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05-06-2008
Amigos e familiares lamentam a perda do artista plástico, que tinha a Bahia como principal fonte de inspiração "Quando você perde uma estrela fica até fácil achar outra, mas quando você fica sem um artista como ele, você perde quase a metade do céu". A frase do artista plástico Altamir Galimbert, pronunciada entre lágrimas, é uma tentativa de expressar a dor e a saudade deixada pela perda do companheiro com quem conviveu por 35 anos. Amigos e parentes do artista plástico Carlos Bastos, reunidos ontem no velório, às 10h, na casa onde ele vivia, em Itapuã, lembravam das qualidades do profissional e do amigo, duas artes que ele soube exercer com maestria em seus 78 anos de vida. "O que ele mais amou foi a beleza, a arte. É essa a mensagem que ele deixa", afirmou a irmã do artista plástico, Maria Emília Bastos Ribeiro. O padre José Hamilton Barros celebrou a missa de corpo presente na residência do pintor, em meio a suas telas e obras de arte, como se elas ilustrassem, silenciosamente, a afirmação de Galimbert. "Ele nos deixa muita vida através de suas telas e murais". Foi a pedido de José Hamilton que Carlos Bastos fez a imagem que está na igreja do Centro Administrativo da Bahia, representando o Cristo em ascensão. Bastos, que morreu anteontem, de falência múltipla dos órgãos, no Hospital São Rafael, era mantido em coma induzido havia 30 dias devido ao rompimento de uma hérnia no intestino grosso. Como o pintor desejava, seu corpo foi cremado, às 11h30, no Cemitério Jardim da Saudade. As cinzas serão depositadas num altar que vai ser montado no largo da capela de São Francisco de Assis, em Praia do Forte. No altar, estará uma escultura que será confeccionada pelos artistas plásticos Altamir Galimbert, Zú Campos, Paulo Rufino, Pasqualino Pascarella e Eduardo Carvalho, com base num Cristo pintado por Bastos. Por coincidência ou não, esse Cristo foi sua última obra. Quem conviveu com o pintor garante que ele possuía uma característica fundamental tanto para os artistas natos, quanto para os amigos verdadeiros: a sensibilidade. "Ele era muito humilde e sempre tinha algo a me dizer. Por isso, já está fazendo falta", lembra a amiga Leonor do Livramento Dantas, ao lado de atriz Nilda Spencer. Foi graças a sua sensibilidade para criar - que tinha a Bahia como fonte de inspiração - que ele elevou sua arte na Bahia e no Brasil. "Esta foi uma das grandes perdas da arte brasileira. Para mim, pessoalmente, é um momento de sofrimento, pois éramos amigos desde os tempos do colégio primário", afirmou o senador Antonio Carlos Magalhães, que compareceu à despedida. (© Correio da Bahia) Fontes de inspiração para o pintor Uma das pessoas que serviram de inspiração para o artista foi Gessy Gesse, que foi mulher do poeta Vinícius de Moraes. "Posso dizer que eu fui uma das musas dele, já que sou uma das quatro sereias da pintura da Assembléia Legislativa", conta, com orgulho. Ela se refere à obra que retrata a procissão do Senhor dos Navegantes, ilustrada com imagens de 142 figuras da vida política e cultural baiana. O que pouca gente sabe, revela Gessy, é que o fato acabou provocando ciúme no poetinha. "Ele disse que já se considerava baiano e não entendia porque não estava retratado no painel". O pintor não se afligiu e logo deu uma solução ao "problema": fez uma pequena imagem de Vinícius de Moraes refletida no espelho onde a sereia está se olhando. Gesse revela, entretanto, que nunca chegou a posar para o pintor. "Acho que ele me conhecia de alma". Outra amiga de tempos antigos, a atriz Valéria lembra dos bons momentos já passados ao lado do artista, que conheceu em 1974. "Nos conhecemos no tempo da casa noturna Anjo Azul, que era toda decorada com obras dele", recorda-se. Apesar da grande perda, Valéria encontra alento na herança deixada pelo amigo. "Teremos sempre, na nossa memória, as obras dele". Para o artista plástico Deraldo Lima, que guarda em casa um retrato pintado por Bastos, a marca do grande pintor vai ficar guardada na memória. "Ele gostava de pintar figuras humanas, mas as criava com um toque moderno", explica. A sobrinha de Carlos Bastos Mirela Bastos falou sobre o destino do tio, que os mais próximos diziam que nunca envelheceu. "Meu tio agora vai pintar as estrelas do céu, afinal de contas, ele continua brilhando". (© Correio da Bahia) Bahia perde Carlos Bastos
Um dos precursores da arte moderna no estado, o pintor morreu aos 78 anos, vítima de falência múltipla de órgãos A Bahia está de luto. Morreu, ontem, aos 78 anos, o pintor Carlos Bastos, um dos precursores da arte moderna no estado. Ele estava sendo mantido em coma induzido, há 30 dias, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital São Rafael, mas acabou sendo vítima de falência múltipla dos órgãos, às 14h. O motivo da internação foi o rompimento de uma hérnia no intestino grosso. O corpo do artista plástico foi velado na noite de ontem em sua própria casa, em Itapuã, na presença de artistas, amigos e familiares. Hoje, às 10h, será celebrada uma missa de corpo presente, também na residência do pintor. Às 11h30, o corpo de Carlos Bastos será cremado, no Cemitério Jardim da Saudade, em Brotas, como era seu desejo. Suas cinzas serão depositadas aos pés de um altar, situado na Igreja da Praia do Forte. Mas isso somente depois que Altamir Galimbert, seu companheiro há 35 anos, termine uma escultura idealizada por ele e Carlos Bastos, que será confeccionada no local. "Espero que ele se junte a Jorge Amado e pinte o céu ainda mais bonito do que pintou aqui em baixo", disse Galimbert. A opção de velar o corpo do artista plástico em sua própria casa partiu dele mesmo, que viveu 30 anos no local. Lá, durante esse período, recebeu a visita de personalidades como Jorge Amado - de quem foi ilustrador - Caribé, Calazans Neto e Vinicius de Moraes. Carlos Bastos dedicou 57 anos de sua vida à arte e a Bahia sempre foi sua referência e fonte de inspiração, mesmo quando foi para Paris e Nova York, aprimorar sua técnica. Carlos Frederico Bastos nasceu em Salvador, no dia 12 de outubro de 1925, no bairro do Rio Vermelho, onde morou até os 15 anos. Aos 9 anos, desenhou seus primeiros traços. Aos 15, mudou de casa. Aos 18, de país - primeiro França, depois Estados Unidos. Carlos Bastos deixou seus traços imortalizados, espalhados por todo o mundo. Sempre em busca da arte como paixão e expressão, foi pintor, muralista, ilustrador, desenhista, cenógrafo e editor. Estudou na Escola de Belas Artes da Universidade Federal da Bahia (Ufba), onde foi discípulo de Mendonça Filho, Aguiar e Valença. Entre 1944 e 1946, estudou na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro, onde foi aluno de Santa Rosa, Iberê Camargo e Carlos Oswald. Ainda na década de 40, cursou a Sociedade Brasileira de Belas Artes e a Fundação Getúlio Vargas, onde participou de aulas particulares com Portinari. Anos mais tarde, fez aperfeiçoamento na Arts Students League em Nova York (Estados Unidos), onde teve como mestres Harry Strongberg e Nicolay Abracheff. O artista continuou seus estudos de desenho na Académie La Grande Chaumière, em Paris. Retornando da França montou, oito anos mais tarde, seu atelier no Solar da Jaqueira, em Salvador. Em 1965 editou o livro de desenhos Igrejas, santos e anjos da Bahia, com prefácio de Jorge Amado. Em 1973, recebeu da prefeitura de Salvador o título de Benfeitor do Museu da Cidade. Durante os anos 70 e 80 fez ilustrações para vários livros. (© Correio da Bahia, 13.03.2004)
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