|
05-06-2008
Companhia das Letras lança edição ampliada com trabalhos do artista Nosso atual ministro da Cultura é um gênio musical, todo mundo sabe. Autor de verdadeiras obras-primas da música popular brasileira, Gilberto Gil vem sendo constantemente homenageado desde que assumiu o cargo no corpo ministerial do governo Lula. Muitas delas meras cortesias burocráticas, muito mais significativas para o posto do que para sua trajetória artística. Ao contrário da mais recente honraria que recebe, esta sim, estendida aos fãs. Acaba de sair pela Companhia das Letras uma edição revista e ampliada de Gilberto Gil - Todas as letras, com organização do jornalista e compositor Carlos Rennó, novos comentários de Gil e uma farta coleção de fotos de várias fases de sua carreira. Se a primeira versão, que saiu em 1996, já era muito expressiva, imagine esta, que vem aumentada em 200 páginas. Nesta segunda edição, a dupla resolveu acrescentar aos oitenta da primeira, uma nova quantidade de comentários, que agora ultrapassam duas centenas. Entre eles, estão incluídos trechos de alguns que Gil fez para o livro GilLuminoso - A po.Ética do ser, de Bené Fonteles, exatamente os que mais guardam relação de proximidade com o espírito do livro de Rennó. Outra novidade está na revisão mais primorosa das letras, que trazem correção de palavras e trechos de algumas transcrições anteriores, particularmente de encarte dos antigos vinis. O caso mais significativo ocorre onde o próprio Gil alterou termos de músicas que até já foram gravadas por ele (Serafim) e por outros cantores (Língua do pê e Estrela). Há ainda canções que trazem variantes dos versos gravados. Minha jovem vizinha, por exemplo, vem escrita de modo completamente diferente da forma com foi cantada originalmente. Em Jubiabá, o leitor se depara com uma transcrição em que aparecem duas estrofes a mais, não incluídas em sua gravação original, quando Gil alterou a composição original. Esta nova edição de Todas as letras contém, ainda, as canções escritas em inglês e as versões para o português que ele fez de composições de outros artistas, como as que registrou no CD Kaya n''gan daya, por exemplo (acompanhadas, neste caso, das letras originais de Bob Marley). Carlos Rennó incluiu também algumas célebres parcerias de Gilberto Gil, indicando o grau de participação de cada parceiro e o processo de feitura da música. Quem escreveu e quem musicou, o que aconteceu primeiro, se demorou muito para ficar pronta e quem atrasou... Cálice (Gil e Chico Buarque), Soy loco por ti, América (Gil e Capinan) e Frevo rasgado (Gil e Bruno Ferreira) são apenas alguns exemplos dessa riqueza de detalhes. Se não pelo caráter óbvio, o de documentar o trabalho de um dos compositores mais fecundos da MPB, que registrou em música alguns dos momentos históricos do Brasil, Todas as letras funciona também como um livro de poesias para se consultar a qualquer momento. Como não se emocionar com a beleza de Drão ("o amor da gente é como um grão/ uma semente de ilusão/ tem que morrer pra germinar"), com a crônica de Água de Meninos ("tocaram fogo na feira/ ai, me diga, minha sinhá/ pra onde correu o povo/ caranguejo correu pra lama/ saveiro ficou na costa") ou com a pândega de Aquele abraço ("Chacrinha continua balançando a pança/ e buzinando a moça e comandando a massa")? Não é eterna a sutileza de A morte ("as rainhas são quase sempre prontas/ ao chamado dos súditos") ou o sentimento incondicional de Pai e mãe ("Meu pai, como vai?/ Diga a ele que não/ se aborreça comigo/ quando me vir beijar/ outro homem qualquer/ diga a ele que eu/ quando beijo um amigo/ estou certo de ser/ alguém como ele é...)? O baiano Gilberto Gil, como sabiamente diz Arnaldo Antunes no texto de apresentação da obra, "sempre teve a coragem de dizer as coisas em que acreditava nos momentos precisos, tocando pontos nevrálgicos de contextos muitas vezes adversos, aos quais respondeu com integridade e paciência". FICHA: Livro: Gilberto Gil - Todas as
letras (© Correio da Bahia)
|
||
|
||
© NordesteWeb.Com 1998-2004