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Carrero reforça clichês da prosa experimental

05-06-2008

O escritor Raimundo Carrero

MANUEL DA COSTA PINTO
COLUNISTA DA FOLHA

   Raimundo Carrero é um escritor pouco conhecido fora do Nordeste. Ou melhor, pouco conhecido pelo público, já que esse pernambucano ligado ao Movimento Armorial foi ganhador do prêmio Machado de Assis, com "Somos Pedras que se Consomem", e do Jabuti, com "As Sombrias Ruínas da Alma".

   Por tudo isso e pela prosa noturna, cheia de personagens que parecem primos distantes dos "bichos do subterrâneo" de Graciliano Ramos, Carrero merece ser lido. Mas infelizmente o recém-lançado "Ao Redor do Escorpião... Uma Tarântula?" não é a melhor maneira de ter um primeiro contato com sua obra.

   O romance se encaixa na chamada "literatura experimental": escrita não-linear, sintaxe fraturada, indecisão proposital entre os registros realista e onírico, personagens reduzidas a lampejos de fala e pensamento.

   O fato de podermos ver nesses procedimentos estilísticos uma categoria, contudo, já indica que eles perderam seu caráter transgressor e se transformaram em clichês. Hoje, uma prosa que se quisesse realmente experimental deveria buscar técnicas que não fossem tão facilmente rotuláveis. Mas Carrero apenas reproduz esses clichês narrativos com uma linguagem recheada de lugares-comuns.

   Seu tema é a proximidade entre prazer e morte, desejo de possuir e desejo de aniquilar. O livro se resume a uma cena pós-coito: dentro de um quarto, Alice está sentada diante da cama em que dorme o marido (Leonardo). Ela segura um revólver, pretende matá-lo e fica remoendo impulsos de atração e repulsa. Ele percebe a iminência do assassinato, finge dormir e, nesse estado de falso abandono, mistura as imagens que vê através das pálpebras semi-cerradas com cenas de sua paisagem interior.

   Alice resiste ao sono, Leonardo dissimula a vigília -e eles ficam o tempo todo imersos numa zona intermediária entre consciência e inconsciência. Essa compressão temporal às vezes é ambígua. Em dado momento, o narrador sugere que a cena se repete por vários dias: "Noites inteiras ela ali, segurando o revólver". Mas também pode ser que seja um daqueles sonhos que insistem em recomeçar várias vezes numa mesma noite -o que leva a uma nova ambigüidade, agora entre realidades onírica e empírica.

   Carrero aposta numa prosa concêntrica, com fragmentos que se intercalam num ritmo que deseja ser hipnótico, mas acaba sendo soporífero: "Alice sentada amada com absoluta convicção apontando o revólver para o marido dormindo a dor sofrida -e humilhada- a dor sofrente -estandarte vermelho da agonia- apontando -vendo veria- o revólver -vendo seria".

   O controle do autor sobre a narrativa é inequívoco, a ponto de conseguirmos distinguir o olhar do narrador e das personagens dentro desse fluxo verbal. Para isso ele trabalha com os sinais gráficos, cadenciando o ponto de vista de Alice com travessões e o de Leonardo com reticências (artifício já presente em dois contos de "As Sombrias Ruínas da Alma").

   Mas o domínio técnico não evita os chavões que saturam o livro: um homem "se lambuzando nas carnes cheirosas" da mulher, percorrendo sua "coxas desnudas" para satisfazer uma pulsante "rosa lúbrica" é um roteiro de bolero pornô; a descrição de Alice como "amada amante" tem ressonâncias que dispensam comentários.

   Além disso, a dimensão religiosa de Carrero -que em outros livros se traduz em violenta ambivalência- desanda em fantasia arquetípica, com Leonardo aparecendo como "guerreiro" ou "cavaleiro" e Alice vestindo a "máscara de feiticeira" da "Mãe do Vento", da "Mãe do Tempo" e da "Mãe do Sonho". Que essas máscaras remetam à mitologia indígena pouco importa, pois a referência tem apenas a função de criar uma atmosfera "new age" que é atravessada (chavão dos chavões) pelos acordes do sax de um músico negro mencionado como "dg" (Dexter Gordon?).

   É desagradável fazer uma avaliação negativa de um escritor que se admira. Mas o fato é que as qualidades dos outros livros de Carrero tornam os defeitos de "Ao Redor do Escorpião... Uma Tarântula?" mais eloqüentes.

Ao Redor do Escorpião... Uma Tarântula?
 
Autor: Raimundo Carrero
Editora: Iluminuras
Quanto: R$ 35 (192 págs.)

(© Folha de S. Paulo)


''É preciso procurar a pulsação narrativa''

Em novo livro, Raimundo Carrero radicaliza técnica musical

Cristiane Costa

   Prêmios não faltam no currículo do pernambucano Raimundo Carrero. Ele coleciona alguns dos mais importantes, como o Machado de Assis (da Biblioteca Nacional) e o da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), ganhos em 1986, com Somos pedras que se consomem, além de um Jabuti, recebido em 2000 por As sombrias ruínas da alma. No entanto, se ainda é praticamente um desconhecido fora do Nordeste, no Recife Raimundo Carrero é rei. É lá que, desde 1989, ministra oficinas literárias que já ajudaram centenas de aspirantes a escritor a se expressar.

Aos 56 anos, Carrero vive principalmente das aulas. ''Sempre trabalhei duro e profissionalmente'', orgulha-se. Dos cursos, nasceu uma apostila chamada Como nasce um escritor, ainda inédita. A fama da oficina cresceu e hoje já são cinco turmas.

As aulas ajudaram a desenvolver a técnica sofisticada, que Carrero exibe em seu mais novo livro, Ao redor do escorpião ... uma tarântula? (Iluminuras, 188 páginas, R$ 35). ''É preciso procurar a intimidade da pontuação, das palavras, sem escrever hermeticamente'', dita.

– É possível aprender (ou ensinar) a escrever ficção?

– Sim, perfeitamente. É claro que não posso dar talento a ninguém. O meu dever é, em primeiro lugar, descobrir as qualidades e os defeitos de cada um no sentido mais abrangente possível – o uso adequado dos adjetivos, dos advérbios, dos pronomes possessivos, sobretudo, ambigüidades, como a alternância de tempos verbais e das vírgulas – a vírgula é sempre um problema. Discutimos os problemas iniciais da criação. Cabe a mim mostrar as técnicas. Se possível, sem interferir muito. Indico as leituras essenciais, discutindo-as com os alunos, preparando apostilas, vendo filmes, observando diálogos e estruturação de cenas, além de desenvolvimento de enredo.

– Você acredita que a teoria musical ajuda a explicar o processo literário. De que forma isso funciona?

– Uma oração, um parágrafo, uma página, são ritmos e sons que cada criador encontra para desenvolver o seu texto. É preciso estar atento para três movimentos distintos, que chamo de pulsação narrativa: a) a pulsação da cena; b) a pulsação do personagem; e c) a pulsação do autor, que precisa desaparecer para entregar os movimentos ao ou aos personagens. Não adianta dizer que um personagem é triste ou alegre. Isso não é literatura – é relatório. É preciso encontrar o movimento interno, que está no caráter e nas emoções do personagem, mesmo quando aparentemente agrida a gramática.

– Você é a favor de que o escritor atropele a norma gramatical?

– Atropelamentos literários só com grande habilidade. Os gramáticos, por exemplo, condenam aquilo que chamam de vírgula da respiração. Mas na criação literária a vírgula da respiração faz um grande bem ao autor e, é claro, ao personagem. A identificação das vozes dos personagens revela a necessidade dos muitos ritmos e das muitas pulsações de um texto. É como reger uma orquestra: o autor é apenas o maestro, enquanto os ritmos e as pulsações são criadas pelos próprios músicos.

– De que forma esse conceito influenciou diretamente seu novo livro?

– Embora frustrado, sou músico. Aos oito anos de idade já tocava em bailes juvenis em minha cidade, Salgueiro, no Sertão de Pernambuco. Isso teve um peso imenso na minha formação literária. Ainda toco sax tenor. Mas, desde a minha iniciação intelectual, aprendi que não se deve dizer o que é um personagem, é preciso buscar seus movimentos interiores. Sua harmonia. E, portanto, sua polifonia. Além disso, sempre li poesia, fui formado entre poetas. Em Osman Lins aprendi o conceito do texto como partitura musical, que já vem dos franceses, e em Autran Dourado compreendi o problema do entrecruzamento das vozes dos personagens. Em Cortazar identifiquei os movimentos internos dos personagens como algo que se aproxima do improviso do sax no jazz. A minha literatura se desenvolve por aí.

– Você é um escritor premiadíssimo, mas pouco conhecido do grande público fora do Nordeste. O fato de não viver no eixo Rio–SP atrapalha?

– Sim, não tenho a menor dúvida. No começo da minha carreira fui convidado para trabalhar justamente no Jornal do Brasil, por Odylo Costa, filho, mas não me sentia preparado para isso. Era apenas um menino de 18 anos. Fiquei no Recife. Ao mesmo tempo, imagino que viver no Rio talvez me tirasse o conforto espiritual que encontro aqui para criar. O tempo de que preciso para estudar, inventar, elaborar. O escritor no Rio de Janeiro e em São Paulo tem mais visibilidade. No entanto, tenho o respeito dos editores, sobretudo da Iluminuras, de São Paulo, que está publicando o meu quarto título. E dos jornais. Na hora certa, chegarei.

– Por ser nordestino, o escritor já nasce rotulado de regionalista, mesmo que faça uma prosa urbana? Como você descobriu um caminho independente?

– Uma das minhas dificuldades foi mostrar que minha obra não era – e não é – regionalista. O fato de se desenvolver no Nordeste, e, mais ainda, no Sertão, fazia os críticos mais desinformados acreditarem que estavam diante de um regionalista. Ora, o regionalismo se caracteriza pelo documento, pelo retrato, que na maioria das vezes interessa mais a uma sociologia da literatura do que à literatura. A paisagem é nordestina, mas a temática é universal. Aí está a grande diferença. Eu me arrepio quando penso no clichê de trazer mitos e arquétipos clássicos para o Nordeste, chamando aquilo de universal.

– O novo livro radicaliza experiências anteriores?

– Ele tem uma história longa, que começa num fim de tarde monótono e sombrio de outubro de 1998, quando decidi escrever um romance policial chamado Crimes perfeitos. Fui logo ironizado pelo meu filho Rodrigo que, rindo, dizia: “Já existem uns 10 filmes com esse título, pai.” Então comecei conhecendo o fracasso. Depois fui ao computador e escrevi Natureza perversa em 40 dias. Não foi preciso muito tempo para descobrir que aquilo não valia nada. Mudei de título – e cada novo título é uma nova maneira de escrever – para Comigo a natureza enlouqueceu e foi um novo fracasso. No entanto, devo dizer que nunca me incomodo com isso. É preciso encontrar o tom. Veio 1999, o ano mais difícil da minha vida – desemprego, separação, dívidas, tudo que pode derrotar um homem. Venci. E escrevi duas novas versões Um segundo antes de despertar e O delicado abismo da desordem. Essa segunda versão mostrei a Marilena, minha mulher, pedi que me desse a opinião sincera. Ela me disse: “O livro pode parecer bom, tem boa técnica, mas não tem você, não publique.” Voltei a escrever uma outra versão. Ouvi vozes, muitas vozes: o saxofone de Dexter Gordon ou de Charles Parker, a mãe gritando pela casa, Alice e Leonardo lutando na cama, nessa feroz relação sexual. Então comecei a clarear minhas idéias de romance, minhas teorias sobre a prosa, meus estudos a respeito de narrativas. E aí, ao longo de dois anos, fui descobrindo a maneira de tocar o livro. Decidi radicalizar, radicalizar de forma definitiva, encontrando áreas comuns dentro de minha própria obra.

– Como assim?

– Surpreendi os personagens em plena relação sexual. Terminada a luta de pernas e braços, e enquanto o sangue se aquietava, trouxe os dois para o meu colo e começamos a conversar sobre o que estavam sentindo. Aí entra o lúdico. Por mais técnico que seja, o escritor precisa conversar com os seus personagens. Procurei tempos verbais que se alternam no tempo, busquei adjetivos que mudam de posição, frases que se repetem com nova função – o romance todo tem poucas frases que movimentam até o orgasmo dos personagens.

– De que forma a pontuação reflete o caráter desses dois personagens?

– Prefiro errar a repetir, a copiar, a imitar. Percebi que o caráter dos personagens estava na pontuação, que para mim era pontuação musical. Investi nisso. Estudei. E principalmente inventei. Se em Sinfonia para vagabundos podia trabalhar o comportamento dos personagens através dos tempos verbais, por que não me utilizava também dos sinais gráficos? Foi assim. E acho que sigo um novo e bom caminho.

– O que querem dizer certos parágrafos repletos de travessões, que lembram os textos alucinados do Diário de Frida Khalo ou mesmo as mensagens que o Profeta Gentileza deixou nos viadutos do Rio?

– Eu sou doido mas tenho juízo. E não me causa qualquer preocupação em ser uma espécie de esquizofrênico da narrativa. Por isso é que me parece que esse é o melhor elogio para o meu livro. Afinal, esquizofrênicos são os meus personagens – Alice e Leonardo – que passam uma noite inteira – embora o tempo narrativo seja de poucos segundos – atormentados por uma relação sexual violenta que acabam de praticar – ou que praticarão? Ou que praticam, movidos pelo desejo da destruição – da morte, do assassinato, do crime – e que são esgotados pela desorganização mental. Este é um livro de esgotamento. E tudo que eu quis, e tudo o que eu fiz, foi entrar nos personagens para passar ao leitor o sentimento de prazer e de dor, de agonia e de gozo, que eles viviam. Ou vivem. Por isso mesmo optei pelos travessões que refletem o impulso narrativo – e escandaloso – de Alice, sobretudo de Alice. É uma técnica absolutamente consciente. Travessões e interrogativas pertencem a Alice. São sinais de identificação. Assim como as reticências pertencem a Leonardo. E os dois pontos e as vírgulas são comuns aos dois. Osman Lins inventou sinais para identificar personagens. Preferi encontrar esses sinais dentro do próprio texto, sem recorrer a símbolos exteriores. Alice: força, vigor violência, aí os travessões, que são um sinal agressivo. Leonardo: lentidão, espera, paciência, daí as reticências, tensão contida. Nada que não tenha sido pensado muito.

(© Jornal do Brasil, 13.12.2003)

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