|
05-06-2008
O baiano Waly Salomão virou referência importante na produção cultural no país, atestada com o relançamento de "Hélio Oiticica: qual é o parangolé? e outros escritos" e "Me segura qu''eu vou dar um troço" Do auge do tropicalismo aos primeiros passos do governo Lula, o poeta e compositor Waly Salomão aprontou todas e um pouco mais. O vulcânico e debochado agitador cultural baiano, que em maio do ano passado perdeu a batalha contra um câncer, virou referência importante na produção cultural do país. Para homenageá-lo, duas obras de sua diversificada produção acabam de ser relançadas: Hélio Oiticica: qual é o parangolé? e outros escritos, pela editora Rocco, e a inaugural Me segura qu''eu vou dar um troço, pela Aeroplano (leia matéria abaixo). A reedição da Rocco chegou primeiro às livrarias, reafirmando a grande afinidade poética e ideológica entre o autor e o protagonista da obra. Hélio Oiticica inventou como poucos as suas próprias regras. Provocador implacável e um dos inspiradores do movimento tropicalista, o artista plástico carioca (1937-1980) gostava do samba feito por gente pobre, tinha engajamento político anarquista e identificação com a marginalidade. Waly Salomão o admirava profundamente. Como forma de tributo, escreveu para ele o texto Qual é o parangolé?, lançado em 1996 pela Relume Dumará/RioArte. O título refere-se a uma gíria comum nos anos 60 e que significava "o que é que há?", "qual é a parada?"... É possível que a maior parada na vida de Oticica tenha sido a transformação da arte experimental numa expressão genuína de liberdade. Numa prosa coloquial, impregnada de comentários muito pessoais, Waly deixou documentado seu encontro com o artista plástico através de crônicas, críticas, anedotas e reflexões. "Tudo visto pelo olho da poesia, bem de dentro, sem qualquer espécie de meio-termo", reforça Luciano Figueiredo, autor do prefácio e diretor do Centro de Arte Hélio Oiticica, no Rio de Janeiro. Lançado pela primeira vez na coleção Perfis do Rio, o livro é um retrato subjetivo, informal e apaixonado sobre o inventor dos parangolés (obras feitas de pano, como figurinos, com as quais Oiticica estimulava o espectador a participar da criação). Sem academicismos, Waly Salomão eternizou um testemunho raro. Muitas vezes filosofa num tom de quem brinca cheio de verdade, sem pudores e com muita intimidade: "Embaixo das evidências mais gritantes dionisíacas, o que primeiro saltava aos olhos no Hélio Oiticica era uma submissão total de todos os outros desejos dispersos a uma vontade tirânica e ordenadora sobre si mesmo". Estandarte - O livro traz ainda reflexões sobre a emblemática frase "Seja marginal, seja herói", defendida pelo artista plástico - também chamado de HO no texto - em plena ditadura militar. Waly a destacou como um estandarte, o ápice do que entendeu como um gesto de romantismo desbragado do dono do manifesto. Era um contra-ataque a um brutal slogan divulgado na época: "Bandido bom é bandido morto". "Dentro do contexto geral sufocante do Brasil pós-ditadura militar 64, não há mediação nem meio-termo: a heroicização do vitimado indica o grau absoluto da reversão HO como também seu extremo ceticismo em relação ao legalismo caricato-liberal brasileiro de então", destacou Waly. Mas o autor também fez questão de esclarecer que a frase de Hélio Oiticica não está dissociada do seu caráter épico e passa longe do mero romantismo inofensivo, pois tinha uma contundência política nada conservadora, em oposição aos esquadrões da morte. "Com a malandragem do morro, HO aprendeu o valor da ambigüidade sinuosa. Nada pode ser julgado de uma forma maniqueísta, preto no branco", enfatiza. Quando se aproximou do samba no Morro da Mangueira, Oiticica também encontrou em Waly Salomão uma entusiasmada companhia. À essa altura, HO já tinha se afastado dos trabalhos bidimensionais, retirando a pintura do quadro e demonstrando interesse por outras formas de expressão. Relevos espaciais, bólides, capas e parangolés foram alguns dos trabalhos que construiu e executou usando os mais diversos materiais, das conchas aos tecidos, do fogo à cocaína. "A obra nasce de apenas um toque na matéria. Quero que a matéria de que é feita a minha obra permaneça tal como é; o que a transforma em expressão é nada mais que um sopro: sopro interior, de plenitude cósmica. Fora disso não há obra", escreveu Hélio Oiticica em setembro de 1960. Para Waly Salomão, essa percepção, além de admirável, era reveladora de um artista que "abandonou o trabalho obsoleto do especialista para assumir a função totalizante de experimentador". (© Correio da Bahia) Texto foi escrito no Carandiru Waly Salomão morava no mesmo apartamento de Gal Costa, em São Paulo, quando foi flagrado com uma "bagana" em 1970, no fervor do movimento tropicalista. Acabou indo parar numa cela do Carandiru, onde, entre um rabisco e outro, escreveu seu primeiro livro, reconhecido como um dos mais expressivos da contracultura: o experimental Me segura qu''eu vou dar um troço, de 1972, misto de crônica de costumes, pensamento político, discurso filosófico e reflexões informais sobre poesia. Relançado pela Aeroplano Editora, o livro preserva o texto na íntegra, acrescentando alguns documentos inéditos, entre os quais, manuscritos de cadernos com anotações, fotos e desenhos do autor de obras como Gigolô de bibelôs (1983), Lábia (1998), Tarifa de embarque (2000) e O mel do melhor (2001). Traz ainda um ensaio introdutório do compositor Antonio Cicero e a transcrição de Heliotape (obra sonora de Hélio Oiticica sobre esse mesmo texto de Waly Salomão). A publicação é outra homenagem para lembrar o primeiro aniversário de morte do poeta nascido em Jequié, que chegou a ser secretário nacional do livro e da leitura no governo Lula, vindo a falecer no Rio de Janeiro, onde vivia desde os anos 70. Waly era um criador inquieto e efervescente. Sua obra Algaravias - Câmara de ecos, de 1996, foi agraciada com o prêmio Alphonsus de Guimaraens, da Biblioteca Nacional (no mesmo ano) e o Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro (1997). Em parceria com Ana Duarte, Waly Salomão tornou pública a obra póstuma de Torquato Neto, Últimos dias de Paupéria, além de ter organizado e editado Alegria, alegria, de Caetano Veloso. Apesar do vasto investimento literário, até hoje é mais conhecido como letrista de canções da MPB, como Mel, Talismã e a indefectível Vapor barato. (© Correio da Bahia) FICHAS: Livro: Hélio Oiticica: qual é o parangolé? e outros
escritos Livro: Me segura qu''eu vou dar um troço (© Correio da Bahia)
|
||
|
||
© NordesteWeb.Com 1998-2004