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A cultura que tentou driblar a ditadura

05-06-2008

O poeta maranhense Ferreira Gullar

 

Ana Paula Conde

   Ferreira Gullar era presidente do Centro Popular de Cultura (CPC) quando, no dia 1º de abril de 1964, foi anunciado o golpe militar. Terminava naquele momento a ação do grupo teatral da União Nacional dos Estudantes (UNE). A partir dali, não seria mais permitido encenar textos engajados nas favelas e subúrbios da cidade. Em meio a perseguições políticas, e sob o olhar rigoroso da censura, é preciso pensar numa nova forma de atuar e de combater o regime imposto pela força.

   Ao lado de Oduvaldo Vianna Filho, Vianinha, o poeta participa da criação do Grupo Opinião. Nara Leão, Zé Kéti e João do Vale cantam a realidade brasileira. Liberdade Liberdade e Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come lotam o Teatro de Arena, em Copacabana (RJ). A militância não podia parar, mas era preciso desenvolver formas sutis de criticar o momento político.

   O papel da cultura nos anos de chumbo é um dos temas do ciclo de palestras Pensando 1964, que acontece entre os dias 23 e 26 de março no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro. O poeta vai falar sobre sua vivência naquele período e dividir a mesa de debates com o professor de sociologia da Universidade de Campinas (Unicamp), Marcelo Ridenti, e a professora de Ciências Sociais da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Rio de Janeiro, Santuza Cambraia Naves.

   Gullar nunca abandonou o espírito de combatividade durante o regime militar, mas procurou pautar sua luta pela racionalidade. Se a censura levava um mês para divulgar parecer sobre peças e livros, ele tentava encontrar caminhos para diminuir o prazo para uma semana. O poeta não concordava com a existência desse tipo de controle, mas procurou agir da forma que era possível naquele momento. O objetivo era livrar as companhias teatrais do risco de extinção. Tal postura foi criticada pelos membros mais radicais da esquerda, o projeto não prosseguiu e a ditadura levou a melhor.

   A seguir, Ferreira Gullar fala sobre o CPC, o Opinião, as dissidências da esquerda e o papel da cultura no processo de enfraquecimento do regime militar.

Como era a atuação do CPC nos anos anteriores ao golpe?

O CPC era uma entidade de atuação política, que usava a arte - o teatro, os poemas de cordel e o cinema - como instrumento de conscientização sobre os problemas do País. Ele foi criado com esse propósito.

E o que aconteceu após 1º de abril de 1964?

O CPC acabou, alguns foram presos e outros tiveram que cair na clandestinidade. Dois meses após o golpe, quando já era possível conhecer a situação real e suas conseqüências, fomos nos reorganizando e tivemos a idéia de criar o Opinião. Queríamos fazer um teatro que pudesse se transformar num centro de resistência à ditadura.

Qual a diferença entre o trabalho desenvolvido pelos dois grupos?

Na época do Opinião, não podíamos mais nos apresentar nas ruas, nas favelas e nos subúrbios. Também não podíamos fazer teatro de pregação política. Havia censura. E, na verdade, nós não queríamos mais fazer isso. Mesmo antes do golpe, tínhamos tomado consciência de que a posição do CPC era em boa parte equivocada em relação à arte. Nós subestimávamos a criação artística achando que assim iríamos alcançar um grande público. Achávamos que a arte popular não precisava ter qualidade, bastava ser ideológica. Compreendemos que isso não tinha utilidade, não dava o resultado esperado. Era uma coisa prejudicial à arte e à ação política.

O Opinião desenvolveu uma nova maneira de falar sobre a realidade brasileira?

As peças passaram a ter outro tratamento. A qualidade artística ganhou peso. Tínhamos que oferecer resistência a um regime ilegítimo, que havia derrubado um presidente eleito e tinha por objetivo impedir as mudanças sociais. O Opinião era uma forma diferente de continuar nossa luta anterior.

Há uma aproximação mais efetiva entre arte e política na década de 60?

A mistura de arte e política se dá nos anos 60 como elemento de transformação, mas ao longo da história da arte brasileira há outros momentos em que a arte se envolveu com questões políticas. O teatro sempre foi, de alguma forma, politicamente engajado. Até o teatro musical da Praça Tiradentes (Rio de Janeiro) abordava a política. Era uma crítica conjuntural, não estrutural. Porém, as peças falavam mal do governo e do presidente. A partir da Revolução de 30 houve uma efervescência muito grande e a vida política tornou-se agitada. Antes e depois disso, houve uma série de manifestações, algumas até radicais, pela influência de alguns fatores. O principal deles foi a Revolução Russa, que passou a ter grande peso sobre a intelectualidade mundial, e a crise do capitalismo de 1929, que levou até os Estados Unidos a uma crise econômica e social. Tudo isso contribuiu para botar para ferver o caldeirão de agitação social.

A Revolução Cubana também teve influência sobre a intelectualidade?

Em 1959, com a Revolução Cubana, começou uma outra fase, a qual o CPC pertence. Esse movimento vitorioso incrementou a atividade política, provocou a criação das ligas camponesas e a radicalização da luta pela reforma agrária. O pensamento era: se uma ilha tornou-se independente a 900 quilômetros da costa americana, por que não podemos fazer uma revolução aqui?

E os artistas se engajaram nesse processo?

A possibilidade da revolução se tornou plausível e os escritores e dramaturgos que queriam participar dessa mudança passaram a se dirigir à parte mais fraca da sociedade. O teatro e o cinema se politizaram. O CPC e o golpe de 1964 têm que ser vistos como parte desse processo mundial, marcado pela Revolução Cubana e pela Guerra Fria. Tudo isso influenciou muito a situação brasileira. Um dos argumentos do golpe era que o governo do João Goulart pretendia instaurar o comunismo no Brasil com ajuda da União Soviética e de Cuba.

E como os intelectuais se organizaram após o golpe?

Cada grupo parou para avaliar a nova situação. Nós do CPC estávamos perplexos com o que tinha acontecido, ninguém esperava a derrubada do governo. No primeiro momento, procuramos garantir nossa segurança. Depois, numa segunda etapa, tentamos identificar como era o regime e o que dava para fazer. Criamos o grupo Opinião e fizemos o show com Zé Kéti, Nara Leão e João do Vale. Depois, montamos Liberdade Liberdade, uma coletânea dramatizada de 50 textos organizada por Millôr Fernandes e Flávio Rangel. Encenamos também Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come, uma parceria minha com o Vianinha. Em seguida, foi a vez de A Saída, Onde Está a Saída?, escrita por mim, pelo Armando Costa e pelo Antonio Carlos Fontoura. A peça tratava da corrida armamentista.

Roberto Schwarz afirma que apesar da ditadura da direita havia relativa hegemonia cultural da esquerda no País. Você concorda?

A questão é que a intelectualidade brasileira sempre se caracterizou por ser de esquerda. E o fato de o regime ser ilegal, nos uniu ainda mais.Tratava-se de defender a democracia, não se tratava mais de lutar por essa ou aquela tendência política. A intelectualidade passou a ter um papel muito importante na luta contra a ditadura. Ela contribuiu de maneira notável para o enfraquecimento do regime e para sua derrota.

Tudo isso aconteceu no período anterior ao Ato Institucional nº 5?

O AI-5 veio em parte por causa da atuação da esquerda. A Passeata dos Cem Mil, em 1968, levou a inquietação para as ruas. Uma coisa era a existência da Revista Civilização Brasileira e do Teatro Opinião, que atingia um número restrito de pessoas. Outra coisa foi a organização de uma passeata com tamanha proporção. A massa gigantesca de participantes assustou a ditadura.

A população demonstrou que não estava satisfeita com o regime.

Uma passeata no Rio de Janeiro, que era o coração político do País, com o conteúdo que ela tinha, deixou o regime abalado. Ficou claro que a ditadura estava desgastada e estimulou outras forças a entrarem na luta. Por isso veio o AI-5, para apertar ainda mais a repressão e reduzir as frestas das quais nos aproveitávamos. A partir desse momento, uma quantidade enorme de pessoas foi presa e processos foram retomados. O governo militar também fez isso para assustar aqueles que estavam começando a manifestar descontentamento. Por outro lado, o AI-5 deflagrou a luta armada. Alguns setores mais radicais viram a medida como o pretexto que precisavam. Não encontrando formas de brigar democraticamente, alguns decidiram partir para a luta. Uma atitude equivocada na minha opinião.

E foi possível continuar a produzir cultura engajada após o AI-5?

Nós não tínhamos ilusão de que iríamos derrubar a ditadura com nossas peças, filmes e poemas, mas sabíamos que estávamos resistindo e que isso contribuía para o enfraquecimento do regime. O fato de os militares fecharem o cerco contra os artistas não significava que tudo tinha acabado. A luta não acontecia somente no teatro, ela estava presente na sociedade. E isso foi gerando um descontentamento crescente, que provocou a derrota da ditadura em 1974. Eles perderam a eleição para senador em 16 Estados. Foram derrotados em razão da queda da luta armada, da esquerda radical, que pregava o voto em branco e nulo. Quem defendia essa atitude estava ajudando a ditadura, que ganhava a eleição com um terço dos votos e dizia que o regime era legítimo.

O governo militar criou, na década de 70, algumas instituições culturais, como a Embrafilme e a Funarte. Foi uma tentativa de se aproximar dos intelectuais?

Não se pode chamar isso de aproximação. Muitas vezes se formavam, dentro dessas próprias instituições, grupos contrários ao governo. O Brasil não se caracteriza por ser um País muito sectário. Somos tolerantes e flexíveis. Intelectuais com posições de direita eram editados pela Revista Civilização Brasileira. Alguns deles ajudaram companheiros presos a deixar a cadeia. Nem sempre o cara de direita e o de esquerda são inimigos. As coisas são mais complexas. O regime não queria acabar com o País. Eles queriam que a produção cultural continuasse a existir, só não queriam cultura comunista. Não eram loucos, não tinham a intenção de acabar com a música, o teatro e as artes plásticas. Não podemos ficar satanizando os caras e dizer que nós éramos o bem e eles o mal.

Você sofreu críticas quando afirmou que a ditadura não queria prejudicar o País?

Havia pessoas que concordavam comigo, outras não. Durante esse período, a luta da intelectualidade contra a ditadura teve duas linhas de atuação. A linha do Opinião, que reunia a Thereza Aragão e o Paulo Pontes, entre outros, e uma outra, mais radical, que queria incendiar o Teatro Municipal. Se você colocar fogo no Municipal, o que acontece? Perdemos o teatro que o Artur Azevedo lutou tanto para fazer e que é uma glória na nossa vida cultural.

Quais eram os outros pontos de dissidência?

A questão da censura era um deles. Naquela época, nós mandávamos uma peça para avaliação e o prazo para saber se ela estava aprovada era de um mês. Só na véspera da estréia eles diziam que o espetáculo estava proibido. A companhia já havia aplicado todo o dinheiro contratando diretor, atores e comprando material. Eles destruíam os grupos teatrais dessa forma. Nós desencadeamos, então, uma luta para mudar essa lei de censura. Não queríamos propor seu fim. Isso era impensável naquele momento, mas propúnhamos que o prazo passasse a ser uma semana. Nossos amigos da esquerda disseram que aquilo era uma bobagem, que tínhamos de lutar para acabar com a censura. Uma postura passional, fanática e burra. O que nós propúnhamos livrava o teatro da destruição. Os caras nem iam perceber a sutileza da nossa proposta. Era um golpe de inteligência. Não conseguimos levar a idéia em frente e ganhou a ditadura.

Qual a herança desse período?

O processo cultural é muito complexo. O plano artístico é movido pelas personalidades. Não tem personalidade, não tem arte. Não é a sociedade, o processo econômico, que gera isso. É preciso ter o protagonista, sem ele nada acontece. Outro dia, uns garotos me procuraram dizendo que queriam refazer o CPC. Respondi: "O Vianinha ressuscitou? As circunstâncias são as mesmas?" Nós criamos o CPC a partir do que sabíamos fazer, não usamos nenhum modelo. É preciso fazer uma coisa criativa, que tenha seu próprio espaço, que reflita seu próprio tempo.

Períodos de ditadura são culturalmente mais efervescentes?

Há nesses regimes uma série de fatores que mobilizam as pessoas. A necessidade de superar um problema cria a necessidade de se expressar, de criticar e de buscar alternativas. Esses elementos podem ajudar a gerar uma produção artística importante. Mas isso é mérito dos artistas, não da ditadura. Se tiver ditadura e não tiver artistas de talento não vai acontecer nada. Tínhamos o regime militar, mas tínhamos o Vianinha, o Paulo Pontes, o Chico Buarque, o Caetano e o Glauber Rocha.

Pensando 1964
CCBB Rio de Janeiro
De 23 a 26 de março
Entrada franca – senhas distribuídas com meia hora de antecedência
Rua Primeiro de Março 66. Centro.
Tel: (21) 3808-2020
E-mail: ccbbrio@bb.com.br

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