu pedido. Desde 1977 o filme está proibido de ser exibido pela Justiça a pedido da filha do pintor, Elisabeth Di Cavalcanti. Uma saída jurídica, contudo, foi encontrada por João Rocha, sobrinho de Glauber. Ele vai disponibilizar o filme em um provedor internacional, pois o processo não impede que o filme seja visto fora do país, segundo seu advogado, José Mauro Gnaspini. "Di" já ganhou o prêmio Especial do Júri no Festival de Cannes em 1977. A inauguração do site que abrigará o filme está programada para abril. (© Folha de S. Paulo) CRÍTICA INÁCIO ARAUJO "Glauber O Filme, Labirinto do
Brasil" tem a intenção mais ou menos ostensiva de buscar o lugar de Glauber
Rocha na cultura brasileira. Se isso acontece, é por Glauber permanecer uma
das figuras intelectuais mais enigmáticas do século 20. Ora, esse Glauber chega ao século 21 praticamente ignorado. Pelo "grande público", o que não é surpresa -seus filmes nunca foram populares. E pelos próprios cineastas -o que é mais espantoso do que surpreendente. Silvio Tendler, realizador deste documentário, pretende endereçar-se sobretudo a essa grande quantidade de espectadores que não viram ou não entenderam bulhufas dos filmes de Glauber. Para tanto, "Glauber o Filme" deve não apenas deter-se na personalidade exuberante do cineasta baiano, como de certa forma fazer o levantamento das circunstâncias da vida deste homem. Contextualizá-lo, digamos assim. Temos então não apenas o cineasta, mas o cineasta e seu tempo: que questões desafiavam os intelectuais daquele momento e por que a instauração de um cinema conseqüente era estratégica à tarefa de libertação nacional imaginada pelos intelectuais. É às gerações pós-redemocratização que "Glauber" se endereça, antes de mais nada, convidando-as a meditar sobre a morte e o enterro de Glauber. Enterro, por sinal, que Tendler filmou com extrema delicadeza. A filmagem é quase envergonhada, como se captasse algo que não devia e, sobretudo, não queria ver (o fato de retomar essas imagens repetidas vezes enfatiza, curiosamente, bem mais esse pudor do cinegrafista que um suposto voyeurismo). Resta que a tarefa a que se propõe "Glauber" é eminentemente didática. Aplicada a um personagem antididático como Glauber, termina por criar uma contradição forte em relação ao personagem. Glauber é dessas figuras que vieram mais confundir que para explicar. O filme, de certa forma, o lineariza, torna explicável, um transparente "anti-Glauber". Glauber o Filme, Labirinto do Brasil (© Folha de S. Paulo)
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