05-06-2008
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O ex-soldado da borracha Raimundo Nonato de Lima: sem boas recordações dos
seringais |
Sem condecorações ou sequer uma
aposentadoria digna, milhares de nordestinos arriscaram - e muitos perderam
- sua vida nos confins da Amazônia. Travaram uma batalha peculiar, mas
fundamental no desenrolar da Segunda Grande Guerra. Sua história é resgatada
no documentário Borracha para a Vitória, do cearense Wolney
Oliveira
Christiane Viana
Especial para O POVO
A conversa era bonita.
Promessas de riqueza fácil. Trabalho simples, uma moleza só. Além da chance
de se tornar herói, ajudar a pátria num momento particularmente complicado.
Para quem enfrentava secas e outras privações, nada mais atraente. Foi dessa
maneira que, em plena Segunda Guerra Mundial, uma leva de 53 mil nordestinos
partiu para a Amazônia. Formavam um exército: o da Borracha, que tinha por
missão recolher látex, nos confins da floresta tropical, para ser usada
pelos Aliados na batalha. Fizeram sua parte, mas acabaram condenados ao
esquecimento. Agora, sua história de sofrimento e decepções é contada no
documentário Borracha para a Vitória, do cineasta Wolney
Oliveira.
A idéia para o filme surgiu quando o
diretor leu um caderno especial da repórter Ariadne Araújo, publicado em
1998 no O POVO, sobre a saga dos arigós - assim também eram
designados os soldados da borracha. ''A história me chamou muito a atenção.
Vi que, dali, poderia resultar um bom documentário e fiquei esperando a
oportunidade'', diz Wolney. O que aconteceu no ano passado, com o DOC
TV, projeto da Fundação Padre Anchieta (TV Cultura) em parceria com
o Ministério da Cultura, que previa o financiamento e exibição do roteiro
vencedor entre tantos que se inscrevessem por todo o País. ''O Wolney me
procurou e conversei com ele sobre as reportagens, além de rascunhar um
resumo que serviu como introdução para o roteiro'', conta Ariadne.
Borracha para a Vitória
foi aprovado pelo DOC TV e deverá ser exibido, em rede
nacional, em abril próximo. As filmagens estão acontecendo, desde a semana
passada, no Ceará e no Acre, os dois pontos principais dessa aventura.
Explicando melhor: do contingente de homens enviados à selva amazônica, mais
da metade - cerca de 30 mil - era cearense. Número semelhante sucumbiu às
dificuldades da jornada ou ao ambiente inóspito encontrado na região. Quem
resistiu, teve que voltar para casa por conta própria ou se estabeleceu
definitivamente no Acre. Mas ainda sonha em rever a família.
''Fui mesmo porque diziam que a gente
ganhava muito dinheiro. Também gostava de aventura'', explica Raimundo
Nonato de Lima, 79 anos, um dos ex-soldados que conseguiram retornar para o
Ceará. Natural de Jaguaruana, ele é - pelo menos até o momento - um dos mais
lúcidos entrevistados do documentário. Narra pormenores de como era a vida
no seringal e as dificuldades enfrentadas na floresta. ''A gente trabalhava
descalço, porque o terreno era alagado demais. Éramos 38 homens. Nenhum
ficou rico. Pelo contrário. Tinha gente que só ia acumulando dívidas com o
seringalista'', recorda.
Todos os produtos
consumidos pelos soldados da borracha - de roupas e calçados a mantimentos -
eram comprados em comércios dentro dos próprios seringais. Não havia
concorrência. Portanto, o preço das mercadorias ficava a cargo do
seringalista. E, muitas vezes, quanto mais se trabalhava, mais se devia. O
que é mais grave ainda: os trabalhadores assinavam um contrato, em três
vias, que proibia abandonar o seringal com dívidas. ''Pense numa vida dura!
Nós entramos pra explorar uma área que, há 40 anos, estava abandonada. De 15
em 15 dias, caminhávamos com um carregamento de 30 a 40 quilos de látex nas
costas. Ainda hoje tenho as marcas da cangalha'', diz Seu Nonato.
Depois de recolhido, o látex era
transformado em borracha, que seguia para os Estados Unidos. Era o governo
norte-americano, aliás, que financiava as despesas com o transporte e
seleção dos arigós. Tanto interesse tinha uma explicação: os Aliados
dependiam da borracha brasileira para vencer a Guerra. Sem ela, estavam
comprometidos os automóveis e armamentos utilizados no conflito. ''A Malásia
era a grande produtora de látex na época. Porém, os japoneses tinham
dominado aquela região. O estoque dos Aliados não dava mais para nada. Eles,
então, foram buscar alternativas'', contextualiza Ariadne.
O Brasil, que fôra o principal
produtor de borracha no século XIX, passou a lugar de destaque novamente. E,
para atrair mão-de-obra, foi criado o Serviço Especial de Mobilização de
Trabalhadores para a Amazônia (Semta). Com sede no Ceará, sua função era
tornar o mais atrativo possível o trabalho nos seringais. Em conseqüência,
armou-se toda uma campanha publicitária vendendo a região amazônica como o
eldorado. ''Eu tinha 18 anos quando fui. Voltei aos 20. Só pensava em vir-me
embora. Era tanta saudade! Dava até vontade de voar'', diz Seu Nonato.
Como ele, seus
companheiros de serviço também não queriam outra coisa. Muitos davam conta
da ''roubada'' em que tinham se metido ainda durante a jornada. Com o
enxoval recebido nos acampamentos do Semta - calça de mescla azul, camisa de
morim branco, chapéu de palha, alparcatas, talher, rede, caneca e um saco de
estopa que servia como mala -, os nordestinos seguiam de caminhão
pau-de-arara até o Maranhão. De lá, o transporte para Belém era de navio. A
viagem era das piores. Pouca comida e água. Além do perigo de ir a pique.
''À noite, o navio ficava todo escuro para que os submarinos alemães não
bombardeassem'', recorda o ex-soldado cearense.
Quem chegava inteiro ao destino, não
perdia por esperar. Além das condições adversas de trabalho, o ambiente
inóspito da floresta - animais selvagens, mosquitos, doenças - em pouco
tempo sugava o pouco de resistência que ainda sobrara aos arigós. Como único
alento, eles acreditavam na promessa do governo brasileiro de, ao final da
guerra, serem reconhecidos como heróis da pátria e receberem aposentadoria
de soldado. Nada disso aconteceu. ''O Governo só se interessou em nos
colocar lá. Daí pra frente, nada. Não tenho nenhuma boa recordação. Mas
posso dizer que valeu pela experiência de vida'', frisa Seu Nonato.
Experiências que são transpostas para
a tela através do documentário de Wolney. ''Estou pegando o máximo de
depoimentos possível. No Acre - durante a pré-produção - ouvi histórias
fascinantes, como a de um deles que enfrentou uma onça. Depois, chega a
parte mais difícil, que é a edição'', diz o cineasta. Além do projeto para a
TV, ele revela que a idéia é utilizar o material restante para um
longa-metragem documental e também outro ficcional.
Cenas interessantes não vão faltar. Como as duas horas inéditas de filmagem,
de 1939 a 1945, conseguidas junto ao senado norte-americano. E ainda fotos
cedidas por Paulo de Assis Ribeiro, chefe nacional do Semta. Essas
fotografias, por sinal, têm sido responsáveis por alguns momentos de comoção
para os entrevistados, que recordam o passado distante. A família também
acaba descobrindo mais detalhes sobre o trabalho dos soldados da borracha.
''É muito importante o filme, pois a maioria das pessoas não sabe quem
fomos'', ressalta Seu Nonato.
O lançamento de Borracha para a Vitória acontece oficialmente
em junho, durante o 14º Cine Ceará.
(©
NoOlhar.com.br)
J. Amaros
multiplicados
Ariadne Araújo
da Redação
Então, de volta ao Acre. Com a equipe de filmagem do documentário, de
quebra, vai a jornalista que se encantou com a saga dos arigós. Mas, como a
história dos soldados da borracha já foi por mim contada em matérias neste
jornal e será agora recontada para a televisão, vale então falar aqui a
história da história. O dia em que, na produção de texto sobre literatura,
encontrei o homem que me abriu as portas e janelas do universo dos soldados
da borracha. O nome era J. Amaro - morreu, infelizmente, há coisa de dois
anos.
Poeta fescenino, dos bons, metralhou
meus ouvidos por horas com versos que andavam de braços com o picante e o
humor. Depois, enfastiado do recital, emendou o grande assunto de sua vida.
Os tempos de arigó nos seringais do Acre. O quê? Arigós? Soldados da
Borracha? Da ignorância total sobre o tema, eu desconfiei que se abria ali
uma parte da história do Brasil que eu não conhecia. Nem eu, nem minha
geração, nem ninguém. Nunca, nos livros. Nunca, nas revistas. Nunca, em
salas de aulas. Sumido, apagado, esquecido - o caso do envio de 53 mil
nordestinos para a Amazônia em ''sacrifícios'' pela pátria.
J. Amaro mostrou-me, por assim dizer,
a ponta do iceberg. Irresistível doce que se derrete na boca com gosto de
quero mais. Fiz as malas, voei para o Acre, incontinente. Pela boca do
poeta, o passado chamava. E eu fui. Sozinha, sem amparo de um conhecido
sequer, varei aquela ponta do Brasil, fronteiras com Bolívia e Peru, de um
lado a outro, rio abaixo rio acima, pelo direito e pelo avesso. Então, aos
montes, de descoradas palafitas de madeira, dos confins da floresta, os
companheiros de infortúnio de J. Amaro tomaram corpo e forma.
Hora de contar o engodo que começou
para eles em 1943, plena Segunda Guerra Mundial. Tempos em que o Brasil
resolveu devorá-los e mastigá-los como bucha em seus planos políticos. No
Acre, entre seringais, estradas poeirentas, barrancos de barro amarelo,
viagens de voadeiras pelos rios, nas periferias das cidades, o causo foi
escarafunchar e descobrir os cabeças-chatas, migrantes oficiais sob o
patrocínio de Getúlio Vargas. Agora, diante das câmeras filmadoras do
documentário, vamos reencontrá-los, J. Amaros multiplicados, rememorando a
epopéia de suas vidas - na bandeja, um pedaço indesejável da história do
Brasil.
(©
NoOlhar.com.br)
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