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Superpoderosas da MPB

05-06-2008

Bethânia, Miúcha e Nana Caymmi

Antonio Carlos Miguel

   Superpoderosas mesmo são estas três. Cantoras que nunca se submeteram a imposições de pseudogênios de marketing — uma gente que, por sinal, nem existia no mundo da música quando elas começaram suas carreiras, há cerca de 40 anos — e hoje podem comemorar o conjunto de suas obras. Num dos ensaios para o show “Brasileirinho”, a anfitriã Maria Bethânia e duas de suas convidadas, Nana Caymmi e Miúcha, conversaram com O GLOBO sobre suas carreiras, lembrando-se de episódios que viveram juntas, de seus encontros anteriores, de amigos em comum e de suas paixões musicais.

   O espetáculo — que acontece amanhã e quarta-feira, no Canecão, quando será gravado um DVD — promete, mas um bate-papo num fim de tarde com essas três cantoras, com direito a trechos do ensaio, já é um show à parte. As espirituosas Nana e Miúcha logo quebraram qualquer resquício de reverência que a figura imponente, e quase sempre séria, da rainha Bethânia pode sugerir. Seriedade apenas no momento em que o repórter perguntou sobre suas expectativas para o Brasil, no segundo ano do governo Lula:

   — Não vou estragar meu dia falando de política — ameaçou cortar o assunto Nana, para depois desabafar: — Fechar os bingos daquela forma foi coisa de ditador. Os vícios devem ser tratados, não é à força que vão acabar com isso.

   — Acho que o jogo tinha que ser liberado, afinal, no Brasil, joga-se em tudo que é lugar — completa Bethânia, que pede pela volta dos cassinos, lembrando que empregavam muita gente, com uma infra-estrutura para os espetáculos musicais que hoje inexiste nos teatros e casas de shows brasileiros. — Quando João Gilberto reinaugurou o Teatro Castro Alves, em Salvador, uma ratazana atravessou o palco, bem na frente dele.

   “Brasileirinho” foi idealizado como um disco paralelo, inaugurando, em setembro do ano passado, o selo Quitanda — criado por Bethânia, em parceria com Kati Almeida Braga (dona da gravadora atual da cantora, Biscoito Fino), para projetos especiais. A recepção de público e crítica, no entanto, superou as expectativas e obrigou o adiamento de outro CD que Bethânia gravara, dedicado a Vinicius de Moraes. O show no Canecão e a gravação do DVD agora confirmam o muito fôlego que ainda tem “Brasileirinho”. Trata-se de pessoal mergulho em canções e textos (Mário de Andrade, Guimarães Rosa, Vinicius) que contribuíram para a formação da cantora, que o gravou rodeada de convidados: além de Nana e Miúcha, Ferreira Gullar, Denise Stoklos e os grupos Uakti e Tira Poeira.

Jóia óbvia para ouvidos especiais

   Sobre as colegas, Bethânia rasga seda:

   — Nana é a nossa melhor cantora. E é um luxo cantar com Miúcha, que tem uma sofisticação musical que nunca tive.

   Miúcha devolve, lembrando-se de quando foi visitar Bethânia para acertarem a gravação de “Cabocla Jurema”:

   — Ela sabe tudo de voz, de timbre. Bethânia tem uma coleção fabulosa de cantoras, de todas as partes do mundo.

   — Quando ela me chamou para gravar “Sussuarana”, perguntei: “Não tem uma mais novinha?” — brinca Nana.

   — Ela me disse que essa era do tempo dos nossos avós — concorda Bethânia, que deu um tom atemporal ao disco. — O Brasil tem um ouvido muito especial, mas a gente passa a vida inteira dizendo que não, e acaba acreditando nisso. Mas esse é o disco mais simples e óbvio, de uma cantora popular. E ao mesmo tempo é uma jóia.

   — É um disco que traz a marca da diretora — completa Miúcha, que também lançou recentemente outro perfeito achado, “Miúcha canta Vinicius & Vinicius”, no qual reuniu as canções com letra e música do maior poeta da bossa nova.

   Discos que vão além dos padrões habituais são com elas. Nana, por exemplo, ao lado dos irmãos Dori e Danilo, vai lançar em duas semanas uma seleção dos sambas de Dorival Caymmi — belo presente para o aniversário de 90 anos de seu pai, dia 30 de abril.

   — Raspei o que tinha e o que não tinha para esse disco, que depois negociamos com a Warner. Nunca gravei por pressão, e quando olho para trás, não tem nada que me arrependa de ter feito. Gravaria tudo de novo — diz Nana.

   Além das personalidades fortes, elas vêm de três dos mais musicais clãs brasileiros. O que pode explicar muita coisa.

   — Sim, só faço o que acredito, mas às vezes eu me pergunto, “Por que não tenho dinheiro?” — pondera Miúcha.

   — O meu banco é meio triste, prefiro não ficar puxando extrato — emenda Nana, para em seguida retomar a galhofa ao lembrar de atributos não musicais do irmão de Miúcha. — Sempre vejo Chico (Buarque) chegar do cooper dele, todo compenetrado, não resisto e berro: “Gostoso!”.

   A lembrança de um documentário sobre Baden Powell, gravado no fim dos anos 60 no Brasil pelo compositor francês Pierre Barouh — lançado em DVD apenas no Japão — que inclui ainda belas e raras seqüências com Pixinguinha, João da Bahiana, Maria Bethânia, Raul de Souza e Paulinho da Viola, gera mais comentários no gênero.

   — Paulinho, ali, sem camisa, é maravilhoso — diz Bethânia.

   — Era mesmo unanimidade, o nosso tesão, todas as mulheres queriam — confirma Nana.

   E quem irá contestar essas superpoderosas personalidades da canção brasileira?

(© O Globo)


Ingressos para as duas noites já estão esgotados

   Na quinta-feira passada, já estavam esgotados os ingressos para as duas noites (amanhã e quarta-feira, às 21h30m). Para quem não correu, resta aguardar o DVD, que vai demorar a chegar. Kati Almeida Braga lembra que nos dois últimos anos a Biscoito Fino lançou quatro títulos da cantora: o CD e o DVD “Maricotinha ao vivo” e os CDs “Cânticos, preces, súplicas à Senhora dos Jardins dos Céus” e “Brasileirinho”.

   — Assim, até pode parecer que estamos fazendo liquidação de Bethânia — brinca Kati. — O DVD deve ser lançado no fim do ano, antes teremos o disco de Vinicius.

   Entre os convidados de “Brasileirinho” apenas o poeta Ferreira Gullar não vai estar no palco do Canecão — que lerá seu texto (o trecho de um poema de Mário de Andrade, “O descobrimento”) num vídeo.

   No ensaio, sob a direção musical de Jaime Alem — que há duas décadas trabalha com Bethânia — as três cuidaram da sintonia fina. Além das canções gravadas em dueto no CD, Bethânia preparou com Miúcha “Correnteza” (Tom Jobim e Luiz Bonfá), e, com Nana, “João Valentão” (Dorival Caymmi).

(© O Globo)

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