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O mundo de Pitty

05-06-2008

Daniela Picoral

A baiana Pitty

Pitty não gosta de fanatismo. Se a fã quer conversar, tudo bem. Só não vale fazer histeria e ficar idolatrando

Ana Paula Alfano

   "Sempre gostei de rock e achava impossível viver disso no Brasil." Mas deu certo: a cantora baiana lançou seu primeiro CD, Admirável Chip Novo, e emplacou vários sucessos, com um empurrãozinho da MTV.

   "A gente tinha amigo lá, podia chegar e pedir pra botar o clipe", conta. Sem papas na língua e nas letras, Pitty fala nesta entrevista sobre o monopólio do axé na Bahia, o quanto não entende (nem aceita) o assédio doentio de fãs e o diário que mantém desde criança até hoje em códigos.

Por que você não gosta da palavra fã?
No geral ela sugere uma coisa de fanatismo e idolatria que eu não curto, não acho saudável. É bacana admirar alguém pelo trabalho, mas não dá para viver em função de outra pessoa, de um artista.

Você já foi fanática por alguém?
Fanática, nunca. Adoro Mike Patton [do Faith no More], por exemplo. Pô, se eu tivesse na frente do cara, a última coisa que ia querer seria um autógrafo. Ia querer trocar uma idéia, tomar uma cerveja, falar da vida, saber o que ele pensa. Muitas vezes, em shows, me pedem uma pulseira, um colar. Sempre digo: quer conversar, vamos, mas não tem nada a ver esse papo de fanatismo.

Como era a música na sua adolescência?
Meus pais sempre ouviram muita música. Quando eu era criança, me apresentava em programas de calouros de guris. Mas não levava muito a sério. Como eu amava rock, achava difícil viver daquilo.

E você já escrevia letras?
Já, muito. Eu sempre amei ler e escrever. Desde os 8 anos, mais ou menos, eu tinha um diário daqueles com chavinha e tudo. Escrevia tudo ali. O diário, com o tempo, começou a funcionar como consultório psicológico. Os desabafos ficaram mais íntimos e aí inventei um código, um alfabeto baseado no alfabeto fenício, porque sabia que estava sujeita a ser descoberta. Uso-o até hoje.

Você ainda tem o diário?
Tenho menos tempo para ele. Mas muitas das minhas letras vieram dali.

Quais são seus tetos de vidro?
Vários. Ninguém é tão perfeito que possa apontar o dedo para o lado. A maioria das pessoas está mais preocupada com o quintal do vizinho do que em arrumar a própria casa.

Mas você mesma já declarou que pagode é um lixo, por exemplo.
Não tenho pudor de dizer isso, é o meu gosto pessoal. Mas não recrimino quem gosta de pagode. Não estou tentando catequizar ninguém, convencer de que sou dona da verdade.

Você diz que acha uma vergonha a Bahia ser a terra do axé. Por quê?
Porque há muitas outras coisas legais acontecendo lá. Tem um monte de bandas de rock ótimas, mas elas são sufocadas pelo monopólio do axé. Eu tenho essa mágoa. Não sou contra o axé, ou o pagode, mas tem de ter espaço para todo mundo. E em Salvador não tem.

Sua carreira deslanchou por causa da MTV?
Minha gravadora é pequena, não tem estrutura para bancar o jabá [quando a gravadora paga para a rádio tocar determinado artista]. A alternativa que achamos foi fazer clipes balas para tocar na MTV. A gente tinha amigo lá, podia pedir pra botar o clipe. Se o público gostasse, ia pedir e eu ia tocar em rádio. Foi o que rolou.

Você fala pouco de amor, né?
Relacionamentos amorosos não me preocupam, nunca me preocuparam. E gosto de preservar minha vida pessoal. Já sofri por amor, acho amor essencial para a vida, mas nunca quis escrever sobre isso. Para mim, a música tem outro papel, um caráter subversivo e transformador. Acho que falar de amor, hoje, está banalizado.

Você não curte o emocore?
Algumas letras são bacanas, mas acho tudo muito igual, careta e previsível. Bem chato.

Você mora com dois caras da sua banda. Como é ser a única mulher?
A gente é irmão, saca? Chamo este apartamento de BBB, Big Brother Bahia. Aqui moramos eu, Duda [baterista, namorado da Pitty há anos] e Joe [baixista]. Peu [guitarrista] é vizinho. Nem lembro que sou a única mulher. Às vezes saio pelada, o Joe vive pelado pela casa, não agüento mais ver aquela bunda gorda [risos]. Conheço esses caras há dez anos. Eles é que sofrem mais. Na minha TPM, passam o dia longe de casa. Fico insuportável.

Você diz que seu grande desafio no rock é vender sem ser vendida. O que é "ser vendida"?
Acho que você não pode fazer nada que ofenda você. Procuro falar de coisas que eu considero úteis. Não faço playback, nunca. É um desrespeito, coisa de quem não tem competência. E não a programas que eu considero de baixo nível.

O CPM 22 acabou de ir ao programa do Gugu. Você iria?
Eles fizeram ao vivo, então tudo bem. Convidaram a gente para tocar no Faustão. Tive vários questionamentos. Mas vi que não era justo reclamar que o rock não tem espaço e aí recusar. Decidi ir, com a condição de fazer o som ao vivo, sem mudar uma vírgula da letra, do discurso. Na última hora eles disseram que tinha de ser playback. Recusei com educação.

(© Capricho)

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