Notícias
Joaquim Cardozo, o homem por trás da poesia

05-06-2008

Joaquim Cardozo, por Di Cavalcanti

Livro propõe uma espécie de voyeurismo ao fazer analogias entre a vida e a obra do autor pernambucano

Augusto Pinheiro
Da equipe do DIARIO

   O poeta e dramaturgo pernambucano Joaquim Cardozo (1897-1978) será homenageado hoje no teatro que leva seu nome, na Madalena, com o lançamento do livro Joaquim Cardozo: Contemporâneo do Futuro, da poeta e ensaísta Maria da Paz Ribeiro Dantas, e com uma esquete apresentada pela atriz Sônia Bierbard.

   A publicação de Maria da Paz, seu terceiro trabalho sobre o poeta, que estuda há mais de vinte anos, traça paralelos entre a vida e obra do escritor, que também era engenheiro de cálculos. "No meu primeiro trabalho, por se tratar de uma dissertação de mestrado, me restringi a um aspecto da poesia dele, a relação entre ciência e mito. A novidade neste novo livro é que faço associações e analogias entre o vivido e o imaginado pelo poeta".

   A escritora chega a classificar o livro como uma espécie de voyeurismo: "Procuro surpreender o homem, talvez como personagem, na poesia. Mas não de modo linear e direto, e sim como se fosse uma refração".

   Entre os poemas analisados está Visão do Último Trem Subindo ao Céu, parte da trilogia de poemas longos Trivium, que Cardozo escreveu entre 1952 e 1970. "Esse poema nunca havia sido amplamente estudado", diz Maria da Paz, que dedicou 31 páginas a ele. A análise abarca temas como física, matemática e viagem interior.

   A influência do Recife e do Nordeste na poesia de Cardozo também ganha espaço. "Cardozo nunca se desligou da sua terra. Sua memória da luz, dos ventos, das nuvens, do mar esteve muitas vezes associada a uma cidade, a uma região, uma paisagem: Recife, Olinda, a várzea do Capibaribe", explica Maria da Paz. Mas, ao mesmo tempo, ela mostra a capacidade do poeta de transcender o regionalismo. "O que mais se destaca na poesia dele é o que há de cosmopolita, de universal".

   Temas como memória, mito, geografia, cosmos, ciência, forma, espaço e tempo permeiam a publicação, que traz ainda uma antologia de poemas. "Um dos critérios de escolha foi o fato de terem sido citados na segunda parte do livro, que estuda a poesia do autor."

   O apêndice traz capítulos interessantes eque extrapolam a persona poética de Joaquim Cardozo. A convite da autora, o engenheiro civil sérvio Slobodan Stojanovic, radicado no Recife desde 1986, analisa o caso do desabamento do Pavilhão de Exposições, em Belo Horizonte, pelo qual Joaquim Cardozo, que participou do projeto de Oscar Niemeyer, foi considerado culpado.

   Já em Algumas Ilustrações, fotos e desenhos, em preto-e-branco, são acompanhados por grafismos que o autor utilizava em seus poemas. Há retratos de Cardozo na década de 1920, em 1960 e em 1977.

   Pela primeira vez é publicado o desenho O Baile, feito pelo próprio Cardozo em 1936, em nanquim, que mostra casais dançando em uma barca na travessia Rio-Niterói. Outro desenho liberado para a publicação é o do artista plástico pernambucano Paulo Brusky, criado para o centenário de nascimento do autor, em 1997, a partir de retrato de Cardozo de 1974.

   ESQUETE - Após o lançamento do livro, às 20h, Sônia Bierbard apresentará uma esquete a partir de poemas de Cardozo. "Conto uma história por meiode textos dele", diz Sônia, que já fez o mesmo com Clarice Lispector, João Cabral de Melo Neto e Fernando Pessoa. O monólogo sobre Cardozo, com cerca de 15 minutos, foi concebido especialmente para o evento.

Serviço

Homenagem a Joaquim Cardozo
Lançamento de Contemporâneo do Futuro e apresentação da esquete Joaquim Cardozo, Poema Sempre Aceso
Quando: hoje, a partir das 18h
Onde: Teatro Joaquim Cardozo (rua Benfica, 157, Madalena, tel. 3227-0657)

(© Pernambuco.com)


Um cartão de visitas para Cardozo

Escritora e pesquisadora Maria da Paz Ribeiro Dantas reúne em livro poemas e ensaios sobre a vida e a obra do poeta que calculava

Texto
» Leia poesia de Joaquim Cardozo
SCHNEIDER CARPEGGIANI

   No poema As janelas, as escadas, as pontes e as estradas, Joaquim Cardozo definiu – “As estradas não páram. Para longe, que vão, Vão, sem se mover/ cansar. Permanente vão,/ Quem quiser vai com elas, usa tudo o que é delas.” Em uma das suas elegias, em primeira pessoa, como era seu costume, aproveitou para lançar uma definição sobre si mesmo – “Sou um homem marcado.../ Em país ocupado/ Pelo estrangeiro/ Sou marinheiro/ Desembarcado.” E, no piscar de olhos que é um haicai, fez achados poéticos apenas aparentemente simples – “No outro dia encontrei um telescópio/ Cheio de estrelas.”

   Uma reunião desses e de alguns dos outros principais poemas de Cardozo, apoiados por dois ensaios que intercalam a vida e obra do autor, é o que a escritora e pesquisadora Maria da Paz Ribeiro Dantas oferece no seu Joaquim Cardozo – Contemporâneo do Futuro. O livro, que tem lançamento hoje, às 19h, no Centro Cultural Benfica, serve tanto como um vasto panorama do trabalho do poeta pernambucano, como um cartão de visitas para iniciantes. Para acompanhar o lançamento de Contemporâneo do Futuro, Sônia Biebard promove o recital ‘cardoziano’ Poema Sempre Acesso.

   Maria da Paz, no entanto, não gosta da expressão ‘para iniciantes’, apesar da ínfima bibliografia de Cardozo nas livrarias. “Não vamos dizer para iniciantes. Mas sim para quem deseja compreender a maneira com a qual um poeta maior, amante da ciência, soube traduzi-la em poesia. Mais ou menos como ocorre com a tradução de um poema em outra língua. Essa língua seriam a física e a matemática, no caso das composições que abordam essas ciências. Mas há outros ângulos igualmente interessantes, sob os quais pode ser vista a poesia de Joaquim Cardozo.”

   Apesar da autora preferir a permuta de iniciante por interessado, na hora de focar um público-alvo para seu trabalho em Cardozo, o próprio título da obra – Contemporâneo do Futuro – já aponta a importância da leitura e da atualidade do poeta em 2004. “É que, ainda na metade do século 20, quando ainda eram recentes algumas descobertas da física a respeito do comportamento da matéria, Cardozo transformou esse conhecimento em sensibilidade poética. E soube expressá-lo numa linguagem condizente com a novidade da matéria poética. Matéria essa que, no futuro dele - que nós alcançamos em nosso hoje -, continua sendo atual, embora tenha sido escrita num tempo que se transformou em passado”, argumenta.

   “O sentido de liberdade, de humanidade, a transfiguração da natureza, a concepção do mundo e da vida como lugares de grandeza, cercados de mistério.Sem excluir o senso de humor”, diz a pesquisadora sobre os temas intransferíveis na poesia de Cardozo.

   Contemporâneo do Futuro é o terceiro trabalho de Maria da Paz sobre o poeta – antes foram lançados O Mito e a Ciência (1985) e Joaquim Cardozo: Ensaio Biográfico (1984). A pesquisadora reiterou a convivência com a obra do autor que justifica todo seu empenho ‘cardoziano’ – “Assim como ele diz em um poema ‘sou um homem marcado’ , do mesmo modo ele marca seus leitores. A convivência de alguns anos me marcou, e me fez ir descobrindo novos aspectos, que nos dois primeiros ficaram por se mostrar. Mais ou menos como as camadas de uma cebola, que não podem ser retiradas de vez e sim aos poucos.”

Serviço:

Lançamento de Joaquim Cardozo Contemporâneo do Futuro, de Maria da Paz Ribeiro Dantas, e recital Poema Sempre Aceso, com Sônia Biebard: Hoje, a partir das 19h, no Teatro Joaquim Cardozo, do Centro Cultural Benfica, 157, Madalena


Tragédia da Gameleira é novamente investigada

   Além de poeta, Joaquim Cardozo também atuou como engenheiro, trabalhando em obras importantes, como o cálculo dos prédios governamentais de Brasília, ao lado de Oscar Niemeyer. A dupla profissão, ressalta Maria da Paz, foi fundamental para sua poesia.  

   “O fato dele ser engenheiro foi importante para sua poesia na sua maneira de olhar as coisas, com o senso da exatidão, por exemplo. Como topógrafo, Cardozo teve um amplo contato com a natureza nordestina, e isso se expressa em grande parte das composições de Poemas (seu primeiro livro) e Signo Estrelado (o segundo).”

   A profissão de engenheiro foi responsável também por uma das maiores tragédias na vida do autor – o caso da Gameleira. No dia 4 de fevereiro de 1971 houve o desabamento do Pavilhão de Exposições em Belo Horizonte, projetado por Niemeyer, que causou a morte de 68 operários. Cardozo era o engenheiro da obra e foi tido como o principal culpado.

   Em Contemporâneo do Futuro, Maria da Paz aproveitou para retomar o caso e convidou o engenheiro civil Slodoban Stojanovic para dar o seu parecer técnico sobre a tragédia. O novo parecer foi realizado a partir do texto da análise do desabamento feita pelo Instituto de Engenharia de São Paulo e da defesa feita pelo advogado Evandro Lins e Silva.

   O parecer de Stojanovic relativiza a culpa de Cardozo e traz depoimentos de profissionais ligados a Cardozo na época, como Niemeyer, reafirmando a experiência técnica do poeta que foi colocada em prova diante da tragédia.

(© JC Online)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

© NordesteWeb.Com 1998-2004

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia