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Teatro nômade

05-06-2008

O espetáculo Bispo, monólogo com o ator baiano João Miguel, sobre vida e obra de Artur Bispo do Rosário

Um ano inteiro de intercâmbio teatral. Tem início hoje, através do seminário Nordeste, a cena do mundo, o projeto Boca Rica Nômade. Até dezembro, 38 municípios nordestinos envolvem-se em residências, oficinas, espetáculos e performances

Ethel de Paula
da Redação

   Encontro com o teatro vivo. A partir de hoje, quando tem início o seminário Nordeste, a cena do mundo, o tão propagado nomadismo cearense põe-se a serviço das experiências estéticas e do intercâmbio cultural, com foco voltado para o fazer teatral. Financiado via Lei Rouanet (R$ 334 mil), o projeto Boca Rica Nômade viabiliza o mergulho investigativo do Ceará no Nordeste profundo, caudaloso, multifacetado. Até dezembro, uma trupe de 28 diretores e atores, cearenses em maioria, levam a 38 municípios nordestinos um pacote de residências, oficinas, espetáculos e perfomances. De volta, bagagem cheia: de saberes ancestrais experimentados na prática; de humanidade. ''Queremos conhecer e conviver com os mestres das artes cênicas. Somos carentes desse contato, da troca in loco, por isso tendemos a ficar muito teóricos. Uma bailarina como Pina Bausch vem da Alemanha conhecer os Irmãos Aniceto e nós, tão próximos, não desfrutamos a contento desse privilégio. Essas cheganças vão nos fortalecer enquanto artistas-pesquisadores'', sustenta a diretora artística do projeto, Rejane Reinaldo.

   Até outubro, portanto, estrada. E um toma lá, dá cá que promete gerar momentos memoráveis: o diretor, ator e pesquisador pernambucano Antônio Nóbrega é um dos que vêm exibir-se e aprender. ''Ele foi convidado a interagir com o núcleo do Maciço de Baturité. Em julho, vai trocar experiências com mestres da cultura popular como Vicente Chagas e dona Zilda Torres, de Guaramiranga'', adianta Rejane. Divididos os 38 municípios nordestinos em 14 núcleos diferentes, a ordem é permanecer uma semana em cada um deles. Na sequência, um diretor-residente volta ao local para acompanhar oficinas e espetáculos de forma sistemática. Capítulos à parte, as áreas de reforma agrária também estão na mira dos nômades. Novembro e dezembro são para o desfecho, à altura do projeto: o Teatro da Boca Rica, na Praia de Iracema, será palco de uma mostra teatral com a participação de mestres e grupos visitados. Escrito pelo teatrólogo cearense Oswald Barroso, o espetáculo Dormir, talvez sonhar encerrará o curso de direção teatral ministrado pela alemã Nehle Franke (Matança de Porco, Batuca o Bode), que já morou em Fortaleza, mas hoje está radicada em Salvador, na Bahia.

   ''Começamos falando do corpo e terminaremos falando com o corpo'', sintetiza Rejane. Para começar, pensamento. O professor-doutor e coordenador do Laboratório de Estudos e Pesquisas da Subjetividade da Universidade Federal do Ceará, Daniel Lins, é um dos conferencistas da noite inaugural do seminário Nordeste, a cena do mundo, que dá início às atividades de 2004 no Teatro da Boca Rica. Antes dele, senta à mesa de debates o filósofo francês Camille Dumoulie, professor de Paris X e diretor do Departamento de Literatura Comparada. Ambos para tratar do controvertido e ''envenenado'' Antonin Artaud (1896-1948), escritor, dramaturgo, poeta maldito e visionário que nos anos 30 concebeu um teatro onde não haveria distância entre ator e platéia, vida e arte. Ao final, o ator baiano João Miguel encena o festejado monólogo Bispo, transmutando para o palco devires do artista plástico Arthur Bispo do Rosário (1909-1989), que criou toda a sua obra trancafiado no quarto-cela do hospício Juliano Moreira, no Rio de Janeiro.

   Como aperitivo, os professores-doutores Camille Dumoulie e Daniel Lins provocam-se mutuamente sobre os temas de suas conferências. A conversa entre os dois gira em torno da crueldade em Artaud e do Corpo sem Órgãos. O simpósio prossegue até o próximo dia 10 (ver programação). Amanhã, a professora-doutora Gabriela Reinaldo reflete acerca da figura das carpideiras, enquanto o teatrólogo Oswald Barroso trata do teatro como desencantamento a partir de Artaud, Brecht, o reisado e os romeiros de Padre Cícero. Nesta noite, nova montagem de Bispo. Quarta-feira é a vez do cineasta Rosemberg Cariri comentar a face universal da cultura nordestina. Jornalista e pesquisador, Gilmar de Carvalho encerra o evento desconstruindo a idéia de uma possível cearensidade. O espetáculo final fica por conta da Cia. Vatá de sapateado, capitaneada por Valéria Pinheiro.


SERVIÇO

Nordeste, a cena do mundo - De 8 a 10 de março, a partir de 18h30min, no Teatro da Boca Rica (rua Dragão do Mar, 260 - Praia de Iracema). Info.: 219.1323. Grátis.

O POVO - Qual a origem da idéia de crueldade em Artaud?
Camille Dumoullie - Para Artaud, vida é crueldade. A relação vida/ crueldade que ele faz representa uma ruptura total com a metafísica, a filosofia, o pensamento ocidental, que sempre associou o ser, a vida por excelência, com o bem, o doce, a coisa suave. Artaud pensa o contrário. É verdade que ele não é o primeiro. Houve Schopenhauer, só que ele tem uma visão negativa da existência. Depois, outro grande pensador da crueldade foi Nietzsche. Este, ao contrário, quis dar uma visão positiva, potente, criativa da própria crueldade. De qualquer maneira, o grande pensador do século 20 da crueldade continua sendo Artaud. Porque uniu duas reflexões: uma metafísica, a outra filosófica, para além da reflexão histórica. Para entender o mundo e o homem inserido no mundo ele vai procurar os pensadores pré-socráticos, como Heráclito, que pensava que a vida era uma guerra. E fruto de uma criação violenta. Ao contrário, toda a filosofia ocidental, com Platão, retirou esse aspecto de crueldade do homem. É como se a crueldade fosse dos animais e não humana. Os filósofos parecem incapazes de pensar a crueldade. E o mundo ocidental sofre as consequências de uma crueldade que não pode controlar. A humanidade sempre viveu uma forma de crueldade pervertida. Não é o homem quem assume e sim um ser superior. Um deus ruim ou bom, um chefe. A ordem é sempre arranjar um outro lugar para a crueldade, fechá-la numa realidade fantasmática. Como se esse desejo de deslocar a crueldade para um ser superior acabe conduzindo a humanidade para o bem. E como a responsabilidade da crueldade sempre é colocada nas mãos de uma superioridade, de algo que é além do homem, chega-se a situações extremadas como o fascismo ou o nazismo, quando um povo todo pode desejar a exterminação de outro. Sem sentimento culpa. Pelo suposto bem da humanidade.

Daniel Lins - Como explicar que crueldade é vida?
CD - A idéia de crueldade pura em Artaud consiste em nos libertar da espetacularização da crueldade, da violência, da agressividade. Tornar o homem capaz de viver todas as crueldades da vida - vida é crueldade -, para além dessas imagens. Por que existe tanta violência na TV? Seria isso o teatro da crueldade, de Artaud? Não, é o contrário. Por que tanta agressividade nos filmes americanos? Porque isso serve ao poder norte-americano. A população espera, diante dessa ideologia do medo, que o próprio poder tome essa gente toda, coloque debaixo da asa e a proteja. Essas imagens de violência são como barreiras que se colocam à frente de cada um para que você não possa realizar seu próprio desejo, concluir o gozo. Isso é a chamada violência da fantasia. Essa violência fecha o imaginário, é dominada por ideais, ideologias, políticas, religiões.

OP - Nas artes, em particular, Artaud assume a crueldade e a torna criativa, é isso?
DL - Isso. Porque toda forma de criação é um esforço, um desejo, uma separação, portanto uma crueldade. Daí a idéia de que não existe criação sem ruptura, sem destruição, sem violência. A positividade estética da violência não está na sua espetacularização nem na violência gratuita em certas tentativas de teatro que quando pensa em crueldade pensa em sangue, tripas, violência no sentido quase cristão da palavra... Mas no ato de criação. Que é por definição violento. Não existe criação fora da ruptura, do estupro da própria tela branca, virgem. A crueldade é violência. Mas não a violência da ideologia, qualquer que seja ela, nem a violência católica - matar para o bem. A violencia da crueldade é criação. E todo ato de criação é cruel. Porque criar é o novo, é o que não há ainda, o que você não conhece.
CD - A questão de Artaud é não esconder a verdade. Não esconder essa crueldade que seria muito mais potência de vida do que potência de morte como foi mostrada no século 20.

OP - Como a idéia do Corpo sem Órgãos se relaciona com a de crueldade em Artaud?
DL - Artaud o denominou ''corpo puro'', ''corpo novo'', não oprimido, corpo sem órgãos. Desejar o corpo sem órgãos impõe ao ser desejante o poder de criação: ser artista de seu próprio desejo. Ser salvador de sua própria salvação. O desejar, no caso, não é da ordem da metáfora, mas da vida: desejar é da ordem do querer, não do almejar. O corpo é a vontade em ação. Como artesão do meu corpo sem órgãos, desejá-lo é empreender, de imediato, a experimentação, tornando-me assim o artista de minha criação. Como construir para si um corpo sem órgãos? Essa é a primeira idéia quando penso em Artaud e em (Giles) Deleuze, que em 1942 vai pagar Artaud e transformar quase que numa obra. A idéia do corpo sem órgão não é possível de ser realizada. Não se realiza o corpo sem orgãos, como não se realiza o desejo. Você sempre deseja desejar. Trata-se, portanto, da procura do desejo, da imanência. Na imanência não há espaço para transcendência, aquele outro que faz com que eu renuncie a minha autonomia de pensador e ser desejante, colocando a questão da crueldade nas mãos de um grande Outro. A partir daí peço demissão da vida. Em Artaud, o corpo sem órgãos nunca era demissão, mas afirmação da vida. Crueldade é pensamento. Pensar o impensável do pensamento, o que não pode ser pensado, entretanto, deve ser pensado. Que pensamento é esse que não pode ser pensado? É o pensamento do devir, do desejo, livre de ideologias, religiões ou algo que o valha. É o devir criança do artista. Porque a criança não está submetida à noção de cultura. Quando a criança pensa é sem amarras da noção de cultura freudiana - a idéia da sublimação - e sem as amarras do pensamento platônico: corpo e alma. Na criança não existe essa divisão, o que existe na criança é um corpo sem órgãos. Por isso a gente nunca chega a ele. Não é um programa, não é vocação, não é modelo, nem conceito, é algo do campo da experimentação, com suas perigosas linhas de fuga. E ele vai construir toda uma série de pensamentos não só do corpo-sem-órgão mas do próprio teatro da crueldade a partir de sua própria experiência, do seu próprio conhecimento. Estava numa relação sempre de experimentação, funcionava na linha envenenada. Não acreditava em nada. Para se falar em mística em Artaud teria-se que tomar por base uma mística totalmente estrangeira à referência mística que temos, procurando uma entidade Deus. A mística em Artaud é uma mística atéia.
CD - Cuidado para não fazer a mística negativa!
DL - Nem uma mística positiva, nem negativa. Não se deve dar ao corpo sem órgãos uma missão, mas uma possibilidade única de experimento singular. Porque é totalmente ligado à questão da singularidade. O corpo sem orgão é o corpo paradoxal. Não é messiânico. No corpo sem órgãos o ser ainda é ser-zero.


PROGRAMAÇÃO

Hoje - O ser(tão) sem fronteiras
Moderadora: Isabel Gurgel. Instalação: José Tarcísio
- ''Artaud e a crueldade'', com Camille Dumoulie (Prof. Paris X - Nanterre. Diretor do Departamento de Literatura Comparada). Tradução: Sylvie Delacours Lins (psicóloga, doutora em Ciências da Educação - Paris V - Sorbone -, especialista em crianças com dificuldade de aprendizado, professora do programa de graduação e pós-graduação da UFC).
- ''O corpo sem órgãos'', com Daniel Lins (professor e pesquisador doutor da UFC - Laboratório de Estudos e Pesquisas da Subjetividade).

- Bispo, espetáculo com João Miguel (BA)

Dia 9 - Tradição: diálogos com a modernidade
Moderador: Edilberto Mendes
- ''As carpideiras: canto evocando imagem'', com Gabriela Reinaldo (prof. Doutora em Semiótica pela PUC/SP. Prof. Pesquisador do Curso de Comunicação Social da Unifor)
- ''Teatro como desencantamento: Artaud, Brecht, o reisado e os romeiros do Padre Cícero'', com Oswald Barroso (teatrólogo, jornalista, professor e pesquisador universitário - Departamento de Arte da UECE).

- Bispo, espetáculo com João Miguel (BA)

Dia 10 - Criar arte. Fortaleza a cultura
Moderadora: Fran Teixeira
- ''A face universal da cultura nordestina'', com Rosemberg Cariri (cineasta).
- ''Bonito pra chover. Desconstruir para nascer'', com Gilmar de Carvalho (prof. Doutor em Semiótica pela PUC-SP e pesquisador universitário do curso de Comunicação Social da UFC)
- Orixás, espetáculo com a Cia Vatá, Direção de Valéria Pinheiro.


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