05-06-2008
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Este cearense é uma dessas
provas acabadas da genialidade de nossa gente. Menino da roça,
autodidata, leu os grandes mestres. Poeta nato, fiel às raízes, foi
porta-voz do povo, sem perder jamais a delicadeza. |
Por Gilmar de Carvalho,
especial para o ALMANAQUE BRASIL
5 de
março de 1909. Na Serra de Santana, a 18 km de Assaré, nascia o
segundo dos cinco filhos de um casal de agricultores cearenses. Aos quatro
anos Antônio Gonçalves da Silva, perdeu a visão de um olho. Aos oito, ficou
órfão de pai e teve que trabalhar.
Muito cedo encantou-se com os
romances de cordel e o som da viola. Teve apenas quatro meses de instrução
formal, compensados pela leitura atenta de Camões e dos poetas românticos
brasileiros.
Aos 16, com
autorização da mãe, vendeu uma ovelha e comprou a primeira viola. Passou a
distrair os serranos.
Rapaz formado, viajou a Belém com um
parente que se encantou com seus repentes. Foi batizado de Patativa. Como
apareceram outros, ele passou a ser o Patativa do Assaré.
Voltou a sua terra, com desenvoltura
para vencer o rival da peleja. Assim, fez-se o poeta.
Combativo
Casado em 1936,
pai de família numerosa, por mais de 25 anos trabalhou a terra e fez poesia.
Como intérprete de uma comunidade, viajava em lombo de burro, vestindo
paletó e gravata, com a viola a tiracolo, fazendo cantorias pelo Cariri.
Na roça, enquanto trabalhava,
acumulava versos em sua memória privilegiada. À noite, sob o lume da
lamparina, passava tudo a limpo num caderninho. Constituía-se uma obra, que
permaneceu.
Em Patativa, não existia a
possibilidade de rima pobre ou poema mal acabado. A versificação aprendeu
com o tratado de Olavo Bilac e Guimarães Passos.
Em 1956, parte de sua produção ganha
formato de livro. José Arraes de Alencar ouviu Patativa no rádio. Publicou
Inspiração Nordestina. Luiz Gonzaga gravou, em 1964, Triste
Partida. O canto de Patativa passou a ser amplificado.
O poeta incorporou novas pautas,
falou da reforma agrária, da televisão, dos meninos de rua, mas não perdeu
de vista a casa de farinha, o galo de campina, o flamboaiã sentinela da
serra de Santana. Sua consciência política aguçada transmitia-se por meio da
voz poética. Insistindo nas verdades incômodas, fez de sua poesia um canto
de guerra, sem nunca perder a delicadeza. No período autoritário foi
perseguido. Teve um mandado de prisão relaxado pela interferência de um
parente militar.
Patativa continuou a criar, era seu
destino de poeta pássaro, poeta cidadão.
Entusiasta
Cante Lá Que
Eu Canto Cá, publicado em 1978, lançou-o nacionalmente. Foi objeto de
teses e artigos acadêmicos, capa de suplementos culturais. Ganhou
homenagens, cidadania honorária de vários municípios. Aconteceu na
televisão. Vieram outros livros, discos. Apoiou a campanha pela Anistia em
1979. Participou das Diretas-Já em 1984. Votou contra velhos coronéis e em
Lula três vezes.
Patativa soube manter suas raízes.
Quando o corpo franzino falava, tornava-se nosso porta-voz. Um homem
profundamente sintonizado com seu tempo e seu espaço: generoso, guerreiro e
sábio.
Morreu em julho
de 2002, aos 93 anos. Deixou sete livros, cinco discos e uma trajetória de
coerência ética, qualidade poética e afinação, como o pássaro. Patativa foi
único em sua grandeza e eterno em seu cantar.
Gilmar de Carvalho é jornalista e
escritor. Autor de Madeira Matriz e Publicidade em Cordel
(Editora Annablume)
(©
Almanaque Brasil)
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