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05-06-2008
Poucas vezes as autoridades ligadas à cultura deram importância a este que é um instrumento muito ligado às nossas raízes. Projeto Brasil da Sanfona fecha a lacuna JOSÉ TELESInicialmente um álbum duplo (lançado pelo Núcleo Contemporâneo), o projeto O Brasil da Sanfona foi agora complementado com um livro e um DVD que dão continuidade à série idealizada por Benjamin e Myriam Taubkin. Antes havia sido produzido Memória do Piano Brasileiro, Violeiros do Brasil, Percussão do Brasil, Brasil do Violão. O Brasil da Sanfona é o resultado de três anos de trabalho, nos quais foram mapeados sanfoneiros do Nordeste, Centro-Oeste e Sul do país. Myriam Taubkin contou na empreitada com a colaboração da fotógrafa Angélica del Nery, que assina as fotos do livro, e do documentarista Sérgio Rozenblit, diretor do vídeo (realizados com patrocínios do onipresente Sesc São Paulo, Ministério da Cultura e Grupo Galvani). A sanfona é o leitmotiv do documentário. Seus acordes pontuam a “história” de um Brasil pouco conhecido pelos que moram no litoral. E não se trata tão-somente de um musical. A abertura, por exemplo, é uma comovente sessão de benditos, entoados por sertanejas numa novena a Santa Luzia. A casa onde a novena foi filmada pertence a Raimundo Jacó Neto. Em memória do avô dele, Raimundo Jacó (primo de Luiz Gonzaga) é celebrada a Missa do Vaqueiro, em Serrita, no sertão pernambucano. Os produtores deram sorte de encontrar, por acaso, Francisco Jacó, pai de Raimundo Neto, a caminho da novena, levando uma mesa na cabeça. O resultado desta tomada são imagens e cantos raros, iluminados a candeeiro. Além de pungente, foi oportuna as cenas feitas com Patativa do Assaré, que recita um longo verso celebrando a genialidade de Luiz Gonzaga. Estas são as derradeiras imagens filmadas do poeta popular cearense, que morreria poucas semanas depois. Patenteado em 1829, pelo austríaco Cyrillus Demian, o acordeão chegou ao Brasil nas últimas décadas do século 19, trazido por imigrantes alemães e italianos. De São Paulo, espalhou-se pelo País. No Sul e no Nordeste sua influência foi tão forte que criou uma linguagem própria para a música dessas regiões e deu origem a uma linhagem de sanfoneiros virtuosos. Pelo DVD passam alguns dos maiores nomes da atualidade deste instrumento, Dominguinhos, Targino Gondim, Chiquinho do Acordeon, Arlindo dos Oito Baixos, Zé Calixto, Renato Borghetti, Camarão, Dino Rocha, Zino Prado e Elias Filho (os três últimos, pouco conhecidos fora do Centro-Oeste). Cada um desses sanfoneiros não apenas mostra sua intimidade com o instrumento, como dá depoimentos preciosos para a memória da música popular brasileira. Uma pena que um projeto desses só aconteça no século 21, quando a maioria dos lendários sanfoneiros do Nordeste, Abdias, Zito Borborema, Gerson Filho, e o próprio Luiz Gonzaga, tenham morrido. Isto não diminui sua importância, afinal poucas vezes sanfona e sanfoneiros receberam tal tipo de atenção de entidades culturais. Edição luxuosa, em papel cuché e capa dura, o livro, além da transcrição dos depoimentos e relação dos mais importantes sanfoneiros e afinadores de sanfonas em atividade, traz uma coleção de belas e tocantes fotografias com as paisagens, urbanas e rurais, do universo cuja trilha sonora é feita pela sanfona, ou como diz Myriam Taubkin: “Uma pequena amostragem de um mundo tão próximo de nós e tão desconhecido”. (© JC Online)
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