|
05-06-2008
Peraltices do compositor divertiam amigos que andavam às voltas com suas maluquices. "Tudo o que eu quero da vida é descobrir o segredo dela" O capitão Garfo acaba de conseguir mais uma missão vitoriosa: colocou as bonecas da pequena Vivian no congelador. Raul Seixas usava um garfo no lugar do gancho e dessa forma se transforma num assustador capitão. "No dia seguinte, minha mãe encontrava as bonecas congeladas", lembra a filha de Raul, hoje, aos 22 anos, estudante de publicidade e DJ. O pai brincalhão também gostava de catar formiguinhas no escuro, com uma lanterna, guardando as caças dentro de um pote. Coisa de criança, da criança que Raul Seixas manteve viva em si. Ou, então, ele não faria a brincadeira do Queixada: colocava o queixo para frente e ficava cheirando o próprio hálito. Ugh! Era isso mesmo. "Tô testando", dizia para quem tentava entender, segundo Jerry Adriani. Raul Seixas, moleque maravilhoso, anjo travesso, aprontou muita malandragem de gerar gargalhadas. Era um humorista e um filósofo, um brincalhão e um estrategista. Mesmo nas horas difíceis, já doente, de vez em quando demonstrava não ter perdido seu "humorzinho às vezes apimentado", segundo Sylvio Passos. Foi um grande e original humorista, na concepção de Pigrilli, autor lido na juventude: foi um garoto que atravessou "cantando os quartos escuros, para esconder de si mesmo o seu medo". Raulzito mentia em casa e na escola para curtir a música. Em 1959, chegou a faltar 138 das 600 aulas, quando o Colégio São Bento o reprovou pela segunda vez na segunda série do ginásio. Em casa, os pais não souberam de nada porque ele e o único irmão, Plínio, falsificaram as cartelas de presença. Peraltice de dois meninos sufocados pela obrigação escolar. "Raulzito geralmente ia para a loja Cantinho da Música, na Rua Chile. E eu, às vezes, subia num pé de jambo perto da escola e ficava a manhã inteira lá", lembra o irmão, hoje engenheiro elétrico, auditor fiscal e pai de três filhos. Os pais de Raulzito tinham um sítio na antiga Feira Velha, hoje Dias D´Ávila. Lá, ele aprontou muitas coisas. Fez uma caverna no quintal, esconderijo para as aventuras da juventude transviada. Até o primo José Walter Mendonça Seixas, o Zeva, que havia entrado no buraco para acabar com a maluquice, acabou aderindo. Aliás, Raul adorava se meter em enrascadas e levar outros junto: Os Panteras entravam com o carro no rio e em cima dele ficavam se divertindo. Para sair dali, só com um trator. Com os Panteras, "Raulzito gostava de vestir terno e ir tomar banho assim", conta o baixista dos Panteras, Mariano Lanat. No Rio de Janeiro, o cantor avisava aos amigos que ia ficar doente "por uns dois dias". E ficava: ia para a cama, erguia o cobertor até o pescoço e não saía de lá. Passava assim o tempo todo, Edith dando sopinha na boca e Os Panteras num misto de preocupação e riso. Perguntavam o que ele tinha e a resposta era rápida e vaga: "Tô mal. Tá doendo tudo...Tudo, tudo...". Depois dos dois dias prometidos, se levantava como se nada tivesse acontecido. Passando fome Também nessa época, no Rio de Janeiro, Raulzito deu um jeito para o pai não ficar preocupado com o estado calamitoso das finanças. Eles praticamente passavam fome. O dinheiro dava para um sanduíche por dia, mas, nas cartas para a família, as notícias eram de contratos com gravadora, apresentações agendadas, como se Raulzito tivesse virado um ilustre cantor conhecido. Com a visita do pai, ficaria visível o "aumento" que o filho deu à situação real. Mas a estratégia em mente para não preocupar o pai deu certo. Pediu emprestado o carro da irmã de Mariano Lanat e fez do guitarrista Eládio o motorista, de terno e tudo. "Estou bem, pai. Comprei até esse carro para Edith. Contratei motorista para deixá-la passear pela cidade", teria mentido Raulzito. Mentido não, fantasiado. Raulzito teve uns pactos meio estranhos com o primo Zeva: um era obrigado a assistir aos filmes que o outro gostava. E eram muito diferentes. "Eu me sacrificava muito mais, porque tinha que assistir a todo filme de Elvis", conta. "Ele era americanista, eu sempre fui mais ligado às coisas da URSS", explica. O outro era voltar da vida após a morte para contar como é por lá. "Estou esperando até hoje", ri o primo. Na hora de dormir, Raul gostava de botar medo em Zeva: "Começava a dizer que ouviu uns barulhinhos lá fora, inventava umas histórias e conseguia me sugestionar. Eu ficava com muito medo. Ele também", conta Zeva, e ri: "Ele era um louco terrível..." O exorcista Festa de casamento de Jerry Adriani, com pouquíssimos convidados, só a família e olhe lá. Raul Seixas foi sem avisar. Subiu ao apartamento vestido todo de preto e bem animado. De repente chegou na portaria o padre Miguel, um cearense meio brabo, e não conseguiu subir porque o porteiro já havia registrado a entrada do "padre". Desfeita a falsa identidade, Raul teve de pagar pela brincadeira: virou o "coroinha". "Ele ficava incomodando o padre, repetindo o que ele dizia", lembra Jerry. Aporrinhou tanto que o pároco não agüentou e exclamou de repente: "Tragam-me um balde d`água que esse homem precisa ser exorcizado!". Uma vez, Raul pediu a Jerry que o escondesse da polícia, nos tempos de perseguição política. Jerry mora com a mãe até hoje, e a vida em casa é bem tranqüila, familiar. Depois de uma semana, Raul sumiu sem avisar. Ficou dias sumido. O amigo saiu à sua procura pela cidade. De repente, viu uma barba ruiva bem conhecida dentro de um táxi. Era Raul. Quando ele percebeu Jerry, encolheu-se todo no carro e deixou só os olhos para fora, assustado. Depois, deu a explicação: "Cumpádi... eu não agüentava mais aquela tranqülidade da sua casa. Estava me matando". Salva-vidas Embora absurdo a olhos nus, esse causo é menos engraçado e mais filosófico. Em 89, Raul Seixas já muito doente, inchado e triste, quase não via ninguém. Quando recebia visitas, ficava muito calado. Certa vez, o amigo Toninho Buda passou um tempo com ele e já estava indo embora quando Raul chamou. Foi buscar uma coisa e trouxe um colete salva-vidas. "Toninho, toma esse salva-vidas porque São Paulo está muito perigosa", avisou. Também dessa época, eram as "sessões de arrozinho" na televisão: de vez em quando Raul inventava de assistir à tela fora do ar. Sylvio Passos participava dessa bizarrice e explica: "Nós ficávamos uma hora, uma hora e meia vendo o filme que queríamos ver, montando as imagens. Chega de imposição, pensávamos", conta. (© Correio da Bahia)
|
||
|
||
© NordesteWeb.Com 1998-2004