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Bethânia brasileiríssima

05-06-2008

Claudia Elias

Maria Bethânia no Canecão: emocionando com 'Brasileirinho'

Cantora faz festa intimista no palco durante gravação de DVD

Luciano Ribeiro

   Na gravação do DVD Brasileirinho, ontem e anteontem no Canecão, Maria Bethânia esticou ao máximo seu conceito de alegria e delicadeza, algo que transborda no álbum da cantora. Serena, contida, sorrindo, ela buscou fazer da cervejaria, lotada de vips, o palco de sua festa intimista, realçada pelo simples e belo cenário de Gringo Cardia, que lembrava casas humildes do interior do país.

   A intenção de valorizar coisas pueris ganhou reforço na escolha das novas canções do repertório. A abertura faz bela homenagem a Villa-Lobos, primeiro compositor clássico nacional a levar para a música índios da Amazônia, chorões cariocas e o folclore mineiro, sulista e nordestino. O grupo Uakti toca, por trás de uma tela, a cantilena das Bachianas nº 5. Em seguida são projetadas imagens de Ferreira Gullar lendo trecho de O descobrimento, do modernista Mário de Andrade.

   Bethânia aproveita o clima e evoca Garoto, Vinicius de Moraes e Chico Buarque na canção Gente humilde. Convida Miúcha, que recorre à melodia acolhedora de Correnteza (Tom Jobim e Luiz Bonfá). A baiana continua a entremear as canções de Brasileirinho com raízes da mesma linhagem excluídas do CD e convoca Nana Caymmi para unir os míticos João Valentão, criado por Dorival Caymmi, e Sussuarana, de Heckel Tavares e Luiz Peixoto, no momento mais emocionante da apresentação.

   Da veia de protesto, a performática Denise Stoklos lê O poeta come amendoim, de Mário de Andrade. E Bethânia alerta para a poluição das águas com Purificar o Subaé, de mano Caetano Veloso, presente na platéia. Afaga os Titãs com Miséria (Arnaldo Antunes, Sérgio Brito e Paulo Miklos), inserida quase como rap. O grupo seria lembrado ainda com Comida.

   No desfecho, Bethânia volta ao pai de todos, Villa-Lobos, e entoa a canção popular Melodia sentimental. Tece, assim, o último fio dos sempre bem costurados shows, dessa vez dirigido por Bia Lessa. No bis, como gosta de fazer, ela fecha a tampa com Gonzaguinha (O que é o que é) convidando todos a dançar.

(© JB Online)


MÔNICA BERGAMO

A colméia da rainha

Greg Salibian/Folha Imagem

Bethânia, Nana e Miúcha, num raro momento em que a cantora baiana se deixa fotografar no camarim, relaxada, em plena cantoria com suas convidadas; acima, à dir., os objetos que a protegem: foto de mãe Menininha do Gantois e a sereia numa tigela de água

   Copo de uísque na mão, uma bela e confortável roupa vermelha e dourada, de um tecido que ela mesma comprou em Angola, Maria Bethânia está relaxada e feliz no camarim do Canecão, no Rio. Às 2h da manhã da quinta-feira, ela tem ao seu lado Nana Caymmi e Miúcha, suas convidadas para o show "Brasileirinho", e mais uma dezena de amigos -totalmente embasbacados. Já refeitas da apresentação daquela noite, as três cantam sem parar. Dão risada, falam de seus pais e irmãos (Bethânia é irmã de Caetano, Nana é filha de Dorival Caymmi e Miúcha, irmã de Chico Buarque), falam de Kelly Key, falam do Brasil.

   Um gole de champanhe, e Miúcha solta: "A correnteza do rio vai levando aquela flor/ O meu bem já está dormindo/ Zombando do meu amor" ("Correnteza", de Tom Jobim). "Ôu dandá, ôu dandá", e Bethânia se junta a ela: "Ôu, dandá, ôu dandáááá". Nana, a mais despachada das três, começa a falar "dessa barbárie, dessa vulgaridade que é o Brasil". A voz aumenta: "... Essa vulgaridade que a gente atropela... e faz o que gente quer!".

   Sim, elas procuram fazer o que querem, sem concessões fáceis ao marketing, orgulham-se. E soltam: "Boi, boi, boi/ Boi da cara preta/" ("Acalanto", de Dorival Caymmi). "Pega a Bethânia/ Que tem medo de caretaaaaa."

   "Aproveite, Bethânia, aproveite tudo do meu pai. Ele está surdo, cego, mas a cabeça está perfeita. Ele me diz: "Filha, minha cabeça tem tudo o que eu vi. Está tudo aqui'", diz Nana. Caymmi vai fazer 90 anos em abril. As três se abraçam.

   Bethânia fala: "A delicadeza é a única coisa que pode nos salvar, nos apartar do que é infernal no Brasil, o dinheiro, a Bolsa de Valores, esse inferno... Gente, olha a lua do Brasil como é linda! Olha as vozes das cantoras do Brasil como são lindas! É isso que nós temos que mostrar".

   Na apresentação de "Brasileirinho", em que foi gravado um DVD, Bethânia colocou no palco, como convidados, além de Nana e Miúcha, os conjuntos Tira Poeira e Uakti e a atriz e diretora Denise Stoklos. O show deve vir a São Paulo em abril.

   "A mulher chega aos 40, 50 anos, no Brasil, e é jogada para escanteio. E o que você está fazendo comigo e com a Miúcha... é o que estão fazendo com a estátua de David em Firenze. Estão arregimentando o pau do David!", diz Nana [a escultura de Michelangelo está passando por uma restauração]. Gargalhadas. Bethânia completa: "A música do Brasil também precisa de cuidados". E Nana: "Você está quebrando um tabu, porque eu não sou a [cantora] Kelly Key. Eu queria, mas não sou!".

   "Vamos cantar alguma coisa daquele f. da p. do seu irmão?", diz Nana a Miúcha, referindo-se a Chico Buarque. "Sou doidinha com aquelas canelas finas dele", confessa. "Não me importa canela fina, coxa grossa, ele é ele!", diz Bethânia, soltando: "O primeiro me chegou..." ("Terezinha", de Chico Buarque).

   Naquela noite, Chico foi a estrela da platéia de Bethânia (um dia antes, o papel coube a Caetano Veloso). Eram 19h da quinta quando começou a correria para ser montado um esquema especial... não para a chegada de Bethânia, mas para Chico: ele queria ir ao show sem ser visto. Entrou no Canecão escondido, e escondido ficou numa sala para só se dirigir à platéia com as luzes apagadas.

   "Meu Deus, olha o Chico ali", exclamou Eunice Oliveira, a Nicinha, levando a mão ao coração ao ver Chico no esconderijo. Se ela pode tietar, todos podem: Nicinha é simplesmente irmã de Caetano e de Bethânia. Ao vê-la, Chico se derreteu.

   Bethânia chama Nicinha de Babá, por causa de seu orixá. Babá é a única pessoa autorizada a mexer nos objetos pessoais da cantora no camarim. No dia da estréia, ela chegou três horas antes do show para ajeitar as coisinhas perto do espelho: uma foto de mãe Menininha do Gantois, um quadro de santa Bárbara, uma sereia dentro de uma tigela de água (presente de mãe Cleusa do Gantois), copinhos para uma pequena dose de uísque (Bethânia aquece a garganta com a bebida uma hora antes do show), pulseiras e um colar de ouro, presente de mãe Menininha, que ela usa em todos os shows.

   Babá é a mais velha dos oito irmãos. Ela conta que Caetano não anda gostando nada de ver o tempo passar. Babá diz que, com a exceção de uma cirurgia que fez nos seios há cerca de dois anos e que a fez emagrecer bastante (ela também faz ginástica), "Bethânia não está nem aí". Não pinta os cabelos e se arruma sozinha antes dos shows.

   Ao lado do camarim, Maria Luisa Jucá, empresária de Bethânia, atendia o celular a cada dois minutos, recebendo pedidos de convites para o espetáculo. Com duas assistentes, ela tentava ajeitar as coisas. "A Luciana de Moraes [filha de Vinicius] está doente". "Dá a mesa dela para a Marieta [Severo]", respondia Jucá. Luciana acabou indo; Jucá deu sua própria cadeira para Marieta. "A Luciana Braga [filha de Roberto Carlos] confirmou presença." "Só agora? Não tem mais convite!" "Carla Camurati não vem, está com enxaqueca." "Ai, não sei se consigo mesa boa amanhã!"

   Dez minutos antes do show, o maestro Jaime Alem, 52, com Bethânia há 21, entra no camarim dela com os outros músicos. A tensão é grande porque todos sabem: Bethânia não admite falhas e, quando elas acontecem... sai de baixo.

   Depois de algumas piadas para relaxar, todos fazem uma oração e vão para o palco. É hora de Bethânia oferecer ao público o favo de seu mel.

(© Folha de S. Paulo)

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