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05-06-2008
Cartunista pernambucano Terciano Torres reconstitui com o seu traço de estilo barroco a evolução histórica e cultural de capitais como São Paulo, São Luiz e Recife CAROL ALMEIDANo liga e desliga dos sinais vermelhos e no passo atrasado das pessoas que vão e vem sem notar os tilojos se amontoando um por cima do outro, a cidade passa a ser um verbo em um presente contínuo, o ‘estar sendo’ sem nunca ter de fato começado em algum ponto ou vislumbrado um extremo final. Até porque, mesmo com seus documentos históricos, a cidade quase nunca é pensada por seus cidadãos como algo que um dia não existiu. Terciano Torres, recifense residente em São Luiz, têm passado esses últimos dez anos tentando dar imagem a essa desmemória urbana, desenhando cidades brasileiras em sua cronologia de construção e desconstrução. A primeira dessas cidades a chegar às livrarias foi São Paulo, que em janeiro deste ano ganhou uma edição inteira dedicada à descrição ilustrativa dos 450 anos do Pátio do Colégio, onde a cidade nasceu. Lançada pela Globo em um grande álbum, graças naturalmente às comemorações do aniversário paulistano, o livro é, na verdade, um prefácio do que deverá ainda vir mais adiante: “Já fiz esse mesmo processo de acompanhamento histórico com o Viaduto do Chá, o Teatro Municipal, a Praça da Sé e o antigo centro econômico de São Paulo. Nada foi definido ainda com a editora, mas espero esses trabalhos também possam ser publicados em breve”, espera Torres. O relacionamento do cartunista com as cidades chega a se tornar uma obsessão no trabalho de Terciano Torres. Tudo começou quando, pouco antes de 1997, São Luiz alçou o posto de Patrimônio Cultural da Humanidade e, em um trabalho para o jornal O Estado do Maranhão, ele desenhou vários pontos da cidade em um trabalho de reconstituição. Também em São Luiz ele começou a desenvolver o conceito de cartum postal, nome aliás, de sua empresa com maiúsculas. Em quase todos os locais do País, não necessariamente centros urbanos, ele procura pontos turísticos para serem trabalhados como se fossem cartões postais ilustrados e, de uma certa forma, didáticos da cultura local. Com São Paulo, assim como em outras capitais brasileiras, Torres optou por tomar um ponto de partida para analisar o crescimento e as mudanças históricas da cidade. Através de quadros, fotos e um “pouco de licença poética” segundo o autor, o livro ganhou um perfil documental sem, no entanto, perder a leveza do cartum. Os personagens desenhados no meio das tantas referências visuais – o autor trabalha em um estilo barroco de ilustração, preenchendo todos os espaços – são muitas vezes figuras emblemáticas da história paulista, como Ruy Barbosa, Monteiro Lobato e Maurício de Sousa. O mesmo processo de reconstituição histórica foi utilizado pelo cartunista com a cidade do Recife. Trabalho que, ao contrário da experiência com São Paulo, ainda não arrumou quem patrocinasse sua publicação. “Deixei todo o projeto e as ilustrações na Prefeitura do Recife, mas ninguém se interessou e eu peguei tudo de volta no ano passado”, afirma Torres. Na capital pernambucana, o autor optou por escolher o Marco Zero como seu foco de atenção. Lá também passam personalidades ilustres como Maurício de Nassau, Joaquim Nabuco, Lampião, Capiba e outros. A idéia de aplicar o cartum como ilustrador do tempo também foi usada em outras duas capitais: Salvador e Rio de Janeiro. Na primeira, o ponto de partida seria a região próxima ao Elevador Lacerda, e no segundo o Morro do Castelo. Ainda sem planos (e propostas) para publicar esses trabalhos nas respectivas cidades, Terciano Torres pretende passar mais algum tempo envolvido com o projeto do Pátio do Colégio. Além de ter conseguido colocar uma exposição permanente no Museu de Anchieta, que hoje ocupa o local do antigo Pátio do Colégio, Terciano estará esta semana em São Paulo definindo com a editora a possibilidade de lançar na Bienal do Livro de São Paulo, que acontece no próximo mês, o mesmo álbum em uma versão de luxo com todas as ilustrações coloridas. Uma dessas páginas em cores você pode ver ao lado, em publicação inédita. Para o Recife, o cartunista desenvolve também um trabalho de lançar um painel com todo o mapa das cidades do Recife, Olinda e Jaboatão. São Paulo – Pátio do Colégio – Preço médio: R$ 75 (© JC Online) Casa 21 traça roteiro sentimental com série Cadernos de Viagem O hábito de desenhar cidades certamente é um registro sem data na história da humanidade. Afinal de contas, milênios se passaram até que o flash da máquina fotográfica fosse disparado. Mesmo assim, entre quadrinistas e cartunistas, não são muitos o que projetam o cenário de fundo como personagens principais de suas histórias. Mas, aqueles que o fazem, costumam provocar um certo glamour urbano em suas obras.No Brasil, existe um projeto em andamento desde 2001 cujo maior objetivo é transformar cidades brasileiras e seus pontos turísticos em imagens sentimentais desenhadas por renomados quadrinistas do mundo inteiro que são convidados para passar um tempo na cidade em questão. O Cadernos de Viagem, organizado pela editora Casa 21, conseguiu publicar até agora dois álbuns e pretende fazer um mapeamento do Brasil nos próximos anos. Rio de Janeiro e Belo Horizonte foram as capitais desenhadas, respectivamente pelo francês Jano e pelo espanhol Miguelanxo Prado, duas assumidades internacionais nas histórias em quadrinhos. “Para este ano, estamos começando a trabalhar com Salvador e Curitiba”, antecipa Roberto Ribeiro, um dos sócios da Casa 21. A primeira será desenhada pelo brasileiro (residente em Barcelona) Marcelo Quintanilha, e a segunda já está sendo trabalhada pelo carioca César Lobo. Para Recife, Ribeiro explica que planeja, ainda para 2005, a vinda do francês Nicholas de Crecy. “Sei que ele já esteve no Recife para desenhar a cidade, mas essas ilustrações foram para uma revista francesa chamada Geo. Pensei em usá-lo no Recife de novo”, diz ele. Não há nada confirmado também sobre São Paulo, mas fala-se no grande mestre Will Eisner para assumir esse papel. Os livros da série Cadernos de Viagem podem ser comprados pela Internet no site www.quadrinho.com/casa21/cadernosdeviagem/jano/venda.html. (C.A.) (© JC Online)
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