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05-06-2008
PEDRO ALEXANDRE SANCHES A situação era complexa, pois Tom Zé, 67, pisava o palco do Sesc Vila Mariana (SP) para divulgar novos CD, DVD e livro, cada um dos três independente e diferente dos outros. Tanta criação propiciava o efeito de uma revisão histórica, mesmo que aquele não fosse o objetivo do tropicalista baiano-paulistano em nenhum instante do show da noite de sexta-feira. O comportamento brechtiano do artista dava o tom, como sempre. Em noite de bom humor e inspiração particulares, ele se desconstruía na velocidade de um carro de Fórmula 1 (tema, aliás, da nova e possante "Interlagos"). Parecia dizer, a cada interrupção de música, a cada explicitação de imperfeição e a cada caco de piada, que no futuro cada mito será demolido em menos de 15 segundos. Bertolt Brecht brigava com Andy Warhol. Por ironia, o centro nervoso da noite seria uma reinterpretação de sua "Brigitte Bardot" (73), que ao que ele deu entender não fazia parte do show e só estava ali por circunstância. Tudo truque? O hoje velho artista repetia as imagens do jovem Tom Zé denunciador de que em 73 o mito Bardot já envelhecia e se desmanchava em público, levando os sonhos dos fãs a quererem "pedir divórcio". Conforme cantava, a luz sobre ele ia se dissipando, até a escuridão completa. Tom agora era (queria ser) Brigitte. No verso que comentava a "hora exata" em que Bardot ficasse "com vontade de suicidar", palco e platéia explodiam em luz, a entrosada banda emitia grunhidos fantasmagóricos, ele entrava em transe elétrico. Explodia em vida na fração suicida de segundo. Renascia, criança. Hollywood invadia o "intervalo" de um show que devia se desnudar como farsa sincera a cada volta da curva. Mesmo que "Brigitte" estivesse ali por intrusão, logo além ele voltava à mocidade cantando "Jimi, Renda-se" (70). Criticava o imperialismo norte-americano (como de resto no show todo, em especial em "Companheiro Bush"), citando numa "novilíngua" os amigos Caetano, Gil e Gal. "Gal, aquele negócio do Antônio Carlos Magalhães caiu mal, como vou explicar?", provocava a ex-namoradinha de portão, afagando a fera. Faltava "O PIB da PIB (Prostituir)" (2000), trecho de tortuosa autocrítica. Transformando o árido tema da prostituição infantil em baião nordestino, bradava contra cena imaginária de gringo grandalhão enterrando seu "produto interno bruto" na "criança pobre nordestina, sufocada, magricela, seca, pequenina". Por trás da imagem dura, congelavam-se os 15 segundos em que David Byrne jogou seu corpanzil sobre Tom Zé, colonizando-o e lhe devolvendo o reconhecimento que o Brasil lhe roubara durante décadas. O amor era velho, velho, velho e menina, como ele próprio cantou, em música do disco bancado por Byrne, de 92. Legitimado por bem mais que 15 segundos ou minutos, podia então "resgatar" com conforto suas doces melodias tropicalistas, cantando "2001" (69) no começo e "Parque Industrial" (68) no fim. Após um bis com o hino terno e cruel de desterro "Augusta, Angélica e Consolação" (73), fomos embora, com a nítida impressão de que no show faltavam músicas antigas, (não) sucessos de Tom Zé. Não faltavam. A gente era que entrava em curto-circuito a cada 15 segundos, toda vez que, na curva em "S", o mito se autodemolia. (© Folha de S. Paulo)
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