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Mestre 'da capo'

05-06-2008

Arquivo JB

Guerra-Peixe, em texto inédito: 'Se quisesse contribuir para a música brasileira, precisaria ter uma atitude mais humilde, o que consistiria em começar tudo de novo'

 

Partituras inéditas e publicação de textos raros esquentam comemorações em torno dos 90 anos do compositor e arranjador petropolitano Guerra-Peixe, cuja obra redimensionou os limites entre o clássico e o popular

Helena Aragão

   Celebrado pelos alunos como um professor inesquecível, pelos acadêmicos como pioneiro e pelos amigos como exemplo de doçura, o compositor, arranjador e pesquisador Guerra-Peixe (1914-1993) - cuja obra reescreveu os limites entre o clássico e o popular - inspira eventos e lançamentos a partir de amanhã, quando ele completaria 90 anos. Duas novidades vêm à tona por iniciativa de ex-alunos: partituras manuscritas e inéditas encontradas mês passado pelo maestro Ernani Aguiar (e dedicadas ao seu pai, Wolney Aguiar) e a publicação de textos raros de Guerra-Peixe por Samuel Araújo, professor da UFRJ.

   Freqüentemente relembrada por amigos - como o maestro Edino Krieger, autor do texto abaixo, e discípulos como o sanfoneiro Sivuca -, a vida do músico foi marcada por radicalismos e inovações no que se refere à composição e à pesquisa. Os extremos dessa carreira movimentada podem ser exemplificados em trabalhos como o Noneto, obra de vanguarda reconhecida internacionalmente; e canções populares e arranjos - como os que fez em 1966 para o disco Afro-sambas, de Baden Powell e Vinicius de Moraes, e em 1993, para Cinema Novo, do disco Tropicália 2, de Gil e Caetano.

   - Ele nunca renegou sua porção popular, mesmo em épocas de radicalismos. Como professor de composição, não intervinha nos nossos caminhos de criação. É uma pena que haja pouquíssimas teses sobre seu legado - observa Ernani, acrescentando que as partituras encontradas (uma canção chamada Felicidade e um acompanhamento para o 13º Capricho de Paganini) serão doadas ao arquivo pessoal do compositor.

   Dos caminhos surpreendentes que escolheu, o de curva mais acentuada foi seguido no fim da década de 40, quando ele se desligou da ''religião'' dodecafônica - uma técnica de composição baseada em séries musicais, nas quais não se pode repetir notas - aprendida com o alemão H. J. Koellreutter, para mergulhar no folclore nordestino.

   Nove anos antes de morrer, quando escreveu o texto biográfico Principais traços evolutivos da produção musical (infelizmente, nunca publicado), ele aponta o episódio como uma lição: ''Se quisesse contribuir para a música brasileira em termos de cultura nacional, precisaria ter uma atitude mais humilde, e essa humildade consistiria em começar tudo de novo. Assim haveria de ser feito, pois o que importa não é exatamente o compositor, mero acidente, e sim a própria música.''

   O estilo de vida, que já foi apelidado de da capo - símbolo que na partitura significa a volta ao início da peça -, justamente pela falta de pudor em voltar às raízes, impressiona ainda hoje. Como nome respeitado do grupo Música Viva, que exaltou o dodecafonismo até em manifesto, chegou a ter vários convites para trabalhar no exterior. Mas, com o embate criado entre internacionalistas e nacionalistas, recusou todos e tomou uma direção completamente inusitada para a época: aceitou um trabalho como arranjador numa rádio de Pernambuco.

   - Ele chegou a rasgar coisas que escreveu, mas manteve elementos do dodecafonismo na sua fase seguinte, mesmo nas canções populares - observa Samuel.

   Ao optar por morar em Recife por três anos, afastou-se das polêmicas e se aproximou do folclore local. São desta fase a celebrada publicação Maracatus do Recife, considerada até hoje uma bíblia sobre o gênero - cuja última edição é da década de 80 - e os textos que Samuel recuperou para o livro Estudos do folclore musical e música popular urbana, que deve lançar este ano.

   - São artigos escritos para revistas e jornais de Pernambuco, não só sobre folclore, mas também sobre importantes instrumentistas da música de salão de lá. Eles revelam mais do que as descobertas, mas também o pioneirismo de uma metodologia intensiva. Nesse ponto, ele foi além de Mario de Andrade. Até hoje, poucas pessoas mergulharam tão fundo numa pesquisa como ele - explica o professor, que registrou em 2001 algumas peças populares do compositor em disco com seu grupo Tira o Dedo do Pudim.

(© JB Online)


Paixão pela dança de salão

   Tanto os artigos raros quanto as partituras populares de Guerra-Peixe foram descobertos por Samuel nos arquivos da sobrinha-neta do compositor, a produtora de cinema Jane Guerra-Peixe. Ela guarda o acervo no seu apartamento, em Copacabana. Conhecida pelo seu rigor na liberação dos documentos do compositor para pesquisadores, ela conta os seus planos para o futuro:

   - Tenho o maior prazer de ceder o material para pós-graduandos, acho as teses um veículo importante para a divulgação das obras. Mantenho o material na minha casa apenas porque pretendo criar, nos próximos anos, uma fundação para disponibilizá-lo. Quero também ajudar a incrementar o memorial que está sendo feito em Petrópolis, cidade em que ele nasceu e quis ser enterrado.

   Mas o acervo particular não é a única possibilidade de consulta do legado de Guerra-Peixe. Há também um considerável material espalhado pelos acervos das instituições de pesquisa da cidade, sobretudo na Biblioteca Nacional. Alguns documentos e partituras foram copiados do acervo e doados, ainda em vida, pelo próprio Guerra-Peixe à Divisão de Música do órgão.

   Há também preciosidades únicas por lá, como o caderno pautado com as lições de Koellreutter, cartas (nem sempre amigáveis) trocadas com colegas, como o pesquisador Vasco Mariz, fotos, manuscritos e 14 pastas de recortes de jornais sobre o músico.

   Fora da instituição federal, há partituras na Academia Brasileira de Música (do Tributo a Portinari, cuja cópia pode ser comprada pelo site http://www.abmusica.org.br) e na biblioteca da Uni-Rio, correspondência com o pesquisador Mozart de Araújo na biblioteca do Centro Cultural Banco do Brasil e orquestrações no Museu da Imagem e do Som.

   Além do acervo, a história de Guerra-Peixe pode ser conhecida por meio de um perfil lançado em 2001, dentro da série Memória, da Funarte, pela escritora Rosa Nepomuceno. O livro conta que a derradeira paixão do maestro foi a dança de salão.

   Além de estudar os passos de boleros e valsas na prática, ele chegou a pesquisar sobre o tema para um livro, interrompido por um edema pulmonar. Morreu meses antes das ''biritas de março'' - como chamava o aniversário - de 1994, quando completaria 80 anos. Fica a torcida para que a efeméride dos 90 faça vir a público este livro e outros projetos. (H.A.)

(© JB Online)


Convivência com Guerra-Peixe

Um ser singular e plural

Edino Krieger
Compositor e diretor do MIS e da Academia Brasileira de Música

   Conheci Guerra-Peixe em 1943, quando, recém-chegado do Sul, me fiz discípulo de Koellreutter no Curso Livre de Composição do Conservatório Brasileiro de Música.

   Guerra e Cláudio Santoro eram as estrelas maiores do Grupo Música Viva. Não demorei a entender que o Guerra era um músico singular. Minha primeira emoção foi encontrar nele o autor de um hino patriótico que eu cantava nas festas cívicas do colégio de minha cidade: Bandeira do Brasil.

   Logo o Guerra como que me adotou e me introduziu nos múltiplos caminhos de sua experiência plural no campo da música. Com ele passei a freqüentar lugares como os bares da Lapa e da Avenida Rio Branco, onde o português Germano, o Lamartine e outros compositores e letristas, seus amigos, batucavam sobre as mesas e cantarolavam sucessos do próximo carnaval.

   Depois, esticávamos em longas conversas, madrugada adentro, em sua casa da Rua Teotônio Regadas, 24 (42 para quem vem de cima, como ele dizia), discutindo dodecafonismo, atonalismo, política ou abobrinhas, ou ouvindo gravações ou programas de rádio, sobretudo em ondas curtas, como aquela transmissão da BBC de um concerto de sua orquestra cujo programa incluía a estréia mundial de uma obra dodecafônica do Guerra.

   Às vezes, conversando sobre técnica serial ou estética, ele ia rabiscando no papel pautado algum arranjo de música popular para a Rádio Nacional. Tinha uma facilidade impressionante para escrever música, um domínio que vinha certamente de seu talento musical inato e de sua vasta experiência de orquestrador, tendo que produzir um arranjo para orquestra em poucas horas - e sem o direito de errar.

   Ele tentou me introduzir nesse círculo de cobras e me apresentou ao Maestro Ercole Vareto e a alguns outros grandes orquestradores da Rádio Nacional, como Radamés, Lyrio Panicalli, Leo Peracchi. O Lindolfo Gaya eu já conhecera entre os alunos de Koellreutter, como também Cipó, Severino Araújo e Tom Jobim.

   Penso que esse ser plural que foi Guerra-Peixe é o que o torna um dos músicos mais singulares deste país. Singularidade que seu temperamento de rebeldia e radicalismo sempre ajudou a acentuar. Ele tinha a eterna paixão do adolescente capaz de descobrir uma nova musa musical a cada ano e de defender uma nova verdade como se fosse a única e definitiva.

   Como dodecafonista, foi o mais ortodoxo, criando séries pan-intervalares estruturadas em relações matemáticas. Mas tornou-se o seu maior opositor ao redescobrir a riqueza do Maracatu do Recife, a que dedicou um profundo estudo musicológico. E essa redescoberta o remeteu às suas próprias origens de músico popular e de grande arranjador, promovendo como que uma grande síntese de seu talento criador plural e de sua fascinante personalidade singular, resultando em obras máximas da criação musical brasileira do século 20 e de todos os séculos.

   Um dia, o Brasil ainda descobrirá Guerra-Peixe em toda a sua grandeza.

(© JB Online)


Shows e lançamentos

Orquestra Sinfônica Nacional

A OSN executa obras como Roda de amigos e Ponteado no Teatro da UFF, no dia 21, às 20h, em Niterói

Tira o Dedo do Pudim

Toca canções populares também no Teatro da UFF, no dia 22, às 20h

Quarteto Carioca

O grupo abre Série Brasiliana com Quarteto de cordas n° 2, entre outros. Dia 30, 18h30, na Casa de Rui Barbosa, em Botafogo

Orquestra Sinfônica Brasileira

A OSB toca Tributo a Portinari em 22/4, às 19h, no Teatro Municipal, no Centro José Staneck

O gaitista acaba de lançar disco com Concerto para harmônica e orquestra

Midori Maeshito

A pianista japonesa lança disco com obras para piano

OSB Jovem

Lança o DVD Tem peixe no maracatu, onde executa a Suíte pernambucana

(© JB Online)

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