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Produção musical do Recife no Raio X

05-06-2008

O músico pernambucano Erasto Vasconcelos, em show com a cantora Karina Buhr

Estudo inédito traça cadeia produtiva da música no Recife para nortear política cultural para o setor

Michelle de Assumpção
Da equipe do DIARIO

   Os grandes grupos e artistas da música pernambucana estabeleceram suas bases fora do Estado. Para trazê-los para um show na cidade (como os muitos que aconteceram durante o Carnaval) são necessários recursos iguais aos que trariam qualquer outra atração de projeção nacional. Ou seja, o governo está importando seus próprios valores. Outra: as bandas locais que começam a atrair atenções para o seu trabalho encontram entraves no financiamento para suas produções, gente capacitada para viabilizá-las (produtores, técnicos, etc) e meios de difusão. Essas, entre outras constatações, são preocupações que começam a mover ações do poder público e isoladas dos próprios artistas (vide o trabalho feito pela Articulação Musical Pernambucana - AMPE). Um estudo inédito do setor irá nortear o segmento e a política cultural para ações concretas e mais eficientes a partir de agora.

   O Estudo da Cadeia Produtiva da Música na Cidade do Recife - uma iniciativa da Prefeitura do Recife, coordenado pelo Centro Josué de Castro - teveinício em 2002 e será concluído durante o Fórum da Música da Cidade do Recife, dias 23 e 24 deste mês, no Sebrae da Conde da Boa Vista. Ainda na primeira fase da pesquisa, o Josué de Castro, através principalmente de questionários preenchidos pelos próprios artistas, identificou a dinâmica interna da cadeia da música, a partir de seus dois principais produtos: o CD (ilustrando essa reportagem) e o show. O trabalho identificou também os entraves existentes entre os elos da cadeia e que impedem o êxito de seu funcionamento.

   PRENSAGEM - É o caso, por exemplo, da falta de profissionais devidamente qualificados para ocupar o cargo de produtor de uma banda, de um show ou festival; técnico de som e de luz e até roldie (cara que ajuda a banda com os instrumentos, no palco, antes e durante o show). No caso da gravação de um disco, podem ser citados como barreiras, a falta de uma fábrica de prensagem no Estado, ou de um estúdio de qualidade que possa realizar o trabalho de masterização do CD. A maioria desse tipo de serviço ainda é feito por profissionais do eixo Rio/São Paulo.
 
   "Como Pernambuco ainda não tem uma fábrica, ou técnicos qualificados? O que temos ainda é muito pouco para um estado que reconhecidamente tem uma das cenas musicais mais ricas do mundo", diz Roger Man, vocalista da banda Bonsucesso Samba Clube. O músico, que integra a AMPE e fará parte do Fórum, diz que o governo demorou a enxergar Pernambuco como um diamante bruto na área musical. "Poderíamos estar num patamar bem mais evoluído", diz ele.

   O Estudo da Cadeia Produtiva parece óbvio para quem é do setor. Todo músico conhece a estrutura, os serviços e profissionais envolvidos no processo de gravação de um CD ou realização de um show, assim como as carências desse mercado. No entanto, é de extrema importância para que tanto governo quanto iniciativa privada (além dos próprios artistas nos seus argumentos) saibam quais são os principais problemas desses processos, identificados na pesquisa como gargalos.

   O Fórum que acontece no final deste mês reunirá alguns integrantes da cadeia, pelos menos os mais diretamente beneficiados por ela: artistas, produtores, poderes público e privado (financiadores) e mídia difusora. O Centro Josué de Castro pretende dividir os artistas em cinco grupos de trabalhos, separados por estilos musicais: manguebeat, cena pernambucana, música de raiz, música instrumental e brega, esse com forte repercussão econômica no Estado (é o gênero, por exemplo, que domina o espaço de shows nos programas de auditório locais).

   Coordenadora da pesquisa do Josué de Castro, Clara Bahia diz só ter sido possível contemplar alguns estilos no Fórum, dentre quase 23 identificados pela pesquisa. Lembra, porém, que todos serão beneficiados pelo estudo, cujo objetivo é o perfeito funcionamento da cadeia. "Só teremos êxito se conseguirmos que haja interferências que dinamizem a cadeia produtiva", diz ela. Para isso, ao final do Fórum, será instituído um grupo de gestão que irá trabalhar as ações para acabar com os tais gargalos.

   "Queremos eleger dois ou três entraves e ver como o grupo gestor poderá trabalhar para driblar essas dificuldades", diz Bahia. Na prática, será cumprir regras que foram acordadas durante o próprio Fórum. Identificados na primeira fase do estudo, de forma resumida, pode-se dizer que os problemas básicos do chamado pré-mercado são a restrição financeira, a carência de formação profissional e a dificuldade de reconhecimento por parte do mercado. Dentro do conjunto da cadeia produtiva, esses pontos exercem influência sobre os outros. A precária qualificação, por exemplo, pode comprometer o acesso a um bom estúdio.


(© Pernambuco.com)


A (boa) arte gera (bons) negócios

   A expectativa de que o Fórum da Cadeia Produtiva venha trazer resultados se justifica pelo envolvimento dos principais integrantes desta cadeia na sua realização. Além do estudo e da participação essencial dos artistas, a iniciativa está dentro dos objetivos da Prefeitura do Recife, como uma das ações do projeto Multicultural. Envolve também o Sebrae, órgão que está financiando essa etapa do levantamento, cedendo espaço e alguns técnicos que irão orientar e monitorar as atividades do Fórum. E ainda o Banco do Nordeste, que irá, a partir do estudo, traçar uma linha de financiamento específica para a cultura, utilizando o setor musical como grupo piloto para usuários dos financiamentos.

   O Sebrae está interessado em levantar os números da Cultura em Pernambuco. O estudo feito pelo Josué de Castro servirá para isso e ainda para inspirar outro semelhante, só que da cadeia do audiovisual em Pernambuco. "Os dois estudos refletem nosso interesse e são super importantes para atrair novos investimentos para o setor", diz Alexandre Ferreira, consultor de cultura do Sebrae. Ele adianta, inclusive, que o Sebrae começa um trabalho de proximidade com a cena musical de Pernambuco, participando do próximo Abril Pro Rock com o Salão da Tecnologia. "Existem muitas bandas no Estado que precisam de produção, necessitam que seu produto seja vendido. Isso pode ser feito perfeitamente por empresas daqui", diz Ferreira, ressaltando a importância da união dos elos da cadeia para o fortalecimento da economia da cultura.

   Esse também é um dos pontos ressaltados pelo secretário de Cultura, João Roberto Peixe, que teve a iniciativa da criação do Fórum. "As ações a serem realizadas vão depender do resultado do Fórum, depois de identificar os diversos envolvidos no processo de solução", diz Peixe. O Banco do Nordeste, segundo ele, pode apresentar soluções para boa parte dos artistas. Em outras ocasiões, e nesta também, Peixe deixou claro que o governo não pode nem deve ser o único financiador da cultura no Estado, muito menos as leis de incentivo à cultura as únicas alternativas.

   DINHEIRO - "Os grupos ficaram paternalistas, esperando sempre que o Estado assuma responsabilidades que é da iniciativa privada. As informações do Fórum vão ajudar o Banco a estruturar essa linha", diz ele. Peixe também se posiciona com relação a alguns entraves já identificados pela pesquisa. Como o Estudo da Cadeia é uma iniciativa prevista pelo programa Multicultural da Prefeitura, é possível que algumas soluções partam daí mesmo. Por exemplo, o Multicultural prevê a criação de uma Rede de Refinarias, que irá abrigar centros de formação e produção cultural. Existe a proposta também de construção de um estúdio de música lá dentro.

   "Não adianta músico ficar discutindo com músico ou só com o poder público. temos que colocar a iniciativa privada, os técnicos, os estudiosos e a mídia, sobretudo rádios e televisão, para discutir esses entraves. O Fórum só terá sentido por que terá essa abrangência", diz ele. Segundo Peixe, é preciso mudar a realidade de termos sempre um movimento migratório de artistas para o Sudeste do país, toda vez que sua carreira começa a ter maior projeção. "Terminamos sempre por exportar nossos grandes valores, que vão gerar recursos em outros locais", diz. Para o secretário de Cultura, a classe artística evoluiu por entrar nesse nível de discussão. Qualidade e referencial são aspectos indiscutíveis da produção local, agora é virar negócio. Transformar arte em renda, sem pasteurizar, sem virar Salvador-Bahia. (M.A.)

(© Pernambuco.com)

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