05-06-2008
|
 |
|
Sem título.
2004 Guache
sobre papel
66 x 96 cm |
Depois do
sucesso de sua participação na Bienal de 2004, Gil Vicente expõe Guaches
Recentes, na Galeria Nara Roesler, e mostra que seu trabalho resiste à
segunda prova
MARIA HIRSZMAN
AE SÃO PAULO – Após ter cativado o público paulistano com uma das
melhores salas de arte brasileira da 25ª Bienal de São Paulo
(2002), o pernambucano Gil Vicente volta agora à cidade com uma nova e
surpreendente série de trabalhos. Num primeiro momento, tem-se a impressão
de que estamos diante de outro artista, bem diverso do autor daqueles
enormes desenhos de figuras humanas solitárias e um tanto dramáticas –
característica reforçada pelo uso exclusivo do negro do carvão e nanquim.
No entanto, rapidamente essa sensação se dispersa e encontra-se nas
pinturas sobre papel de coloridos intensos e diversos o mesmo caráter
introspectivo, um tanto lúgubre, das obras anteriores.
Isso é mais perceptível nas obras em que ainda sobram a figura humana
ou fragmentos dela, em forte introspecção. Há casos em que a cena
retratada é de uma forte intensidade dramática, como a imagem de um tronco
humano com os membros decepados sobre o qual repousa uma mão. Sugestões de
paisagens, abstrações ou figuras humanas.
São vários os temas explorados por Gil Vicente nessas pinturas feitas
propositalmente de forma despojada. O suporte é papel e a tinta é guache,
mas com sutis combinações que ampliam muito a gama de cores.
Acúmulo, mas sobretudo revisão, desejo de síntese de um artista que
gosta de se testar, que passou os últimos anos, desde a bem-sucedida
mostra na Bienal, tentando descobrir e eliminar vícios, caminhos
fáceis. Brincando, Gil Vicente afirma que os trabalhos que expõe nesse
momento são resultado de uma espécie de auditoria que sente necessidade de
promover em sua obra.
Mergulhou na paisagem de sua cidade (exibindo as fotos de cenas urbanas
que o inspiram) e revisitou a obra de artistas que lhe são caros na
exposição Alheios, que circulou por cinco capitais brasileiras.
Também buscou incluir no trabalho uma certa geometria tosca e a paleta
popular.
Inicialmente, ele tentou retomar a pintura por meio da nobreza da tinta
a óleo. Mas não gostou do resultado. A experiência com o guache, mais
despojado, mas capaz de lhe dar a massa de tinta que desejava. É curioso
notar como Gil Vicente parece usar esses trabalhos para brincar com os
diferentes campos de tinta, ora deixando-os livres e suaves, ora usando o
traço do desenho para estruturá-las. Como escreve Agnaldo Farias, nessa
mostra Gil Vicente freqüenta a pintura em várias de suas possibilidades,
como que inventariando e resolvendo tudo o que até aqui ele conseguiu
acumular.
Gil Vicente – Galeria Nara Roesler, na Avenida Europa 655, São Paulo,
fone: (11) 3063-2344
(© JC Online)
Saiba mais sobre
Gil Vicente
Panorama aponta para
desconstrução brasileira
Publicado em 10.03.2004
Exposição
promovida a cada dois anos pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo, o
Panorama da Arte Brasileira inverteu suas prioridades e apostou no debate
sobre a presença positiva e negativa do construtivismo na produção local
Galeria de fotos |
 |
|
|
|
|
DIANA MOURA BARBOSA
O público pernambucano pode conferir, no Museu
de Arte Moderna Aloísio Magalhães (Mamam) a edição de 2003 do Panorama
da Arte Brasileira, promovido a cada dois anos pelo Museu de Arte
Moderna de São Paulo (MAM-SP). Esta é a terceria vez que as obras de um
Panorama chegam ao Recife, mas a versão atual traz algumas novidades
em relação às mostras anteriores. Criado para funcionar como uma espécie
de evento off-Bienal de São Paulo, apresentando artistas mais
jovens e menos conhecidos, evento do MAM sempre se pautou pela pretensão
de fazer um resumo de algumas das novas tendências da arte brasileira.
Desta vez, entretanto, A instituição paulista decidiu arriscar e convidou
curadores de fora do País para fazer a seleção. O resultado agradou a uns,
desagradou a outros, todavia não foge muito de certas linhas gerais
presentes em quase todas as coletivas de artistas brasileiros.
Para realizar o Panorama 2003 foram chamados o curador cubano
Gerardo Mosquera e a panamenha Adrienne Samos. Eles visitaram 11 capitais
brasileiras para garimpar os nomes que compõem a mostra. Embora o número
de cidades seja bem reduzido, Mosquera já tem bastante familiaridade com a
produção contemporânea do País. Ele foi um dos idealizadores da Bienal
de Havana, tendo organizados as três primeiras edições da mostra, que
sempre contou com a participação de nomes do Brasil. Além disso, já levou
obras do País para mostrar nas exposições interncionais que organizou e
foi um dos responsáveis pela mostra de Cildo Meireles em Nova Iorque, onde
trabalha como curador do New Museum of Contemporary Art.
Apesar desse do bom trânsito entre artistas do País, Mosquera e Samos
não conseguem se livrar de um certo olhar ‘estrangeiro’. Esse
estranhamento, para o bem e para o mal, repercute na seleção das peças. O
próprio Mosquera admite que um dos pontos de partida de sua curadoria foi
a visão, um pouco pejorativa, que se tem lá fora de que a arte brasileira
é excessivamente ligada ao construtivismo. “Realmente, é verdade que há
alguns aspectos da arte daqui muito ligados ao construtivismo, mas não ao
seu padrão clássico e sim a uma certa tendência de desestruturá-lo, por
isso, o Panorama de 2003 recebeu um subtítulo: (Desarrumado) 19
Desarranjos, que diz respeito a essa perversão da organização”,
explica o curador.
Nesse caso, não foi à toa que alguns críticos julgaram o Panorama da
Arte Brasileira muito literal, questionando o que chamam de obviedade
do trabalho. Mesmo assim, Mosqueira e Samos conseguiram garimpar novos
nomes, como o do paraense Marcone Moreira, de apenas 21 anos, que
desconstrói barcos de madeira e grades de caminhão para remontá-los como
curiosos painéis de madeira. As ‘pinturas’ de Moreira trazem uma textura
gasta, aparência tosca e uma amostra muito popular de combinação de cores
– já que ele mantém as cores originais aplicadas pelos barqueiros e
caminhoneiros –, mas, ainda assim, não trazem nada de muito novo, senão a
presenção do artista na cena brasileira. Outro nome desconhecido do
circuito artístico nacional é o do brasileiro radicado em Nova Iorque Alex
Villar, que apresenta uma série de fotografias nas quais cabe ao seu corpo
o papel de resignificar o espaço. Suas obras têm muito em comum com as
imagens realizadas pelo pernambucano Carlos Mélo, que chega às vezes a ser
mais ousado nas proposições.
E para descartar completamente a idéia de uma coletânea de tendências
da arte do País, os curadores ainda apresentam na mostra obras de nomes
mais que consagrados no cenário artístico nacional, como Cildo Meireles,
Ernesto Neto, Vik Muniz e Leonilson, morto em 1993. Três estrangeiros
também fazem parte da seleção: o belga Win Delvoye, a chinesa Kan Xuan e o
argentino Jorge Macchi, jogando ainda mais polêmica nesta edição do
evento.
Depois de percorrer os três andares do Mamam, o público certamente
sairá convencido de que, de fato, a arte brasileira trava um diálogo
intenso com as correntes construtivas da arte, mas não é por acaso que o
criativo (e brasileiríssimo) neoconcretismo nasceu aqui. As pessoas também
poderão afirmar que esse traço é apenas um dos enfoques, entre vários,
pelos quais se pode alinhavar a produção plástica brasileira. Corre-se o
risco de, neste caso, ter-se buscado um caminho fácil.
Panorama da Arte Brasileira – no Mamam – Rua
da Aurora, 256. Fone: 3423.3007
(© JC Online)
|