05-06-2008
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Vaqueiro - Missa do Vaqueiro Serrita,
Pernambuco, 1978 Fotografia de
Alcir Lacerda (18,3 x 24 cm) |
Imagens
realizadas por Alcir e mais 33 convidados são destaque na Torre Malakoff
Um dos pioneiros da fotografia profissional em Pernambuco, Alcir Lacerda é
homenageado, hoje, com a criação de uma sala com o seu nome, exclusiva
para a exibição de mostras fotográficas, na Torre Malakoff. Para celebrar
a data, duas exposições foram montadas no espaço. Na sala Alcir Lacerda,
estão trabalhos de 33 convidados, de várias gerações, chamados a
participar do evento pelo próprio Lacerda. Entre eles, estão nomes como
Beto Figueirôa, Chico Porto, Ludmila Abreu, Mariana Guerra (todos do
Jornal do Commercio), Edmond Dansot, Gil Vicente, Mateus Sá, Roberta
Guimarães, Luca Barreto e Robert Fabisak. Nas quatro minigalerias do
primeiro andar, ficam as fotografias do homenageado, que completa 62 anos
de dedicação à imagem em Pernambuco.
Ao todo, foram garimpadas 110 fotografias de Alcir Lacerda para fazer
parte da exposição. O material faz apenas um breve resumo da produção do
fotógrafo, já que, só entre sua coleção de imagens artísticas, mais de
cinco mil negativos foram analisados. Em seu arquivo pessoal, Lacerda
guarda registros de imagens litorâneas, interioranas, paisagens urbanas,
cliques publicitários, de documentação científica, sociais e cenas de
fotojornalismo. Desses últimos, há toda uma série de instantâneos sobre a
ditadura militar de 1964, que foi doada para o Acervo da Fundação Joaquim
Nabuco – agora, a instituição cede as obras para a mostra da Malakoff.
Além de uma sala inteiramente voltada para as cenas da ditadura, outros
três temas foram privilegiados pelos curadores da exposição: litoral,
interior, cenas urbanas. Embora se possa pensar que todas as imagens das
belas praias ou do casario recifense já foram captadas, as obras de Alcir
Lacerda vêm dizer exatamente o contrário. Primeiro, porque elas foram
captadas antes que virasse moda registrar cenas praianas e se
auto-intitular fotógrafo. Depois, porque as cenas guardam a memória de um
tempo que só pode ser acessado justamente por essas imagens. Esse valor
documental termina por diferenciá-las de todas as outras, realizadas mais
recentemente.
A curadoria das 110 imagens presentes na mostra-homenagem de hoje é
assinada por Fred Jordão e Betty Lacerda. “Foi um trabalho enorme pinçar
só essas fotos, num universo tão amplo, mas Alcir Lacerda ajudou muito a
gente. Às vezes, ele mesmo selecionava a foto e dizia porque,
tecnicamente, a cena estava melhor registrada naquele fotograma”, explica
Betty. Entre os critérios de ‘desempate’, usados para escolher algumas
obras, estão o ineditismo ou o uso pioneiro de equipamentos, como a lente
olho de peixe (que deixa a fotografia com aspecto arredondado). Todas as
ampliações da exposição foram feitas em processo digital.
Serviço
Abertura da Sala Alcir Lacerda e exposição, hoje, às 20h, na Torre
Malakoff – Pç. do Arsenal da Marinha, Bairro do Recife. Fone: 3424.8704
(©
JC Online, 16.03.2004)
O Nordeste pelos olhos de Alcir Lacerda
Mostra revela em 110 imagens compiladas ao
longo de 62 anos o pioneirismo de um mestre da fotografia
Júlio Cavani
Da equipe do DIARIO
Na arte, na
técnica, no profissionalismo e na vida, Alcir Lacerda é pioneiro em vários
sentidos para a fotografia pernambucana. Descobridor de linguagens, o
fotógrafo passou a segunda metade do século XX à frente do desenvolvimento
de seu ofício nos meios jornalísticos, artísticos e publicitários e agora
ganha como homenagem a maior exposição já montada com sua obra, em cartaz a
partir de hoje na Torre Malakoff. Com 110 fotografias extraídas de 62 anos
de carreira, a mostra ainda marca a inauguração da Sala Alcir Lacerda, no
térreo da torre, que abre com 33 fotos de convidados de três gerações,
alunos diretos ou indiretos do mestre.
A reunião de trabalhos de outros profissionais e artistas na mesma
exposição é importante porque pode-se afirmar que, mesmo involuntariamente,
todos os fotógrafos em atividade em Pernambuco receberam influência de Alcir
Lacerda. Além de ter sido o primeiro pernambucano a testar diversas
experiências em fotografia, ele sempre foi conhecido como um professor e
articulador, a quemo sentimento de gratidão é sempre revelado pelos colegas
mais jovens e mais experientes. Ele desenvolveu como ninguém, por exemplo, a
fotografia publicitária no Recife, além de ter se especializado em fotos
para a medicina, em imagens aéreas e em equipamentos como a lente
ollho-de-peixe, tendo desenvolvido bastante também a sistematização
profissional de seu meio, em parte pela atuação de seu estúdio Acê Filmes,
que já teve 25 funcionários.
Sua passagem pela imprensa inclui o Diario de Pernambuco, Time Life,
Manchete, O Cruzeiro, O Estado de São Paulo, Placar e Veja, entre outras
publicações. Otávio de Souza, editor de Fotografia do DIARIO, tem uma
admiração especial pelo fotojornalismo de Lacerda. "Ele sabe fazer fotos de
gente. A imagem de Dom Hélder erguendo os braços em frente à bandeira do
Brasil simboliza muito mais do que uma mera notícia. É como se ele estivesse
sustentando-a", exemplifica. "Alcir é o pai das novas gerações de fotógrafos
de Pernambuco, mesmo que inconscientemente, pois ele ensinouaos mais maduros
que agora estão ensinando aos mais novos", destaca, enfatizando a
importância do laboratório da Acê Filmes para a formação de profissionais.
A exposição passeia pelas diversas vertentes exploradas pela fotografia de
Lacerda, valorizando o pioneirismo técnico e estético e aproveitando para
levar a público trabalhos inéditos, como fotos do Golpe de 1964, antes
proibidas. Basicamente, a mostra está dividida em quatro partes que enfocam
o litoral, monumentos e paisagens de Recife e Olinda, o fotojornalismo e a
abordagem do fotógrafo sobre o interior. Essas são apenas possibilidades
adotadas pela curadoria de Betty Lacerda e Fred Jordão, que tinham em mãos
material suficiente para inúmeras mostras sob diversos recortes e temáticas.
"Além da importância histórica da sua produção, ele possui um rigor técnico
característico dos grandes fotógrafos, nos enquadramentos, na luz e no
manuseio da máquina e dos filmes", observa o curador.
No interior e no litoral nordestino, Alcir abriu sua lente paraaspectos
naturais e sociais, capturando imagens com dedicação para encontrar a forma
ideal de aproveitar a luz natural da região, extinguir preconceitos na
escolha de seus personagens e abrir uma janela para um mundo de
possibilidades. Ele confirma que a fotografia (não só a sua) é ao mesmo
tempo antropológica, política, técnica e estética, sem perder de vista a
poesia. Segundo Fred Jordão, "antes dele, os registros da região eram mais
esporádicos. Ele é pioneiro porque vai sistematicamente ao Sertão, ao
litoral, à Zona da Mata, às feiras, alcançando uma abrangência que não se
tinha notícia."
Serviço
Exposição Alcir Lacerda Fotografias e inauguração da Sala Alcir Lacerda
Quando: Abertura hoje, às 20h. Em cartaz até 9 de maio
Onde: Torre Malakoff (Praça do Arsenal da Marinha, Recife Antigo)
Informações: 3424.8704
(©
Pernambuco.com, 16.03.2004)
Entrevista l Alcir Lacerda
DIARIO DE PERNAMBUCO - Existe alguma foto na exposição
que te orgulha mais?
ALCIR LACERDA - Tem uma foto minha que mostra uma menina de uns 17 anos em
um canavial, na porta de uma casa de barro. Aquela imagem ficou bonita, mas
ao mesmo tempo muito triste, e me emociona bastante, por causa da expressão
da menina e do ambiente em que ela estava. Foi um dos meus trabalhos mais
famosos, publicado em revistas brasileiras e estrangeiras e usado na capa de
um livro sobre desnutrição escrito por Nelson Chaves. É uma foto que a gente
faz e a imagem continua na cabeça.
DP - As preocupações estéticas estavam presentes em seu trabalho de
fotojornalista?
ALCIR - Hoje em dia, com máquinas automáticas que batem várias fotos em
poucos segundos, o fotógrafo pode ficar menos preocupado e escolher a melhor
depois, porque assim ele consegue pegar todas as expressões de uma pessoa,
por exemplo. Antes, tínhamos que esperar o momento certo para fazer as
fotos, valorizando mais essa escolha, que era mais arriscada. No meio de
umarevolução, uma guerra ou uma greve, com soldados batendo em você com o
cacetete, o mais importante é registrar o momento, sem muita preocupação com
a arte. Mas um bom posicionamento dos fotógrafos nesse momento pode ser
essencial. Houve uma época em que minhas fotos de miséria iam para a Fatos &
Fotos e as belezas iam para a Manchete. Cada tipo de reportagem exige uma
forma de se fotografar diferente.
DP - É comum ouvir fotógrafos dizendo que são influenciados por seu
trabalho. Onde você enxerga a sua presença nas fotos feitas por gerações
mais jovens?
ALCIR - Mesmo que o fotógrafo tenha alguma influência do meu trabalho, é o
olhar dele que vai determinar suas fotos. Uma vez, numa excursão, todos os
alunos ficavam olhando pro céu procurando coisas bonitas, quando as fotos
estavam na verdade embaixo dos seus pés, na areia, no chão. O fotógrafo
precisa aprender a ver. Mas alguns jovens assumem a minha influência
abertamente, principalmente os que trabalham com o preto e branco. Valorizo
as fotos em preto e branco porque elas duram mais e não podem ser perdidas,
diferente das coloridas, cujos negativos aos poucos perdem a cor. Sempre
recebo jovens da universidade que querem conhecer o laboratório da Acê
Filmes e dou a eles o mesmo tratamento que daria a um profissional renomado.
(©
Pernambuco.com, 16.03.2004)
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