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Bethânia sem dramas

05-06-2008

Maria Berhânia

 

Em grande fase, cantora abre mão de teatralidade e grava versão em DVD do delicado 'Brasileirinho', além de disco sobre Vinicius

Luciano Ribeiro

   Na contracapa do terceiro LP de estúdio gravado por Maria Bethânia, em 1969, Hermínio Bello de Carvalho traça um perfil daquela jovem de 20 anos, já famosa por aos 17 ter estourado no panfletário show Opinião, ao lado de Zé Ketti e João do Vale, no teatro de mesmo nome, em Copacabana. Diz o poeta: ''Bethânia tem o porte magro, agreste, chuvoso (...) Aí, perguntamos: de onde tanto desalento? Em que paragens soturnas e mal-habitadas vagueou seu sentimento (...) Misturão de angústias é o que ela é''. Décadas depois, a cantora soa como a antítese dessa descrição - que a acompanhou por quase toda a carreira. Para confirmar a impressão basta ouvir a alegria serena de Brasileirinho, seu mais recente disco, que ela apresenta hoje e amanhã no Canecão - quando será gravado um DVD, com previsão de lançamento no fim do ano.

   - A referência do Hermínio é mais pela gravidade da minha voz, de como ela pode imprimir em algumas pessoas coisas muito maiores do que a minha idade naquela época poderia. Mas hoje sou uma mulher madura e Brasileirinho é o contrário disso. São as músicas da minha vida, mesmo antes de eu nascer. É um álbum que fiz porque eu mereço me dar esse prazer - afirma Bethânia.

    A diferença deste para os muitos álbuns da cantora é que Brasileirinho parece escancarar a delicadeza, algo antecipado no disco anterior, Maricotinha - ambos com título no diminutivo. A intérprete que puxava demais nos ''erres'' e vestia as canções com densa carga teatral parece, aos poucos, ter perdido a angústia. Não há uma faixa dramática sequer. Bethânia é contida e tal serenidade em nada lembra a mulher famosa por cantar com intensidade teatral Carcará (João do Vale/José Candido), Com açúcar, com afeto (Chico Buarque) e Negue (Enzo de Almeida Passos/Adelino Moreira), entre outras. O álbum traz o mergulho nas raízes do país, com poemas de Mario de Andrade e Guimarães Rosa, canções de domínio público, homenagens a santos, gritos ecológicos explícitos em Purificar o Subaé (do mano Caetano Veloso), e o resgate de Heckel Tavares e Luiz Peixoto.

   Bethânia fecha a tampa com Melodia sentimental, uma das mais inspiradas canções do modernista Villa-Lobos. E impõe à música talvez o desejo maior do autor, o de vê-la sem os exageros líricos. O repertório do disco não difere do que sempre gravou (como homeagear o sincretismo e o folclore), mas a abordagem soa completamente distinta.

   - Brasileirinho trouxe as maiores alegrias, é lindo como toca as pessoas, a maneira como é reconhecido, com que amor ele despertou e como dão para gente tudo e volta. A gravação deste DVD, num tempo tão próximo do outro (o show Maricotinha ao vivo também rendeu um álbum nesse formato), pode parecer loucura, nada tão anticomercial. Mas hoje eu estou assim, mais tranqüila, a suavidade está na alma, tive uma extrema felicidade em fazê-lo e não queria privar meu público de compartilhar isso comigo - diz.

   A fase coincide com a independência de Bethânia, desde que trocou a multinacional BMG pela criteriosa Biscoito Fino, em 2002. Em dois anos, foram quatro lançamentos e a inauguração de um selo próprio, o Quitanda, no qual pôde mostrar o trabalho da conterrânea Dona Edith do Prato. A cantora vai lançar em breve um disco com canções e poemas de Vinicius de Moraes - que, aliás, nunca teve a mesma importância que Chico Buarque, Caetano Veloso e Fernando Pessoa em seu repertório. O CD já foi gravado e é provável que saia até o meio do ano.

   - Vinicius foi da bossa nova, não era a minha praia. Mas na minha careira ele aparece em muitos discos e em todos os shows. Muitas vezes de forma exagerada, dose na veia. Soneto da fidelidade é aos berros, no meu entender, e não suave. Agora fiz a homenagem que queria. Ela vem com a placidez próxima de Brasileirinho, vou fazer o show dos dois discos juntos, mas Vinicius mexe com outros departamentos, a paixão, a perda, o amor alucinado.

   A cantora tem ainda três projetos em mente: um álbum de músicas interpretadas por Bibi Ferreira, outro em que ela mesma e Nana Caymmi cantam Sueli Costa e ainda o disco de Adriana Calcanhotto sobre a obra de Waly Salomão.

   - A gente pretende fazer dois lançamentos por ano. Tenho 350 mil idéias e há muita coisa boa acontecendo no Brasil. Recentemente Adriana me procurou e disse que tinha vontade de fazer o CD de Waly no Quitanda. Acho a idéia ótima.

   Pode ser um erro, contudo, acreditar que a cantora de protesto não esteja presente nos recentes álbuns e DVDs. Bethânia não fala sobre política, nega-se a comentar a atuação do amigo Gilberto Gil no Ministério da Cultura e, se não parece tão angustiada quanto já foi, mostra que a indignação continua, mesmo que por outros motivos.

   - Vale a pena protestar contra a burrice, a guerra no Iraque, por exemplo. Bush dizendo que o país tem armas químicas e é mentira. Estava na cara, acham que a gente é trouxa. Você liga a televisão, lê o jornal, tem três ou quatro notícias humanas. O resto são palavras que a gente não sabe de onde vêm e sou obrigada aprender. Num quero, não estou interessada, moço. Adoraria me surpreender. Brasileirinho é assim: está tudo tão chato, está tudo tão fora de ordem, que eu vou erguer uma bandeira de paixão pelo meu país.

   Na gravação do DVD, hoje e amanhã, Bethânia será acompanhada pela banda dirigida pelo fiel-escudeiro Jayme Alem, e contará com as participações das amigas Miúcha e Nana Caymmi, além dos grupos Uakti e Tira Poeira, e da diretora Denise Stoklos. O disco é curto e, para adaptá-lo ao palco, ela preparou com Miúcha Correnteza (parceira de Jobim e Luiz Bonfá) e, com Nana, João Valentão (Dorival Caymmi).

(© JB Online)


'Opinião' fez a fama de Bethânia

Bethânia no palco do 'Opinião': a menina de 17 anos teve de amadurecer

   Em dezembro próximo, completam-se 40 anos desde a primeira apresentação do show Opinião, dirigido por Augusto Boal, com a participação de Oduvaldo Viana Filho, o Vianinha, Paulo Pontes e Ferreira Gullar. Uma resposta musical ao golpe militar de 1964, o show tinha como estrela Nara Leão, ao lado de Zé Keti e João do Vale. Em fevereiro de 1965, no entanto, a musa da bossa nova Nara foi substituída por uma menina de apenas 17 anos, magra e desconhecida no Rio de Janeiro: Maria Bethânia. A princípio, Bethânia pretendia ficar apenas quatro dias no Rio.

   - Cheguei e tudo mudou. Eu era uma moleca de Santo Amaro. Quando soube da ditadura, estava brincando na rua e fui para casa correndo porque de coisa de militar a gente tinha medo. De repente, viajo para o Rio e faço barulho no Opinião. Não tive mais direito a minha meninice. Tudo ficou muito grande, precisei ser meu pai, minha mãe e meus irmãos ao mesmo tempo - lembra.

   O show fez estrondoso sucesso e apostava na música de protesto, com um trio de artistas que representava o samba negligenciado (Zé Kéti), o Nordeste esquecido (João do Vale) e a classe média politizada (Nara). Bethânia adicionou mais Nordeste à mistura e consagrou-se com sua emocionante interpretação de Carcará. A irmã de Caetano Veloso - que a acompanhou no espetáculo - mudou-se para o Rio, gravou no ano seguinte seu primeiro álbum e fincou seu nome na história da música brasileira.

   - Foi a época mais linda que poderia existir, apesar da ditadura. Conheci as pessoas mais deslumbrantes na cidade mais bonita de todas.

(© JB Online)


Bethânia grava "Brasileirinho" em DVD

   Rio - O disco Brasileirinho, de Maria Bethânia, lançado no ano passado e campeão de vendas da Biscoito Fino, vira show hoje e amanhã, no Canecão, para ser gravado em DVD. É uma superprodução, com direção de palco de Bia Lessa e de vídeo de André Horta, que assinou o DVD Maricotinha, registro do espetáculo anterior, comemorando seus 35 anos de carreira. Agora, os convidados do CD do selo Quitanda criado por Bethânia, a atriz Denise Stoklos, as cantoras Miúcha e Nana Caymmi e os grupos Uakti e Tira Poeira estarão no palco, sob a regência de Jayme Álem, maestro da cantora há duas décadas.

   "Vamos repetir as sonoridades do disco, com vozes e instrumentos dobrados. Por isso, foi preciso um grupo maior, com nove músicos", conta Álem. "O repertório é o mesmo do disco, acrescido de canções antigas, e os convidados ensaiaram mais de uma opção, além de suas músicas. Nana pode cantar Saudade da Bahia ou João Valentão, por exemplo, e a Miúcha, Correnteza, do Jobim." Bethânia se diz avessa ao vídeo ("gosto é do palco"), mas o resultado de Maricotinha foi tão bom que ela repete a dose, mantendo a recomendação de tornar a câmera invisível. "Até se pensou em fazer um show para o vídeo, mas prevaleceu o registro do que ela faz para a platéia, com câmeras muito discretas", diz Horta. O DVD deve ser lançado no segundo semestre, mas Bethânia pretende começar turnê nacional até maio. Só não está decidido ainda se será com Brasileirinho ou com o disco sobre Vinícius de Moraes, que ela ainda nem lançou. (Beatriz Coelho Silva)

(© O Estado de S. Paulo)

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