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Eles vão invadir sua praia

05-06-2008

A recifense Cynthia Zamorano, ou simplesmente CYZ, no APR

   O line-up do Abril Pro Rock 2004 aposta na renovação do cenário pop recifense. Pelo festival, passam algumas das principais bandas pernambucanas novas, todas elas com CDs na praça e personalidades próprias. Tem a soul music de A Roda, o sambinha eletrônico do Mombojó, o som indie da Vamoz!, o ‘rock-literário’ da Mula Manca, o funk dançante e radiofônico da Suvaca di Prata, passando até pela fusão de MPB com música eletrônica realizada por Cynthia Zamorano. Com tanta mistura, não é difícil assinalar por que aquele tal do rótulo mangue ficou ter ficado tão ‘pequeno’ com o passar dos anos.

(© JC Online)


Bandas dão sangue novo ao APR

Dispostas a conquistar um lugar no sol da música brasileira, Mombojó e Mula Manca e a Triste Figura entram com todo o gás na programação do Abril Pro Rock 2004

Áudio
» Mombojó - Absorva
» Mombojó - Deixe-se Acreditar
» Mula Manca - Introdução
» Mula Manca - Vira-lata
RAFAEL GUERRA

   Uma banda com Nada de Novo e outra com um Circo da Solidão. Estes são os nomes dos recém-lançados álbuns das bandas Mombojó e da Mula Manca e a Triste Figura, respectivamente, que tocam este ano no Abril Pro Rock, que, nesta edição, parece voltar as raízes, abrindo espaço para jovens artistas independentes do Estado. As duas bandas tocam no domingo e esperam obter o máximo dos cerca de 30 minutos que passarão em cima do palco do pavilhão do Centro de Convenções.

   O Mombojó está pela segunda vez no festival e desta vez chega incensado pelos críticos. O primeiro disco lançado pela banda recebeu críticas positivas da imprensa especializada de todo o País e traz uma justaposição de estilos: surf-music, rock, MPB, e outros. “Da primeira vez que tocamos no APR, sabíamos que tínhamos pela frente a responsabilidade de fazer um show impecável, por conta da vitrine que o festival representa. Com o CD em mãos, as nossas possibilidades dentro do evento são ainda maiores”, explicou Marcelo Campello (violão, cavaquinho e escaleta).

   O grupo está tentando encarar o festival com naturalidade, mas é claro que a cobrança vai ser enorme. “A gente está encarando esse show como mais um na nossa programação, dando continuação a um projeto que começou há algum tempo”, explicou o tecladista Chiquinho. Marcelo Machado (guitarra) complementa o pensamento do colega e deixa claro o momento pelo qual passa a banda, “o festival é uma responsabilidade grande para o Mombojó, devemos fazer jus às coisas boas que estão falando da gente pelo País”.

   Na primeira semana de abril, a revista Outra Coisa, do músico Lobão, distribui nacionalmente o disco do Mombojó, que sai junto com a publicação pelo módico preço de R$ 11,90. Serão 20 mil cópias espalhadas em bancas de todo o Brasil, exatamente no mês do APR. “Acredito que isso nos ajudará a prender a atenção de muita gente que vai estar circulando pelo Pavilhão do Centro de Convenções” afirmou Chiquinho.

   A Mula Manca e a Triste Figura também chega ao APR com as melhores expectativas possíveis. O Circo da Solidão, disco de estréia do conjunto, traz uma grande carga de literária, que é o diferencial da banda, cujo som é cheio de idiossincrasias.

   Tibério Fonsêca, vocalista da Mula Manca, espera que a apresentação no festival dê mais visibilidade ao grupo e abra as portas para o ‘Sul-Maravilha’. “Temos o projeto de fazer uma turnê pelo eixo Rio-São Paulo e o Abril pode sim facilitar contatos que viabilizem esse projeto. Precisamos fazer valer nosso título de celeiro artístico do País”, explicou Tibério.

   Há mais diferenças que semelhanças no som do Mombojó e da Mula Manca. No entanto, pode-se incluir as duas numa categoria de bandas ‘pós-mangue’, que começa a despontar na cidade. Junto com A Roda, Suvaca di Prata e Vamoz!, os dois grupos fazem parte de uma geração que está criando uma pernambucanidade que não têm a cultura de raiz como elemento obrigatório.

(© JC Online)


Vamoz! apresenta cara ‘indie’ da cena recifense

Puxando pela distorção das guitarras, acompanhadas apenas de bateria, banda sacode a poeira do mangue

   Bonitas melodias aliadas aos ‘gritos’ das guitarras distorcidas, letras em inglês e visual ‘indie’, some a isso tudo generosas pitadas de Neil Young e Wilco. Isto é a Vamoz!, banda pernambucana (isso mesmo!), que se apresenta na noite ‘from hell’ do Abril Pro Rock deste ano.

   Duas guitarras e bateria. Com uma formação já não tão incomum – vide Jon Spencer Blues Explosion, Whites Stripes – , o Vamoz!, que é uma banda contratada do selo independente goiano Monstro Records, lançou seu primeiro disco, Gig on the Road, no início do segundo semestre de 2003, e tem no show do APR uma espécie de coroação pelo trabalho. Antes, foram inúmeros shows, desde em casas pequenas, Pimenta Verde e Garagem (ambas no Recife), até em importantes festivais. “Fizemos Goiania, Brasília e capitais do Nordeste. Sem falar que tocamos muito por aqui”, explicou Marcelo Gomão (ex-supersoniques e DMP e os Fulanos), líder da banda.

   Segundo Gomão, além de ser uma oportunidade para se apresentar às pessoas do Sul e Sudeste que conferem o APR, o show vai ser bom para deixar a banda mais conhecida no Recife. “Até agora, vendemos 500 cópias do disco, que para um trabalho independente já é ótimo. Mas ainda não somos conhecidos do grande público. Espero que o festival ajude na divulgação da banda”, disse o músico.

   O Vamoz! ganhou prêmios de banda revelação 2003 em diversas publicações pelo Brasil. A revista Dinamite (São Paulo), o selo carioca Midsummer Records (que publica zines), os sites Zona Punk (Belo Horizonte) e Reciferock foram alguns dos meios que elegeram a Vamoz! como uma das surpresas do ano passado.

   Para o show da segunda noite do Abril Pro Rock, o Vamoz! tocará um repertório baseado no primeiro álbum e incluirá canções do próximo disco, que deve ser lançado ainda em 2004. “Além disso, faremos um cover surpresa”, adianta Gomão, que espera ganhar os ‘headbangers’ com essa misteriosa versão. (R.G.)

(© JC Online)


A dama que Pernambuco não conhece

A recifense Cynthia Zamorano, ou simplesmente CYZ, depois do trabalho reconhecido no exterior, apresenta-se no Abril pro Rock como a grande novidade da cena local

GEISA AGRICIO

   Tão logo foi divulgada a programação do festival Abril Pro Rock, entre as atrações inéditas surgia à pergunta, quem é CYZ? A incógnita sigla revela a personalidade da pernambucana Cynthia Zamorano, que optou por construir sua carreira no exterior, especialmente em Portugal, prepara-se para finalmente debutar na cena brasileira, com chave de ouro.

   Cynthia Zamorano, atualmente residindo em Lisboa, vem ao Brazil apresentar o repertório do seu segundo disco, Littlefishdublongwatersamba, com lançamento previsto para o fim do mês em Portugal, mas ainda está em fases de negociações para a distribuição no Brasil. O título do disco é na verdade uma grande brincadeira com a tradução literal em inglês dos bairros de Peixinhos (little fish) e Águas Compridas (long water).

   O álbum foi idealizado em Lisboa, de onde CYZ partiu para o Brasil para garimpar parcerias e gravar os sons nacionais que ela queria incluir no trabalho. Entre estúdios de Recife, Rio de Janeiro e São Paulo, ela gravou as bases com músicos brasileiros.

   A cantora reuniu um time para ninguém colocar defeito, o Littlefishdublongwatersamba tem participações de Sérgio Cassiano (Mestre Ambrósio), Eleno dos 8 Baixos, Maciel Salú, Dona Cila do Coco, Fred 04, DJ Dolores, Gilberto Gil e Zeca Baleiro.

   O resultado é um CD diversificado. As bases eletrônicas funcionam como elemento de arremate dos variados recortes da música popular brasileira. Pelas mãos dos produtores portugueses, conseguiu traduzir uma ligação harmônica entre os elementos tradicionalmente local e tendências musicais universalmente aceitas.

   A mistura deu certo, principalmente para os ouvidos estrangeiros, para quem as referências pernambucanas lhes soam como uma experiência exótica ao mesmo tempo que o dub não lhes causam estranhamento.

   Resta agora passar no crivo do público de sua terra natal, em sua grande estréia na noite da sexta-feira (16) do Abril Pro Rock. “Estou muito feliz por finalmente está indo tocar em casa, e de poder mostrar meu trabalho no Brasil. Vou mostra o show do Littlefish..., mas alguma supresa ainda pode acontecer até, quem sabe”, mantém o mistério Zamorano.

   TRAJETÓRIA – Com uma formação musical baseada nos ritmos populares, Cynthia Zamorano descobriu as associações sonoras entre os batuques pernambucanos às mais contemporâneas expressões musicais, como drum’n’bass e breakbeat, ‘coqueluches’ no exterior. Não custou muito a fazer suas próprias misturas.

   A inclusão da faixa Zumbi na coletânea Caipiríssima, do selo nova-iorquino Caipirinha Records que divulga internacionalmente os principais nomes da música eletrônica brasileira lhe renderam o passaporte para a carreira no exterior. O principal selo português, o Nylon, da Off The Record, produziu e lançou seu primeiro CD Precyz, feito em parceria com o músico lusitano Preto (João Roquette).

   O disco foi distribuído em toda Europa e também no Japão, sendo sucesso em Portugal. Chegou a ser considerado álbum do mês pela prestigiada revista inglesa Straight No Chaser, na época do lançamento, em 2001.

(© JC Online)


O som irrotulável e contagiante de A Roda

Uma das mais badaladas bandas da nova cena pernambucana tem tudo para estourar no Abril Pro Rock

Áudio
» Primeira
» Ragga
JOSÉ TELES

   A Roda bem que poderia ser chamada A Zorra. No princípio era um bando de músicos, nas ruas de Olinda, tocando o que lhe viesse à cabeça. “Em junho de 2003, a gente começou a fazer umas jam sessions. Quem quisesse tocar, tocava. Na semana seguinte, alguém pedia que o outro repetisse um tema da semana anterior. Era tudo muito intuitivo”, conta o percussionista Homero.

   Os músicos mais assíduos foram definindo o perfil do grupo, até chegar a atual formação de A Roda: Eduardo (guitarra), Charles (bateria), Yuri (baixo), Fernando (teclado), Irandê, Homero e Guga (percussão), Diógenes, André e Marcos (metais). A maioria dos integrantes da banda é de Olinda (a turma dos metais é de Nazaré da Mata, toca nos Ticuqueiros), e quase todos participavam de maracatus (Nação Pernambuco e Maracatudo).

   Eles não poderiam ter estilos mais dessemelhantes. Homero é também percussionista do grupo neo-armorial Sa Gramma e da Orquestra Sinfônica do Recife. Eduardo foi da punk Os Cachorros, Yuri de A Prole, enquanto Guga tocava com Mestre Salustiano. Quem batizou o grupo foi Ajax, de Os Cachorros: “Um dia, na Pitombeira, tinha muita gente, e tivemos que formar um círculo. Ajax ficou nos chamando de A Roda, e ao incluir o grupo no festival O Rock na Praça, nos inscreveu com este nome, e pegou”, conta Homero.

   A Roda faz uma música que tem pouco a ver com a sonoridade das primeiras bandas da cena mangue: “O manguebeat foi muito importante, abriu portas, mas o fato de haver poucas bandas hoje usando alfaias, é sinal que o movimento amadureceu. Cada grupo faz o seu som, feito a Mombojó que usa umas programações bem legais”, analisa Homero. O som de A Roda é irrotulável. Escuta-se uma pegada à James Brown ali, uns groovies de Herbie Hancock acolá. Um levada latina mais adiante. Inteiramente instrumental, o CD lembra as elucubrações do americano Tommy Guerrero (que Homero diz não ter escutado ainda). No disco de estréia de A Roda, somente uma das músicas vai além dos 4 minutos de duração. Ao vivo, elas se estendem até quando a banda sente que esgotou o tema.

   A exposição na importante vitrine que é o Abril Pro Rock pode levar gravadoras do Sudeste a interessarem-se pelo grupo. Homero, falando pelos colegas, garante que não têm o objetivo de sair do Recife: “Não é mais tão importante. Claro que todos querem fazer apresentações fora daqui. Porém, mais importante seria encontrar uma empresa que distribuísse o CD da banda em outros Estados”. O disco será lançado dia 27, no Burburinho, no aniversário de dois anos de A Roda e do bar.

(© JC Online)


Suvaca di Prata chega ao CD cheia de suingue

Formada por integrantes da Supersoniques e Jorge Cabeleira, banda lança oficialmente Corega Check

Áudio
» Suvaca di Prata - Dia D
» Samba de Nylon com Tutano
SCHNEIDER CARPEGGIANI

   A Suvaca di Prata nasceu da dissidência do noise da Supersoniques e do rock setentão da Jorge Cabeleira. Duas bandas que corriam em direções musicais opostas do RG soul/funk/samba que a Suvaca imprime no seu CD de estréia, o independente Corega Check, que tem lançamento oficial no Abril Pro Rock.

   “Na verdade, esse é um tipo de música que todos nós da Suvaca escutávamos, mas que não fazia parte do som das nossas bandas. Mas o rock ainda está presente em alguns momentos do disco”, declara o ex-Supersoniques e vocalista da Suvaca, Igor Gazatti.

   A Suvaca teve um início meteórico em 2002. Era a banda certa na hora certa, em um ano no qual o som black brasileiro foi redescoberto. Jorge Ben – mas só aquele lá dos anos 60/70 dos clássicos Tábua de Esmeraldas e Samba Esquema Novo – vivia ali mais um período de revival na sua carreira e o tal do samba-rock havia sido repescado como trilha sonora oficial de tudo o que era festinha.

   Nos seus primeiros shows, a Suvaca colocava sorrateiramente um repertório próprio enquanto promovia versões do Tim Maia ‘Racional’, de Jorge Ben e até da fase mais black de Michael Jackson, lá do seu álbum clássico da disco music, Off the Wall. A alquimia deu tão certo que a Suvaca virou uma espécie de ‘atração-curinga’ em tudo o que era festa.

   O sucesso, no entanto, acabou servindo para atrasar os planos dos músicos de mostrar que estavam formando não apenas mais uma outra banda cover no cenário pop recifense. “Por mais sucesso que tenha, um grupo cover tem um tempo de vida restrito. E não era essa a nossa intenção”, analisa Igor.

   A agenda apertada de shows atrapalhava a banda na hora de compor canções próprias. “Chegamos em um ponto em que não dava para compor e tocar ao mesmo tempo, tivemos de parar.” A parada para a formação do repertório de Corega Check começou em março do ano passado e durou até o final de 2003.

   “É bom fazer show de baile, mas agora queremos mostrar ao público o repertório do CD. Quando ligam para comprar o nosso show, avisamos logo que estamos tocando apenas as nossas próprias músicas”, avisa Gazatti, que tem planos de entrar em estúdio para a gravação do segundo disco da Suvaca até o final do ano.

   Corega Check é um exercício eficiente de apropriação da black music por músicos que formaram a sua carreira do outro lado da trincheira da música negra norte-americana, no lado do rock’n’roll – que desde o seu surgimento nos anos 50 passou por um processo de ‘embranquecimento’ mais eficiente do que o vivido por Michael Jackson.

   A tomada do universo negro feita pela Suvaca também é de vocabulário, como no funkão à O’Jays sobre paraísos emocionais de Dia D até a social Samba de nylon com tutano - a melhor do CD no sentido radiofônico de ser. A banda continua fazendo jus às suas referências em faixas como Da parada ao terminal e A banda do maestro Miranda. Em alguns momentos do CD a mixagem coloca muito à frente a voz de Igor, o que prejudica a audição do aparato sonoro que a banda dispõe. Mas nada que atrapalhe como um todo a estréia do ‘suor branco’ da Suvaca.

(© JC Online)

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