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05-06-2008
Em comemoração aos 467 anos da capital pernambucano, o palco montado no Marco Zero recebe hoje, às 18h30, a Orquestra Sinfônica do Recife O Recife apaga as velas e, mais uma vez, o cenário da festa é o Marco Zero. A festa de aniversário dos 467 anos da capital pernambucana acontece hoje, às 18h30, com apresentação da Orquestra Sinfônica do Recife, que terá participação especial do paraibano Severino Dias de Oliveira, o popular Sivuca. O compositor mostra, em primeira audição aos espectadores recifenses, sua inédita obra erudita.Natural de Itabaiana (na Paraíba), Sivuca começou a tocar sanfona aos 9 anos. Aos 15, veio para o Recife, onde começou a carreira na Rádio Clube, adotando o nome artístico. Aos 18, tornou-se aluno do maestro Guerra-Peixe. Depois dos anos 50, gravou seu primeiro disco, viajou para Europa, trabalhou durante alguns anos nos EUA e fez várias parcerias com músicos brasileiros. Sua presença na Orquestra Sinfônica do Recife (OSR) está sendo bastante esperada justamente pela mistura da experimentação e improvisação de Sivuca com a rigidez da partitura da música erudita. A OSR vem, desde o início de 2001, acumulando centenas de performances inesquecíveis. Em 2003, foram promovidos, mensalmente, pela Prefeitura, três concertos gratuitos e bastante concorridos no Teatro de Santa Isabel. A Sinfônica também aumentou a quantidade de integrantes. Em agosto de 2002 foi feito concurso público, no qual ingressaram mais 34 novos instrumentistas. Atualmente, são 94 músicos. Depois desse concerto, haverá uma chuva de fogos de artifício encerrando as festividades de aniversário da cidade. (© JC Online) Rapsódia para o
sanfoneiro Sivuca Instrumentista paraibano faz concerto amanhã com a Orquestra Sinfônica do Recife na festa de aniversário da cidade. Apresentação será gravada para seu primeiro DVD JOSÉ TELESPara os desavisados, pode parecer estranho um sanfoneiro como solista de uma orquestra sinfônica. Para o paraibano Sivuca, que toca com a Sinfônica do Recife, amanhã, a partir de 18h30, no Marco Zero, em homenagem ao aniversário da cidade, é mais uma das inúmeras peripécias musicais que vem empreendendo há 65 anos, pelos quatro cantos do mundo. A primeira vez que ele tocou com uma orquestra foi em 1948, na Rádio Clube de Pernambuco, executando peças como Rapsodhy in blue, de Gerswhin e Noturnos, de Chopin. “Sempre fui meio enxerido com esta história de música, mas minha primeira grande experiência a frente de uma sinfônica foi aqui no Recife, em 1986, num espetáculo beneficente, promovido pela esposa do (então) governador Miguel Arraes, no Santa Isabel”, relembra. Debilitado devido a uma recente cirurgia, Sivuca, durante o ensaio, senta em um banco ao lado do maestro. Cerra os olhos enquanto sola João e Maria, uma de suas músicas mais conhecidas, e mais antigas. Foi composta no bairro de Casa Amarela, no Recife, em 1950, embora somente tenha recebido letra, de Chico Buarque, na década de 1970 (foi gravada por Nara Leão, num dueto com Chico, no disco Meus Amigos São um Barato, de 1977). O concerto terá ainda uma adaptação do Moto Perpétuo, de Paganani, uma peça inspirada em Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira, Quando me lembro, dolente valsa de Luperce Miranda (bandolinista pernambucano, cujo centenário acontece este ano), Feira de mangalho, grande sucesso, na voz de Clara Nunes, composta por Sivuca em parceria com a mulher Glória Gadelha (com quem está casado há 30 anos), a inédita Aquariana, feita por ele para a esposa, e, por fim, a Rapsódia Gonzaguiana, a mais arrojada peça do repertório. Para esta rapsódia ele reuniu alguns dos clássicos da primeira fase de Luiz Gonzaga, parcerias com Humberto Teixeira e Zé Dantas, finalizando com Boiadeiro (Klécius Caldas e Armando Cavalcanti), xote com o qual Gonzagão costumava abrir suas apresentações. Sivuca mora atualmente em João Pessoa, segundo ele por “merecimento, depois de 65 anos de sanfona, viajando sem parar”. A escolha da capital da Paraíba é pela boa qualidade de vida que proporciona: “Mas eu não me aposentei. Continuo fazendo música, e escrevendo arranjos feitos estes que vou apresentar amanhã”, ressalta. Ele aproveita a vinda ao Recife para gravar seu primeiro DVD. “O Recife é uma cidade com a qual ele tem uma grande relação afetiva”, diz o carioca Felipe Rosenberg, que está dirigindo o DVD. Rosenberg lembra que Sivuca veio ao Recife com 15 anos de idade tentar um emprego na Rádio Clube: “O Recife era a única cidade na região que possuía rádios com orquestras”, completa Sivuca, que deixou sua terra natal, Itabaiana, em 1945. Garoto prodígio, foi acolhido por Nelson Ferreira, e aqui fez suas primeiras gravações. O DVD irá mostrar o concerto de amanhã na íntegra, terá locações em
lugares como a Rádio Jornal, da qual Sivuca foi contratado, além de
depoimentos de músicos que conviveram com Sivuca quando ele trabalhou nas
emissoras recifenses. Entre estes está o maestro Clóvis Pereira. Os dois,
além de trabalharem na mesma emissora, foram alunos do maestro
Guerra-Peixe, em 1950.
(© JC Online) Nome de Sivuca já
causou polêmica No início da carreira do sanfoneiro, um jornalista, em texto publicado no JC, implicou com o apelido, o qual considerava um “ nomezinho vulgar, prosaico, inexpresivo” "No meu modo áspero de dizer as coisas, para mim o que Sivuca tem contra ele é o nome, isto é, o pseudônimo. Um nomezinho vulgar, prosaico, inexpresivo. Aconselharia a mudá-lo quando imprimisse rumo à sua carreira de músico sério que ele será dentro de mais algum tempo, porque estou mais ou menos a acompanhar-lhe os adejos... Os nomes também têm os seus sortilégios. Sempre que ouço este pseudônimo procuro uma significação artística e não encontro. Nem é meiguice doméstica, nem nome para cartazes luminosos. Antes fosse mesmo Severino”, a implicância com o apelido do hoje famoso sanfoneiro paraibano, foi publicada na coluna Radiocultura, no Jornal do Commercio, em 3 outubro de 1948, e escrita por alguém que se assinava apenas B, e preferia chamar o albino Severino Dias de Oliveira de “Louríssimo sanfonista de Itabaiana”. No intervalo do ensaio para o concerto que apresenta amanhã, com a Orquestra Sinfônica do Recife, Sivuca ri enquanto escuta o equivocado comentário de B. Confessa que não lembra ter lido na época: “O apelido vem de Severino, foi Nelson Ferreira quem começou a me chamar assim quando fui para a Rádio Clube, em 1945”. Sivuca trabalhou dez anos no Recife, nas rádios Clube e Jornal do Commercio (atual Rádio Jornal). Foi por esta época que começou a compor. João e Maria, talvez sua mais bela melodia, quase foi gravada nessa fase, com letra de Rui de Morais e Silva (autor de, entre outras, Casaca de Couro, gravada por Jackson do Pandeiro): “Eu gostava muito de Rui, mas esta letra não ficou boa, a que Chico fez é muito melhor. Depois teve uma cantora que quis gravar com a letra antiga, mas eu pedi a editora para não autorizar”, revela. No Recife, Sivuca gravou pouco, fez algumas participações, como músico de estúdio, na Rozenblit, mas ainda estava na cidade quando conseguiu o primeiro sucesso nacional, Adeus Maria Fulô (parceria com Humberto Teixeira), gravação original de Carmélia Alves. Em 1968, o baião foi reinterpretado, com roupagem psicodélica pelos Os Mutantes: “Vou dizer uma coisa, nunca escutei esta gravação dos Mutantes”, confessa Sivuca. Ele permaneceu no Recife até 1955, quando foi para o Rio de janeiro,
contratado pela Rádio Tupi. Antes disto, trouxe para Pernambuco, um
músico, albino como ele, chamado Hermeto Pascoal: “Trouxe Hermeto de Lagoa
da Canoa, e consegui que ele fosse trabalhar na Difusora de Caruaru. Não
chegamos a tocar junto na época, mas foi ele que me substituiu na
orquestra quando fui embora para o Rio”. Em 1958, Sivuca viajaria pela
primeira para o exterior, com o grupo Os Brasileiros, e começaria sua
carreira internacional, fixando residência em Lisboa.
(© JC Online) Um sanfoneiro que
tocou nos cinco continentes Ele fez de Nova Iorque, até 1976, a sua base, enquanto empreendia turnês mundo afora. A ditadura militar foi responsável por uma verdadeira diáspora de músicos brasileiros. A maioria emigrou para os Estados Unidos. Foi assim que Sivuca conviveu e trabalhou com vários compatriotas, entre os quais Airto Moreira, Hermeto Pascoal, e conheceu sua mulher, a compositora Glória Gadelha. A maioria do que gravou nesses anos continua inédita no Brasil, a exemplo de um disco como violonista, feito no Japão, as trilhas para filmes e musicais, ou os álbuns gravados nos países escandinavos, onde se tornou bastante popular, principalmente na Suécia. Já perto de voltar para o Brasil definitivamente, ele participou do que é considerado um dos melhores discos solo de Paul Simon, Still Crazy After All These Years. Responsável por fazer da sanfona um instrumento com livre trânsito
tanto no palhoção, quanto na sala de concerto, Sivuca, ainda hoje é
considerado forrozeiro, o que não o incomoda, embora faça ressalvas: “Acho
que o forró é importante, mas, como sou um elitista musical, acho que o
músico precisa evoluir musicalmente, sair daquela coisa de primeira e
segunda partes, e fazer um forró mais sofisticado. Por exemplo, gosto
muito do forró do Dominguinhos. (J.T.)
(© JC Online) |
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