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A virgem dos lábios de mel Iracema completa 140 anos

05-06-2008

O romancista José de Alencar

Data será lembrada em palestra na Fundação Joaquim Nabuco. Luzilá Gonçalves Ferreira considera gótica a obra

SCHNEIDER CARPEGGIANI

   O enredo até que é bem conhecido: a virgem Iracema, filha do chefe Tabajara Araquém, apaixona-se pelo conquistador português Martins Soares, perdido nas matas. São destinos, raças e credos conflitantes, com um inevitável final infeliz, que promove um resumo poético (e trágico) da relação homem branco X indígenas durante os primeiros anos da colonização do Brasil. Apesar do seu status de clássico da literatura brasileira, o romance de José de Alencar chega aos seus 140 anos assustando leitores mais jovens, que costumam alegar uma narração lenta e cascatas de metáforas, como empecilhos de leitura.

   A escritora e professora do Departamento de Letras da UFPE, Luzilá Gonçalves Ferreira, oferece duas possibilidades de leitura, que amenizam o caminho para novos leitores do clássico do escritor cearense. “O livro é todo ritmado, pode ser lido como um poema escrito no formato de prosa. Os romances não precisam ter uma estrutura com ritmo, como encontramos em Iracema.”

   Uma outra possibilidade, segundo Luzilá, é ler Iracema como um grande romance gótico. “Há quem diga que Iracema é um livro para ‘moças’, no melhor estilo água com açúcar de ser, mas não é. Estamos falando de uma história trágica. Iracema tem um destino terrível porque se envolve com o português Martins. Ela se vê obrigada a abandonar sua tribo, sua religião. É uma literatura gótica. É um romance que mostra bem o quanto os índios sofriam ao se envolverem com os portugueses. É o mesmo se você pensar em Ubirajara, outro livro de Alencar que foca a questão indígena. O personagem principal de Ubirajara, Peri, sacrifica tudo, assim como Iracema, pelo amor da mulher branca, a Ceci”, completa.

   Como autor romântico, Alencar via na relação dos índios com os conquistadores a idade média que as Américas não tiveram. “Talvez outros romances de Alencar, como Senhora, sejam mesmo no estilo água com açúcar, para moças, mas não é o caso de Iracema, em que Alencar recria o que, para ele, deveria ser a imagem perfeita de comportamento dos índios.”

   A BOA SELVAGEM – A partir de uma iniciativa conjunta do Ciclo de Estudos Literários Mauro Mota, e das academias de Letras e Artes de Pernambuco e do Ceará, é realizada hoje, às 18h30, uma homenagem aos 140 anos de Iracema, na Sala Calouste Gulbenkian, da Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj), de Casa Forte. Durante o evento, a escritora e primeira-dama do Ceará, Beatriz Alcântara, fará uma palestra sobre o romance, haverá o lançamento do fac-símile original do livro, feito pelo poeta Virgílio Maia e a inauguração da exposição de esculturas da artista plástica Côca Torquato.

Serviço:

Homenagem aos 140 Anos de Iracema: hoje, 18h30, na Sala Calouste Gulbenkian, hall do edifício Paulo Guerra e Memorial Joaquim Nabuco, na Fundaj (Av. 17 de Agosto, 2187, Casa Forte). Entrada franca

(© JC Online)

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