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"Aldeotas" apreende retalhos da memória

05-06-2008

Gero Camilo

 

Encenação busca traduzir imagens das palavras em espetáculo mais recente do poeta e ator cearense Gero Camilo

VALMIR SANTOS
DA REPORTAGEM LOCAL

   Homem da palavra, o ator e poeta cearense Gero Camilo roça com ela na música, no cinema, no teatro. É dizer que é assim desde a adolescência no Conjunto Esperança, periferia de Fortaleza.

   Em garoto, questionava-se o tempo todo, no ato precoce da escrita, sobre a "afirmativa da literatura". "Algo que as pessoas tivessem mais sabor no falar, no dizer. Porque eu mesmo não tinha, não agüentava os clássicos pelos clássicos", diz Camilo, 33.

   Essa espécie de condição de ourives, negociante paciencioso do verbo que deita no papel ou se propaga em gotazinhas da língua do ator, encontra morada na peça "Aldeotas". Texto de sua autoria, cartaz a partir de hoje no Sesc Belenzinho, constitui-se de retalhos de memória dos amigos Levi (interpretado por ele, Camilo) e Elias (Marat Descartes).

   Ambos os personagens na casa dos 50 anos, o reencontro trará recordações. Eles foram apartados depois da conclusão do segundo grau escolar em Coti das Fuças, a pequena cidade imaginária erguida pela dramaturgia em fragmentos de infância e juventude.

   "Fuças porque lá no oco do mundo, lugar ao qual, em princípio, não se dá muita importância, mas de onde se sai para a vida, quando menos se vê", diz Camilo, que procura distanciar a narrativa do viés autobiográfico.

   Despertar essas existências adormecidas nas aldeias interiores de cada um, ainda que mergulhados na modernidade torta de uma São Paulo, é o que almeja o autor. "É estimulante essa dramaturgia não convencional do Gero, profusão de memórias extremamente poética, que deixa a cargo do ator traduzir suas imagens para a cena", diz Descartes, 28.

   A encenadora Paoli Quito, 43, destaca as sensações que emanam das palavras a serem devidamente valorizadas e equilibradas com pouquíssimos objetos de cena, como uma tela e um tapete. Busca-se o "jogo lírico" em composição com a luz desenhada por Marisa Bentivegna. Espera-se do espectador a construção do seu próprio espetáculo, a partir da trajetória de Levi e Elias.

   "Aldeotas" é também o reencontro dos estudantes da Escola de Artes Dramáticas (EAD-USP), Camilo e Descartes, bem como o da professora Paoli Quito com eles, dedicada a trabalhos com ênfase na expressão corporal.

   Essa parceria debutou num projeto experimental dentro da faculdade, "Prelúdico para Clowns e Guitarra" (96), regido pelo improviso. Um pouco daquele espírito é resgatado no galpão 2 do Sesc Belenzinho.

Intervalo no cinema

   Camilo não freqüentará set de filmagens nos próximos dias. Seu nome consta dos créditos de sucessos recentes do cinema nacional, como "Bicho de Sete Cabeças", "Cidade de Deus" e "Narradores de Javé". Ora em diante, reata fôlego com o teatro.

   No mês que vem, duas peças curtas de sua autoria, "Café com Torradas" e "Quem Dará o Veredicto", entreatos presentes no livro "A Macaúba da Terra" (2002), uma edição independente, vão cumprir temporada no teatro de Arena Eugênio Kusnet.

   É do mesmo livro o texto de "As Bastianas", espetáculo da cia. São Jorge de Variedades, que também reestréia em abril. As primeiras linhas de "Bastianas" evidenciam a forma como Camilo maneja sua linguagem de acento regionalista, mas não só, ele que está radicado em São Paulo há anos: "Mato soou um canto de cegonha dia de lua piada com rastro curto de nuvem e beirinha d'água nos cantos, enquanto que lá nos torrão-seco não chove nem de agorinha nem nunca."

   Em paralelo, no mesmo Arena, a partir de 7/4, Camilo participa do musical "O Canto de Cozinha", ao lado dos cantores Ceumar, Tata Fernandes, Kléber Albuquerque e Rubi. Aldeões da música popular e brasileira.

ALDEOTAS. De: Gero Camilo. Direção: Cristiane Paoli Quito. Com: Marat Descartes e Gero Camilo. Onde: Sesc Belenzinho - galpão 2 (av. Álvaro Ramos, 915, SP, tel. 0/xx/11/6602-3700). Quando: sáb. e dom., às 18h; até 2/5. Quanto: R$ 15.

(© Folha de S. Paulo)


TRECHO

Elias - Onde esteve? (Vinha de cima do cajueiro a voz de Elias.) Tive de brincar sozinho. Isso não se faz com as visitas.
Levi - Que susto, Elias! Estive... (Lembrei da promessa que fiz aos meninos de não contar a ninguém.) ...por aí. Vamos brincar.
Elias - Já brinquei.
Levi - Sozinho?
Elias -Onde esteve?
Levi - Do que brincou?
Elias - De avançar no tempo.
Levi - E conseguiu?
Elias - Sim. Onde esteve?
Levi - Estive aqui, dentro. E foi pra onde?
Elias - Fui para o dia da minha morte.
Levi - Eu estava?
Elias - Estava. Onde esteve?
Levi - Lá! Lá que estive, no dia da tua morte.
Elias - Você mente.
Levi - Estive em segredo.
de "Aldeotas"

(© Folha de S. Paulo)

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