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05-06-2008
Monique Gardenberg conta que tenta superar morte da irmã lançando 'Benjamim', que estréia nos cinemas no próximo dia 2 Rodrigo Fonseca Negociar uma trégua com a saudade não é simples. Mas, ao finalizar os preparativos de lançamento de Benjamim (Brasil, 2004), previsto para o próximo dia 2 no Rio, a cineasta baiana Monique Gardenberg, 45, que até hoje sofre com a morte da irmã, sócia e parceira Sylvia (1960-1998), parece ter chegado a um acordo com a tristeza. Afinal, a forma que Monique encontrou para superar a mágoa foi fazendo um filme que tivesse ligações profundas com seu próprio drama e daí nasceu Benjamim. O filme, baseado em livro de Chico Buarque, traz a luta de um homem, que perdeu sua paixão na truculência do regime militar, contra o fantasma da melancolia. - Benjamim é uma love story. E implacável, já que vem do Chico Buarque. E, pra mim, filmá-lo foi um reencontro com Sylvia. Um grito de amor pela pessoa querida que perdi. É um romance que tem a história política do Brasil como pano de fundo - define a realizadora, que participou do movimento estudantil. Durante a abertura política, a diretora, que estreou no longa-metragem em 1996 com Jenipapo, promoveu concertos no Teatro de Arena da Universidade Federal do Rio de Janeiro, fechado desde 1972. - Eu me tornei adulta durante o movimento pela abertura política. Participei das últimas passeatas e dos últimos encontros escondidos durante o curso de Economia na UFRJ, de 1976 a 1980 - conta a cineasta, que confiou ao veterano Paulo José o papel de Benjamim Zambraia, cuja comovente interpretação lembra a ingenuidade do Carlitos de Chaplin. - O Benjamim é um herói romântico, todo atrapalhado, meio Chico, talvez, puro no seu amor. Benjamim, o livro, fala sobre um modelo fotográfico, Benjamin, que enxerga numa jovem, Ariela, uma semelhança perfeita com a mulher que nos anos 60 bagunçou seu coração, a rica Castana Beatriz. No filme, as duas são vividas por Cleo Pires, a filha de Glória Pires e Fábio Júnior, cuja radiante beleza deixou atônitas as platéias que viram o filme - seja o público americano do Festival de Sundance de 2003 sejam os espectadores nacionais, que tiveram a chance de conferir o filme no Festival do Rio BR, em outubro, e na Mostra de Cinema de Tiradentes, em janeiro. - Apesar de aparecer como objeto de desejo, Cleo cumpre um papel fundamental na acumulação de tensão do filme. Ela tem perfeita noção do que é atuar para o cinema, onde você não pode representar de forma alguma, no sentido de que você tem que tentar interiorizar aquilo tudo. Cleo faz cinema como veterana - elogia. Monique respeitou a opção do autor de narrar a história em dois tempos. De um lado, vem o presente, que mostra a sofrida vida de Ariela no Rio, vítima de um estupro, do assédio dos patrões, casada com um ex-policial aleijado (Guilherme Leme, em surpreendente performance), e a obsessão de Zambraia por ela. Do outro, há o passado, onde o protagonista, vivido nessa época por Danton Mello, relembra o furor que causava entre as jovens de Ipanema, até trocar todas por Castana, que acaba separada dele ao virar alvo dos militares por suas ligações com um intelectual de esquerda. É nas cenas ambientadas nos anos de chumbo que Benjamim ganha um saudável tom de experimentação estilística, já que a fotografia de Marcelo Durst e a direção de arte de Marcos Flaksman parecem recriar o tom cromático característico das fotos coloridas de revistas de moda da época. Para isso, foi utilizada película positiva Ektachrome revelada como negativo, daí resultando cores explosivas e granulação. - O Benjamim é um sujeito nostálgico. Chico criou, na narrativa, um quebra-cabeças para contar uma trama passada em dois tempos. A cada volta no tempo, ele nos dá uma nova informação que muda inteiramente o que lemos até aquele instante - comenta a cineasta, que refuta as críticas negativas à prosa do compositor de Construção. - Não acho o Chico compositor tão diferente do autor de livros ou mesmo peças. Em toda a sua obra ele é corrosivo, implacável. A tentativa de comparar o compositor ao escritor é empobrecedora. Benjamim foi ao encontro das memórias dos anos de engajamento de Monique. Lembrança bastante viva na cabeça da economista que, em 1982, quase uma década e meia antes de virar cineasta, fundou, em parceria com a irmã, uma das maiores produtoras de shows do Brasil, a Dueto. A empresa foi responsável por eventos que agitaram a cultura carioca, como o Free Jazz (1985-2001) e o Carlton Dance (1987-1997), e que trouxeram ao país astros internacionais como Madonna (1993) e os Rolling Stones (1998). Monique procurou retratar sem máscaras a ação do regime em sua caça às bruxas da esquerda, traçando ainda uma ponte com a explosão do crime no Rio hoje. - Chico aponta os grupos de extermínio como uma herança dessa direita que dominou o país, criando um paralelo entre esses grupos e as forças armadas da ditadura militar. Do mesmo modo, o filme demonstra como um sujeito ingênuo, alienado e apaixonado, passou para a história como dedo-duro e viveu o resto da vida solitário. O revanchismo da esquerda vinha na mesma intensidade com que a direita a reprimia. Desfilam em cena pérolas da balada romântica como Twilight time, na voz de The Platters, Coração de papel, cantada por Sérgio Reis, e até o hino da dor-de-cotovelo Ne me quite pas, no timbre meloso de Jacques Brel. - Jenipapo tinha um primeiro ato muito forçado, muito americanizado, pouco autoral. Muitos jornalistas não me perdoaram porque fiz o filme falado em inglês. Acho que eu nasci mesmo como cineasta em Benjamim. De repente eu já pensava cinema, a câmera parecia ser uma extensão do meu corpo e eu passei a dominar a linguagem e não mais ela a mim. Passei a criar de fato, pensar e improvisar todas as cenas na hora em que eu chegava às locações. A maturidade artística que Monique afirma ter alcançado de certa forma deriva da singular experiência da moça na direção de Os sete afluentes do Rio Ota, espetáculo teatral de cerca de cinco horas de duração que lançou no Rio em 2002. Ali, ela comandou monumental elenco, incluindo nomes como Helena Ignez, Caco Ciocler e Giulia Gam na tradução da peça do canadense Robert Lepage, lançada em agosto de 1994, que discutia a ressaca da destruição promovida pela bomba de Hiroshima no Japão em 1945, a partir de toda uma geração de personagens. - Os sete afluentes do Rio Ota me deixou mais preparada para dirigir atores. Eu pude trocar com eles, e isso ainda é possível no teatro. E me ajudou a descobrir a diferença do que é fazer teatro e fazer cinema. O teatro é uma arte amedrontadora. Só pode haver verdade, o que é dificílimo - afirma. (© JB Online)
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