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Patrimônio subversivo

05-06-2008

Wally Salmoão, em foto de 1971

Dois livros de Waly Salomão - Qual é o parangolé? e Me segura qu'eu vou dar um troço - estão de volta às livrarias reafirmando a obra libertária e subversiva do poeta baiano como um dos patrimônios oficiais do País. Desde o final do ano passado, Waly também é tema de um documentário lançado em DVD

Felipe Araújo
da Redação

   Quase um ano após a morte do poeta baiano, dois relançamentos estufaram as velas da lírica navilouca de Waly Salomão e fizeram singrar novamente nos mares do mercado editorial brasileiro dois títulos fundamentais em sua obra. Hélio Oiticica - Qual é o parangolé? (1996) e Me segura qu'eu vou dar um troço (1972) estão de volta às livrarias em caprichadas edições da Rocco e da Aeroplano, respectivamente. De quebra, o DVD Nomadismos, lançado pela Associação Cultural Videobrasil, também está exumando parte do legado poético e intelectual do ''baianárabe'', morto em maio do ano passado.

   Dos três relançamentos, o mais aguardado era Me segura..., obra de estréia de Waly e muito provavelmente o principal marco da contracultura pós-tropicalista. Misto de crônica de costumes, memória do cárcere e libelo político-filosófico, trata-se, nas palavras de Antônio Cândido, de uma obra ''violentamente anticonvencional''. Escrito durante a prisão de Waly no Carandiru por porte de drogas, o livro foi vendido em bancas de jornal e rapidamente se esgotou. Desde então, nunca foi reeditado em sua versão original - ainda que, em 1983, tenha sido incluído como parte integrante do volume Gigolô de Bibelôs.

   A nova edição, resultado de uma parceria entre a Aeroplano e a Fundação Biblioteca Nacional, seguiu à risca o projeto original de Waly, mantendo a capa, a grafia e a diagramação do livro de 1972, além da assinatura Waly Sailormoon, o ''marujeiro da lua'', alter ego criado pelo poeta durante os 18 dias que passou na prisão paulista. No mais, foram acrescentados apenas algumas fotos e documentos da época e parte dos manuscritos encontrados em cadernos pessoais do autor. O ensaio introdutório de Antonio Cícero e a transcrição de Heliotape, um depoimento de Hélio Oiticica sobre a obra e a figura intelectual de Waly, completam o volume.

   ''Na mídia, alguns dos adjetivos que mais se empregam a seu respeito são, por exemplo, irreverente, marginal, espontâneo. A poesia de Waly foi orientada, ao contrário, por um espírito antiespontaneísta, que resultou numa obra extremamente culta e elaborada. Pelas mesmas razões, é claro que ele tampouco pode ser considerado um poeta marginal'', defende Antonio Cícero. ''(Me segura.,,) trata-se de poesia pura. Ainda que sempre brincando com os limites entre poesia e prosa, a obra de Waly é poesia em estado de alerta. 24 horas por dia'', afirma Heloísa Buarque de Hollanda, organizadora da edição ao lado do crítico Luciano Figueiredo.

   Qual é o parangolé?, uma breve mas apaixonada reflexão de Waly sobre a obra e a trajetória do amigo e artista plástico Hélio Oiticica (1937-1980), foi editado originalmente pela Relume Dumará, dentro da coleção Perfis do Rio. Para a nova edição, lançada em fevereiro, a Rocco acrescentou uma introdução de Luciano Figueiredo, que destaca o rico diálogo entre os dois artistas a partir da forte e ''rara'' amizade que ligava um ao outo. ''Hélio Oiticica era o artista que Waly mais admirava. O que havia entre eles era uma mão dupla de interlocução. Um vaivém criativo, produto de espíritos francamente experimentais'', afirma Luciano.

   Se a arte para ser usada no corpo, fundamento estético dos parangolés de Oiticica, expressava o aspecto performático de sua obra, era também na performance que Waly fundia a verdade de sua poesia. Difícil, portanto, dissociar vida e obra em seus perfis. Nesse sentido, o diálogo entre os amigos constituía uma simbiose entre duas experiências artísticas extremamente particulares. E o livro é justamente o resultado dessa convivência. ''O Waly teve experiências muito especiais com Hélio sobre poesia, arte e vivências. A convivência entre eles era muito especial'', afirma Figueiredo.

   Entre crônicas, críticas, anedotas e outras reflexões, Waly documenta seu encontro com o artista plástico. Um dos inspiradores do tropicalismo, Hélio era sinônimo de anarquismo e de identificação com a marginalidade setentista, cuja frase emblemática (''Seja marginal, seja herói'') é uma das âncoras do livro. ''Com a malandragem no morro, HO aprendeu o valor da ambigüidade sinuosa. Nada podia ser julgado de uma forma maniqueísta, preto no branco. Não era um romantismo decorativo dizer SEJA MARGINAL, SEJA HERÓI; tinha um tremendo potencial ofensivo no Brasil sob ditadura militar'', escreve Waly.

   Tanto a reedição de Qual é o Parangolé? quanto de Me segura... trazem consigo uma curiosa ironia. O primeiro, retrato do encontro entre dois dos espíritos mais ''alternativos'' que a arte brasileira já produziu, ganhou espaço de destaque no mainstream editorial ao voltar às livrarias com o selo de uma das maiores editoras do País. Já o segundo, súmula do caráter libertário e subversivo de Waly Salomão, foi resgatado à posteridade pela Biblioteca Nacional e acabou incorporado ao patrimônio oficial da cultura do Brasil. Quem te viu, quem te vê, Waly.

Serviço:
Hélio Oiticica - Qual é o Parangolé?
, de Waly Salomão. Editora Rocco, 144 páginas. R$ 24,50.

Me segura qu'eu vou dar um troço, de Waly Sailormoon. Aeroplano / Biblioteca Nacional, 208 páginas. R$ 35,00

(© NoOlhar.com.br)

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