05-06-2008
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Otto |
Carlos Albuquerque
Otto é grande, mas não é de ferro. O
ex-percussionista do mundo livre, meninão prodígio da nova MPB, tem dores.
Nas costas, nos braços, nos pés. Ele não sabe bem a origem. Talvez seja a
proximidade do seu primeiro grande show no Rio, no Canecão, puxado pelo
disco “Sem gravidade”. Talvez seja a chegada do seu primeiro filho (com a
atriz Alessandra Negrini, grávida de três meses). Talvez, talvez...
— Acabei de voltar de um
acupunturista — diz ele, sentado num restaurante no Leblon, relaxando com um
outro “remédio”, um chope. — Nunca tinha experimentado algo assim, mas
adorei. Vou continuar com as sessões. Acho que estou sofrendo é de excesso
de informações.
Justamente ele, que em seu primeiro
disco solo, o premiado “Samba pra burro” (1998), trouxe tantas boas novas
para a MPB velha de guerra, misturando coco com drum’n’ bass e repente com
rap. Produzido por Apollo 9, o álbum foi eleito o melhor daquele ano pela
Apca (Associação Paulista de Críticos de Arte). Mas o próprio autor é
bastante crítico em relação a ele.
— Adoro aquele disco, mas eu ainda
era um pouco verde. Dei as idéias, as melodias e fiquei sentado no estúdio
vendo o que acontecia. No segundo disco, “Condon black”, eu já participei
bem mais. E acho que agora cheguei no ponto de equilíbrio que queria.
Viagem pela Amazônia foi fonte de inspiração
O “agora”, no caso, é o terceiro
episódio dessa trilogia, o disco “Sem gravidade”, que nasceu a partir de
três viagens que Otto fez nos dois últimos anos, indo do Vale da Morte, na
Califórnia, à Amazônia, passando também pela Chapada da Diamantina.
— Engraçado pensar que foi justamente
nesse período que passei a morar no Rio, que foi o ponto de partida para
todas essas viagens que me inspiraram — conta ele. — Mas eu sempre fui
assim, meio lá, meio cá. Sou pernambucano, casado com uma paulista e prestes
a ter um filho carioca.
O celular toca. É madame Otto,
querendo saber do marido se está tudo bem e a que horas ele pára de falar e
volta para casa.
— A Alessandra é virginiana e me
ajudou muito a encontrar o equilíbrio. Ela esteve perto de mim durante toda
a criação do disco, inclusive participando das gravações (Alessandra
canta em três faixas de “Sem gravidade”) . Na primeira viagem, a gente
estava junto há pouco tempo, coisa de um mês. E eu ficava pensando, quase
delirando: “Meu Deus, estou aqui, com essa atriz, linda, no meio da
Amazônia”. Aí eu fui mergulhar no Rio Tapajós. Eu tinha que mergulhar
naquele rio, né? E ela ali, na beira, me esperando. Foi quando tive o
estalo. “O dedo de Deus tocou em mim. A fé e a beleza dessa mulher tocou em
mim” (e segue cantando a letra de “Dedo de Deus”) .
O garçom olha curioso. E Otto segue
explicando esse seu momento “National Geographic”. O Vale da Morte, conta
ele, gerou “Amargosa” e o verso “O deserto é para chorar/Quem dera eu
achasse água”. E a Chapada da Diamantina fez nascer “Nebulosas”, e a letra
“Na caverna só se chega de jipe/E estalactite”.
Curiosamente, para um disco que tem
como conceitos, como diz o autor, “a leveza, o espaço”, bem refletidas em
uma música como “Pra quem tá quente”, espécie de trip hop do sertão, “Sem
gravidade” teve como ponto zero um momento nada leve da História.
— Eu só parei para escrever as letras
em São Paulo, sozinho, num quarto de hotel, num dia chuvoso, acompanhando
pela televisão o início da invasão do Iraque pelos Estados Unidos. Foi muito
estranho. Acho que a idéia de leveza do disco nasceu como uma reação àquilo
tudo.
Levezas à parte, Otto sabe que, no
fundo, o peso e as dores que está sentindo são de ansiedade com a
proximidade do show no Canecão.
— Eu poderia fazer dois dias no
Teatro Rival, como fiz há algum tempo, mas quero que me vejam melhor. As
pessoas falam de mim, a imprensa me conhece, a MTV me chama pra
jogar bola, mas não sei se o público conhece o principal, que são minhas
músicas — diz ele, que em abril segue para a Europa onde vai fazer uma série
de shows.
Dos convidados do disco (B Negão,
Dadi, Rita Lee), Otto garante que, se dependesse dele, todos estariam no
palco ao seu lado.
— Mas sei que isso é difícil. Pra
mim, ter tido a Rita no disco já foi muito legal. Quem fez a ponte foi o
filho dela, o Beto, que é amigo do Apollo. No dia em que ela foi no estúdio
gravar, eu nem apareci. Achei melhor não quebrar o encanto.
Embora não chame Recife de “casa” há
um bom tempo (antes do Rio, morou em São Paulo), Otto garante que não perdeu
o contato com seu próprio ponto zero. Elogia o DJ Dolores e diz estar atento
ao novato grupo Mombojo, um improvável e bem-sucedido cruzamento entre o
mundo livre e Los Hermanos.
— O Mombojo é muito legal e vai ficar
melhor ainda — garante ele.
Em busca da batida perfeita entre sua
música e o público, Otto nem se preocupa tanto com a troca de arquivos
musicais pela internet, que a indústria fonográfica chama de “pirataria”.
— Na maior parte dos casos, isso
ajuda o artista a ficar mais conhecido — teoriza. — E quer saber? Os caras
botam à venda aparelhos de gravar CD no Brasil, um país cheio de
desempregados e biscateiros, onde um disco pode custar até R$ 30. E aí
queriam o quê? Que não acontecesse nada?
(© O Globo, 11.03.2004)
Menos eletrônico, Otto
mostra canções de "Sem Gravidade" no Rio
GUILHERME GORGULHO
da Folha Online
"Eu tento cantar como Luiz Melodia,
escrever como Chico [Buarque] e musicar como [Gilberto] Gil e João Bosco." É
assim que o pernambucano Otto define a nova fase de sua carreira, na busca
de um som mais orgânico, deixando um pouco de lado as experiências
eletrônicas que marcaram seus dois primeiros trabalhos.
O cantor e compositor se apresenta
pela primeira vez no Canecão, no Rio, mostrando o material de seu mais
recente disco, "Sem Gravidade", lançado em novembro de 2003. O convidado
especial da noite é Frejat, que deve cantar a música "Pelo Engarrafamento",
do álbum "Condom Black".
Otto, 35, optou por fazer o lançamento do disco na capital fluminense
em um espaço maior, apesar de reconhecer que sua música ainda não tenha
"explodido", como ele mesmo define.
"Eu estou fazendo o meu [lançamento],
sabe, é um presente para mim, para meus amigos aqui do Rio, para convidar
pessoas legais, para trazer um público do Rio, que é a cidade em que eu
estou morando", explica ele, afirmando que muitos artistas não estão fazendo
lançamentos em meio à "crise".
Otto não terá a potente cozinha
--formada pelo baterista Pupillo (Nação Zumbi) e pelo baixista Dadi
(ex-membro de Os Novos Baianos e A Cor do Som)-- que forma a base e "dá
liga" para "Sem Gravidade", nem o produtor Apollo 9, que toca a maior parte
das guitarras do disco. Neste show sobem com Otto ao palco do Canecão Daniel
Ganja Man (guitarra e teclados), Bactéria (guitarra), Rian Bezerra (baixo),
Maurício Takara (bateria), Malê e Marcos Axé (percussão).
O terceiro CD de Otto, que ele
classifica como "musicalmente maduro", transparece a influência de sua vida
pessoal e de seu romance com a atriz Alessandra Negrini. A maioria das
faixas do álbum foi composta durante viagens do casal por lugares como
Chapada Diamantina, Amazônia e Death Valley, na Califórnia. A experiência
está registrada em fotos e faixas de "Sem Gravidade", como "Dedo de Deus",
"Imaginar a Vida" e "História de Fogo".
A presença de Alessandra é grande no
disco. Além de inspiração, a atriz colocou sua voz em quatro faixas, além de
ser co-autora de uma delas. Otto e Alessandra devem se casar ainda neste
ano, e a atriz está grávida de três meses.
Egresso do movimento mangue beat nos
anos 90 --Otto foi percussionista do Nação Zumbi, de Chico Science, e do
Mundo Livre S/A, de Fred Zero Quatro--, ele lançou seu primeiro disco em
1998, "Samba Pra Burro", e seu segundo trabalho em 2001, "Condom Black". A
crítica elogiou, mas sua música ainda não alcançou um público muito amplo.
"Eu ainda carrego uma singularidade,
alguma coisa nova que as pessoas mal conhecem. Quem conhece, conhece muito
bem, e quem não conhece, está curioso. Talvez eu ganhe nesse ponto porque eu
não sou um 'popzão', não tenha essas pretensões", explica Otto.
Mesmo assim, o cantor esbanja
autoconfiança, e aposta na mudança depois da trilogia ao lado do produtor
Apollo 9. O próximo disco já tem até nome, "Certa Manhã Acordei de Sonhos
Intranqüilos", mas deve ficar somente para o ano que vem.
"A parceria com Apollo foi normal,
natural desde o primeiro disco. No 'Samba pra Burro', eu disse: 'Apollo,
vamos fazer três discos'. [...] Agora eu quero partir já para outra. Porque
ele como produtor trabalha com várias pessoas, e eu não. Se eu continuar a
vida toda com ele como produtor não tenho capacidade de mudar."
Experiências nas telas
A parceria com Alessandra Negrini,
além da música, pode render também produções para o cinema. Otto estreou no
ano passado como roteirista e ator no curta-metragem "Porcos Corpos",
dirigido por Sérgio Oliveira, e o músico afirma ter mais outros quatro
roteiros e que pensa em escrever algo para a noiva.
Otto, no entanto, não ficou
satisfeito com a direção de Oliveira para o roteiro escrito pelo músico há
cerca de 15 anos, e criticou o espaço dado para seu personagem no filme.
"Eu já tinha uns quatro roteiros, só
que eu entreguei para Serginho. Na hora que eu entreguei, o argumento já
viraria o roteiro, já era um roteiro. Aí ele quis fazer roteiro,
dirigir...". "O filme é bom, mas ele se perde muito na narrativa", reclama
Otto.
Otto afirma não ter pretensões de
filmar logo, mas diz que o simples exercício de escrever para cinema já é um
grande aprendizado para ele. Para ele, a produção cinematográfica
pernambucana vive um grande momento, com nomes como Lírio Ferreira, de
"Baile Perfumado", e Cláudio Assis, de "Amarelo Manga".
"A gente teve um mestre pop do cinema
brasileiro que foi Glauber Rocha. Então quando eu vejo Lírio, que eu conheço
bem, vejo Claudião, eles são todos adeptos desse grande gênio que conseguiu
fazer cinema barato e bom."
(© Folha Online, 12.03.2004)
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