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Morreu o autor de Eu vou pra lua

05-06-2008

Genival Lacerda, que nesta foto aparece logo atrás de Jackson do Pandeiro (liderando o grupo), foi quem primeiro gravou Eu vou pra lua, que viria a ser sucesso com Ari Lobo

Luís de França, que compôs clássicos da música brasileira, morreu praticamente esquecido em sua cidade

JOSÉ TELES

   Foi enterrado ontem, no cemitério de Santo Amaro, o compositor Luís de França, 93 anos, autor de Eu vou pra lua, Panorama de folião, e Mulher peixão, suas músicas mais conhecidas. Ele morreu, na quinta-feira, em conseqüência de complicações pulmonares.

   Luís de França, ou Luís Boquinha (apelido que ganhou na infância), nasceu em 1911, no bairro de Torreão. Fazia música desde os seis anos. Na década de 30 já era coquista afamado na cidade e autor de marchas de diversos blocos carnavalescos.

   No velório, em Santo Amaro, o neto André comentava que, pela quantidade de gente famosa que o gravou, era para o avô ter enriquecido: “Não sei quanto ele ganhava de direitos autorais, mas era muito pouco”.

   Luís Boquinha marcou época no Recife, não apenas por suas músicas, como também pelo quadro Reportagem da Semana, que manteve durante 15 anos na Rádio Clube. Neste quadro, ele comentava o fato mais importante da semana, rimando de improviso e com muito bom-humor.

   Em entrevista concedida ao Jornal do Commercio, em 2000, Luís Boquinha, então com 89 anos, mostrou ser dono de uma memória prodigiosa, capaz de citar versos compostos 70 anos antes, entre eles o coco Vinte prédios bonitos, nos quais detalha os maiores prédios do Recife na época. Esta é uma entre as dezenas de composições dele que permanecem inéditas: “Nelson Ferreira vivia querendo gravar a música dos prédios, mas nunca deixei”, contou ao JC, sem revelar porque não permitiu a gravação. Afinal foi na Rozenblit, pelo selo Mocambo, do qual Nelson Ferreira era diretor artístico, que Luís Boquinha estreou como compositor (que não foi sua única profissão, durante 35 anos trabalhou como marceneiro para a Aeronáutica).

   Genival Lacerda foi quem gravou primeiro Eu vou pra lua, mas a música virou sucesso nacional ao ser gravada pelo paraense Ari Lobo, que virou freguês de Luís de França: “Tem disco de Ari Lobo com a metade do repertório feito por mim”, jactava-se o compositor. Lobo, cantor de grande sucesso até meados dos anos 60, gravou de Luís Boquinha, entre outras, Padrinho Cícero, Mulher de saia justa, Cosme e Damião e Baião do Acre. Embora ausente do meio artístico há anos, ele não foi esquecido pelos artistas. Eu vou pra lua está constantemente sendo regravada (a mais recente regravação foi feita por Zé Ramalho, e estava nos planos de Chico Science cantá-la). No CD Pernambuco Falando para o Mundo (1998), Antonio Nóbrega gravou Mulher peixão (gravada antes pelo forrozeiro paraense Osvaldo Oliveira e pelo comediante Lilico).

   Autor de livros de ficção, publicados artesanalmente, e cordéis (O Caranguejo que Perdeu a Cabeça por Causa da Camarada, e A Discussão de Luís Boquinha e Zé Henrique Alagoano), Luís de França deixou cerca de 500 composições, grande parte das quais continua inédita em disco, registrada em fitas cassetes, cuidadosamente catalogadas por ele.

(© JC Online)

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