05-06-2008
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50 anos de ritmos:
Jackson do Pandeiro |
João Máximo
O solista dava a partida: “Convidei a
comadre Sebastiana/Pra cantar um xaxado na Paraíba/Ela veio com uma dança
diferente/E pulava que só uma guariba/E gritava...” O coro completava “A, e,
i, o, u, picilone...”
Corria o ano de 1953 quando aquele
coco nordestino conquistou de surpresa as rádios mais ao sul. No Rio,
principalmente, o solista de voz parecida com a de Jorge Veiga intrigava os
fãs da música popular, tanto com a dança de Sebastiana quanto com as de um
certo forró em Limoeiro: “Quem será esse tal de Jackson do Pandeiro?”,
indagavam. Quando ele viajou de navio de Recife para o Rio, a bordo do
sucesso do segundo disco e já contratado para um terceiro na gravadora
Copacabana, a pergunta começou a ser respondida e o cidadão paraibano José
Gomes Filho começou a fazer história.
Cinqüenta capítulos dessa história —
as faixas por ele gravadas de 1953 a 1958, quando se transferiu para a
Columbia, hoje Sony — estão reunidos no CD duplo “Jackson do Pandeiro — 50
anos de ritmos”, que acaba de sair pela EMI. Embora ele continuasse gravando
na Columbia e depois em vários outros selos, até sua morte, aos 63 anos, em
1982, aqueles primeiros cinco anos são de fato os mais representativos do
talento e da importância do ritmista das rádios da Paraíba e de Pernambuco
(nas quais conheceu e conviveu com Moacir Santos, Severino Araújo, Sivuca,
Hermeto Pascoal e, claro, Luiz Gonzaga), ritmista este que iria dever sua
glória mais à voz que ao pandeiro, ao triângulo ou ao bongô.
Discípulo superou sua primeiro influência
A voz realmente parecia com a de
Jorge Veiga, a quem Jackson assumidamente imitava no começo da carreira de
cantor. Mas essa antologia, produzida por Marcelo Fróes (que mais uma vez
fica a nos dever informações básicas, como data e local das gravações, nomes
dos músicos acompanhantes, gênero das músicas etc.), é o bastante para que
se constate que “o rei do ritmo”, como ficou conhecido, superou em muito “o
caricaturista do samba”, como era conhecido Jorge Veiga, fato que este
certamente foi obrigado a admitir cheio de ciúme (em sua excelente biografia
de Jackson do Pandeiro, Fernando Moura e Antônio Vicente contam como até
para macumba Jorge apelou na tentativa de impedir que o outro chegasse ainda
mais longe).
Na verdade, só a voz é parecida.
Assim mesmo, é sem dúvida mais suave, ou menos agressivamente anasalado, o
timbre de Jackson. Sua instintiva musicalidade também é própria, única. Ele
parecia temperar o caráter, digamos, agreste da voz com divisão toda sua,
surpreendente a cada intervalo, somando a ela uma agilidade, uma
sinuosidade, da qual raros sambistas de bossa (e nunca Veiga) eram capazes.
Talvez seja o seu segredo esta combinação da nordestinidade dos cocos,
toadas, rojões, frevos e baiões com a carioquice do samba. O que — novamente
talvez — explica o quanto novas formas e estilos de música brasileira, entre
os quais um pop nordestino e as aventuras tropicalistas, rendem-lhe
homenagem.
As 50 faixas são mesmo exemplares. A
maioria delas, ao menos as de uma primeira fase, é de ritmos nordestinos.
Nelas, o ex-imitador de Jorge Veiga, o fã do samba de bossa carioca faz-se
presente imprimindo uma cor diferente já a “Sebastiana” e “Forró em
Limoeiro”, e mais ainda em “Um a um”, “A mulher do Aníbal”, “O canto da
ema”, “Ele disse” (homenagem a Getúlio em tom de rojão), “Coco social” e
“Xote de Copacabana”. Já no sambista — por inteiro em “Te consola comigo”,
“Onde está você?”, “Meu senhor”, “Quem samba fica” e no grande sucesso de
carnaval “Vou gargalhar” — é fácil compreender por que Veiga achou melhor
recorrer aos pais-de-santo: sucesso em disco, em shows, na TV com sua mulher
Almira, no Brasil inteiro. Aquele sambista nordestino, ou cabra-da-peste
incrivelmente carioca, trazia à música popular brasileira uma combinação de
sons nova e, de certa maneira, inexplicável. Diz o maestro Moacir Santos aos
citados biógrafos: “Jackson era muito mais que um ritmista. Ele tinha uma
capacidade expansiva, transformando o pensamento musical em ritmo. Alguns
choros que eu fazia nessa época, por exemplo, ele decorava e me repassava
todos os detalhes, cantando. Depois saía ensinando a melodia aos
acordeonistas. Era uma coisa superior, não era físico, não”.
Muito dessa arte superior está na
antologia que acaba de sair.
(©
O Globo)
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