05-06-2008
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Moisés Neto
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O poeta César Leal |
Evento da Prefeitura do
Recife celebra os 80 anos do poeta que lançou a Geração 65
Augusto Pinheiro
Da equipe do DIARIO
Aos 80 anos, César Leal é um homem com muitas
histórias para contar. A trajetória de adolescente do interior do Ceará a um
dos maiores poetas vivos de Pernambuco, passando por técnico de laboratório
em Belém, Manaus, Rio, Belo Horizonte e interior da Paraíba e de Pernambuco,
editor do suplemento literário do DIARIO, fomentador da Geração 65 e
fundador da pós-graduação em Letras da UFPE, guarda uma experiência de vida
que é o retrato de uma época.
Hoje, o poeta e crítico literário recebe uma homenagem da Prefeitura do
Recife pelas oito décadas de vida, no Teatro Santa Isabel, após a sessão de
autógrafo da coletânea poética Estação Recife, da qual participa ao lado de
nove colegas.
"Naturalmente eu me sinto bem. Será motivo de grande satisfação ser
homenageado pelo prefeito da minha cidade. Ele afirma que ainda não sabe se
poderá ir ao evento, pois sofre de fibrilação auricular (problema cardíaco).
César já está acostumado com homenagens. Em 1982, no mesmo ano que o
argentino Jorge Luis Borges, recebeu acondecoração, no grau de cavaleiro, da
Ordem do Mérito da República Italiana, pelo estudo Dante e os Modernos,
sobre o poeta italiano Dante Alighieri; em 1988, levou o prêmio da Fundação
Nacional Pró-Memória, de Brasília, pelo livro Entre o Leão e o Tigre; em
1987, ganhou o prêmio Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras.
ESTRÉIA - O caminho poético tão laureado começou no Recife, cidade que
adotou aos 27 anos. César vivia no interior de Pernambuco, onde trabalhava
como técnico de laboratório, e já havia publicado poemas no DIARIO quando
veio à capital para encontrar o escritor Mauro Mota a fim de evitar uma
transferência para Sergipe. Mauro conseguiu que o secretário de saúde o
convocasse para trabalhar no Recife.
César praticamente abandonou as atividades da área de saúde e passou a se
dedicar ao DIARIO. Ele substituiu Mauro Mota a partir de 1960, quando este
deixou o jornal, na coluna Diario Literário e, em 1964, tornou-se editor do
suplemento literário, onde iniciou a missão de lançar novos e jovens
talentos. Foi a partir dessa divulgação que tomou corpo a Geração 65.
"Publicava jovens poetas simultaneamente no DIARIO e na revista Estudos
Universitários. Lancei mais de 40 livros de autores pernambucanos, em uma
época em que o escritor tinha que pagar para publicar seu livro", lembra.
Em 1975, César enfrentou resistências do corpo docente e criou o curso de
pós-graduação do Departamento de Letras da UFPE. "Muitas pessoas acham que
esse trabalho poderia ter sido feito por qualquer um. Mas não. Tive que
lutar, organizei o programa e fiz até as ementas das matérias."
Todas as conquistas começaram quando o garoto de 15 anos resolveu deixar a
cidade-natal de Saboeiro, no Ceará, pois a família havia falido. "Meu grande
medo era passar toda a minha vida ali e depois morrer ali mesmo. Tinha que
procurar os ares do mundo". Para deixar o lugar, ele se ofereceu em 1940
para lutar na Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Não esperou resposta.
Pegou um pau-de-arara e foi para Fortaleza para tentar entrar nas Forças
Armadas. Foi recusado por "fraqueza orgânica de causa indeterminada".
Em 1942, fez concurso para ingressar no Sesp (Serviço Especial de Saúde
Pública), que havia sido criado em conjunto entre os governos
norte-americano e brasileiro, para dar suporte médico aos "soldados da
borracha", na Amazônia, e aos trabalhadores nas minas de ferro, no vale do
Rio Doce.
Aos 17 anos, viajou em um avião que vinha da África cheio de feridos de
guerra. No Amazonas, entrou para o Partido Comunista, o que o tornaria alvo
de perseguições. Foi transferido para o Rio, onde foi internado em um
sanatório para se curar de uma tuberculose. Terminou o tratamento em Belo
Horizonte. O então governador de Minas Gerais, Juscelino Kubistchek, enviou
uma carta para o Sesp no Rio solicitando a permanência de César no Estado. O
diretor do Rio, chamando-o de subversivo, negou o pedido. Por meio de uma
carta ao diretor do Programa Nordeste do Sesp, veio para a Paraíba e,
depois, para Pernambuco ... hoje, aos 80 anos, recebe merecida homenagem do
Recife.
(©
Pernambuco.com)
Veteranos reunidos em coletânea
A coletânea
poética Estação Recife, editada pela prefeitura, que reúne dez poetas
locais, será lançada hoje, a partir das 19h, no Teatro Santa Isabel. Os
autores são Alberto da Cunha Melo, Almir Castro Barros, Ângelo Monteiro,
César Leal, Esman Dias, Geraldo Holanda Cavalcanti, Jaci Bezerra, Janice
Japiassu, Lucila Nogueira e Severino Filgueira.
O livro é o primeiro volume de uma série que
pretende mapear a produção poética do Recife. Esta edição traz poetas
consagrados, vários ligados à Geração 65, mas haverá ainda uma coletânea
dedicada aos novos talentos.
Após a sessão de autógrafos e a homenagem a
César Leal, haverá apresentação da Orquestra Sinfônica do Recife, às 21h,
sob regência do maestro Osman Gioia, que tocará peças como Poeta e Camponês,
de Franz von Suppé, e Fantasia, de Beethoven, com participação do Coro
Universitário. Entre as músicas, os atores Alfredo Borba e Lúcia Machado
recitarão poemas do livro.
Serviço
Lançamento de Estação Recife
Quando: hoje, a partir das 19h
Quanto: grátis
Onde: Teatro Santa Isabel
"Publicando seus poemas em jornais, ele nos parecia um de nossos poetas mais
sérios, um daqueles em quem a poesia é um afluente da vida, senão a sua
fonte, mas não tínhamos uma perspectiva, uma visão segura de suas dimensões.
Isso cessou: para nós, César Leal é de agora em diante uma das figuras mais
importantes da poesia brasileira"
Osman Lins, escritor, em O Estado de São Paulo, em 1958, sobre o primeiro
livro de César Leal, Invenções da Noite Menor (1957)
"Não me parece que seja outra a maneira por que César Leal é poeta, senão
esta, muito espanhola, um tanto inglesa, meio tolstoiana, e que consiste em
o autor esboçar apenas projetos que, na execução, ele sabe que vai alterar,
cometendo não só deformações do plano a princípio traçado ou do gênero a
princípio visado como imperfeições de várias espécies -gramaticais e
outras-, algumas intoleráveis aos olhos dos críticos convencionais, mas que
tornam mais expressão do que composição a sua obra, sobretudo depois de
concluída"
Gilberto Freyre, escritor, no livro César Leal: Poeta e Crítico de Poesia
"Sua convivência cotidiana, eu diria sua impregnação orgânica, é feita com
a poesia de Dante e Mallarmé, Valéry e Camões, T.S. Eliot e Saint-John
Perse, desvendando desde logo a costela intelectualista, a poesia como
exercício de inteligência, de compreensão do mundo"
Wilson Martins, crítico literário, no Jornal do Brasil, em 1995
(©
Pernambuco.com)
As vozes poéticas de
uma geração
Fundação
de Cultura Cidade do Recife lança hoje no Teatro Santa Isabel o primeiro
volume de sua nova coleção de poesia: Estação Recife
SCHNEIDER CARPEGGIANI
A Fundação de Cultura do Recife anda fazendo um importante trabalho em
catalogar a poesia made in PE. Primeiro foi a série Marginal Recife,
priorizando os nomes que atuaram no movimento dos escritores independentes,
em meados dos anos 80, muitos deles nunca antes editados. Em maio, está
marcada para sair o volume de estréia da trilogia Invenção Recife. Nela, o
foco são os autores – não necessariamente novos ou inéditos – que estão
reformulando a produção poética do Estado.
Em meio aos marginais e os ‘inventores’, a Fundação vem com Estação
Recife, que reúne os poetas, digamos, ‘estabelecidos’ da Cidade, todos
eles com vários livros já publicados. Estão lá nomes como Alberto da Cunha
Melo, Lucila Nogueira, César Leal e Ângelo Monteiro. Organizada por Everardo
Norões, José Carlos Targino e Pedro Américo de Farias, a coletânea tem
lançamento hoje, no Teatro de Santa Isabel.
A Estação Recife é um caso clássico de ‘não tome um livro pela sua
capa’. A imagem de cartão postal que ilustra a obra – mostrando a estação
ferroviária da Cidade – recebeu um tratamento amarelado, que passa a imagem
de algo que deve ser considerado definitivo e, também, datado – dois
adjetivos que precisariam ficar de fora quando o assunto em destaque é a
poesia. Talvez na intenção de dar aos autores selecionados um certo ar de
seriedade, o projeto gráfico acabou tornando a coletânea, à primeira vista,
mais uma pesquisa arqueológica do que literária.
A capa de A Estação Recife nos colocou diante daquele velho
problema: sempre é perigoso se referir à literatura com o respeito que
alguém oferece a uma entidade ou instituição, que parece ser representada
por uma veneranda anciã vestida de negro, de olhar severo, uma bengala na
mão e uma xícara de chã na outra, com os dedos trêmulos.
O amarelado de antigo da capa destoa da reinvenção que alguns dos autores
da coletânea andaram realizando com seu texto nos últimos anos. O melhor
exemplo é Lucila Nogueira, que, em seus dois últimos livros, promoveu uma
ruptura brutal, que a afastou da tal ‘geração 65’ e a aproximou uma poética
mais pop ou para sempre high, como ela mesma gosta de dizer.
Antenados a isso, os organizadores priorizaram a Lucila dos últimos anos,
que nem de longe deveria merecer uma coloração sépia.
Se os organizadores acertaram ao focar a Lucila mais contemporânea, o
mesmo pode ser dito na repescagem de alguns dos melhores textos de Almir
Castro Barros, que desde 1998 não publica nada novo. É difícil encontrar no
Brasil - tanto entre autores mais novos quanto entre os tais ‘estabelecidos’
- poetas que consigam reunir tantas imagens em apenas quatro versos, como
fez Almir em Retrato de parede:
“Lembro de minha mãe/ que mantinha poços secos/ entre os muros das
clavículas/ e o resto do corpo era sertão.” Assim como Lucila, Almir não
merecia um tratamento em sépia. E isso também se aplica a Alberto da Cunha
Melo, Ângelo Monteiro e Jaci Bezerra.
EM HOMENAGEM – O lançamento de Estação Recife será marcado
por um recital poético e uma apresentação da Orquestra Sinfônica do Recife,
ambos prestando homenagem aos 80 anos de César Leal. Regida pelo maestro
Osman Gioia, a OSR irá executar músicas de Schubert e Beethoven. Apesar de
gratuitos, os ingressos para a apresentação devem ser retirados durante o
dia de hoje, na bilheteria do Santa Isabel.
(©
JC Online)
Leia alguns dos
textos de Estação Recife
Ritual de Espancamento (Alberto da Cunha
Melo)
Espancado para aprender
a espancar
e ser espancado,
espancado em nome de Deus
ou de um jarro quebrado,
espancado para falar
e calar
o próprio espancamento
Espancado para aprender
que homens aprendem
espancando e sendo espancados,
espancado para dizer
que não foi espancado,
espancado para morrer
pensando que o mundo
está povoado
de espancados que espancam
e espancadores espancados
Ritual de parede (Almir Castro Barros)
Lembro de minha mãe
que mantinha poços secos
entre os muros das clavículas
e o resto do corpo era sertão
Natal em Montparnasse (Lucila Nogueira)
A enorme lua oval escorre em nossas cabeças
manhã escura numa vontade obscura
não sei por que motivo entramos sem motivo
nessa tela gigante de Salvador Dali
eu e você vazios nesse carro que nos paralisa
em destaque os cigarros retorcidos
Por favor faça alguma coisa
congele a nossa imagem no controle remoto
é uma pena esse filme terminar
Mas você dorme em silêncio no vagão ao lado
e uma taça de vinho não mancha de sangue o vale
do Loire
vidro embaçado paisagem corrediça e imprecisa
esta é uma hora em que eu poderia ficar
não tenho e-mail e não respondo cartas
e um trem completamente imóvel distancia
As canções de natal em Montparnasse
Sobre um tema de John Donne (Geraldo Holanda Cavalcanti)
Quem disse "amor"
tua boca ou a minha?
Que mão colheu
da boca o beijo?
Quem se perdeu
dentro do outro
e não voltou
do seu abraço?
(©
JC Online)
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