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A bênção, Dorival Caymmi

05-06-2008

Fernando Rabelo

 Dorival já ouviu o disco que Danilo, Dori e Nana gravaram e vão lançar no Canecão, no dia do aniversário, 30 de abril, e depois em DVD.

 

Abrindo as comemorações dos 90 anos do pai, Nana, Dori e Danilo deixam seus estilos de lado para gravar homenagem definitiva e reforçar a importância do baiano para o samba

Helena Aragão

   A reverência à obra do patriarca Dorival Caymmi sempre esteve presente na vida dos filhos Nana, Dori e Danilo. Além de participar dos discos familiares, ao longo das suas carreiras cada um delles interpretou obras do cancioneiro do pai, escolhidas de acordo com suas personalidades. Enquanto Danilo grava clássicos e, quando pode, compõe com o velho baiano, Nana faz um casamento perfeito de seu vozeirão com os sambas-canção. Dori prefere desconstruir harmonias, sobretudo das canções praieiras. Nem sempre com aprovação paterna.

   - Ele não gosta quando se inventa demais em cima de suas canções. Não reclama, mas também não aprova - conta Dori.

   Pensando nisso, eles se reuniram para fazer o que deve ficar como o mais importante da penca de tributos aos 90 anos que Dorival completa em 30 de abril. Seguindo à risca a receita de simplicidade do pai, Dori largou os improvisos, Nana economizou na voz e Danilo abandonou a flauta para fazer de Para Caymmi (Warner) um disco bem ao gosto do homenageado. No repertório, o samba, gênero que talvez menos tenham registrado em seus discos solo.

   - É uma bênção ver papai chegar a esta idade lúcido, dando esporro em todo mundo. Por isso, não podíamos fazer um disco com as canções praieiras. Tinha que ser algo para cima, para todo mundo cantar, tomar aquele porre, fazer churrasco. Sabe aquela coisa de pobre? - brincou Nana, causando uma gargalhada generalizada que se repetiria por muitos momentos da entrevista que reuniu os três, anteontem, na cobertura da Torre do Rio Sul, em Botafogo.

   Apesar de imperar a ironia bem-humorada a la Caymmi - herdada, dizem os próprios irmãos, da matriarca Stella -, o tom da conversa foi atípico: a maledicência, tão cara aos três, sobretudo a Dori, foi barrada, para não desviar o foco da festa.

   - Estou me coçando para falar mal de todo mundo, mas Tia Nana proibiu - brincou Dori.

   A bela vista do Rio contrastava com o menu de acarajé, vatapá e sururu servido por baianas a caráter no almoço que seguiu a entrevista. Para desespero dos irmãos:

   - Reforça aí, pelo amor de Deus, que somos cariocas. Não aguento mais ser considerado baiano - continuou o violonista.

   - Aliás, fizemos o disco com um pé no samba carioca, com um pessoal bem fera do Rio para fazer a cozinha. Foi um bom momento, já que a A vizinha do lado está um sucesso na novela Celebridade, mas pouca gente sabe que é de papai - completou Danilo.

   Depois do almoço, um pocket-show para jornalistas mostrou um pouco desse espírito alegre do disco. Violão simples e percussão reforçada fizeram a cama para as três vozes potentes reverenciarem, em uníssono, pérolas como Maracangalha, Eu não tenho onde morar e a menos conhecida Severo do pão. Uma prévia do espetáculo que vai reunir a turma no Canecão, exatamente no dia do aniversário de Dorival - e será registrado em DVD.

   - Vai ser uma festa, mas acho muito difícil o velho ir. Ele está em Pequeri (em Minas), duvido que queira sair daquela paz. Além do mais, ele fica confuso quando tem muita gente falando junto - contou Nana.

   Os três irmãos vão subir ao palco com a alma lavada. Mesmo com a ausência de Dorival na platéia, eles sabem que o objetivo maior do disco foi alcançado: o pai já ouviu as faixas, de surpresa, pois nem sabia que o disco estava sendo feito.

   - Ele chorou. Para o nosso alívio, de emoção - conta Dori.

   As lágrimas de Dorival fecham com chave de ouro uma realização complicada. Não foi fácil superar as divergências que um projeto familiar causa. Dori, por exemplo, era contra a gravação de sambas.

   - Ficava um martelinho na minha cabeça: ''Samba não!'' Mas isso só prova que sou um cretino. Estava afastado desse repertório há tempos e levei uma lição.

   O estalo aconteceu nos ensaios, quando viu os percussionistas cantarem as letras de cabo a rabo.

   - Fiquei emocionado. Foi aí que concluí que papai é um nome fundamental para o samba no Brasil. O Noel é o pai do samba carioca, e o Dorival, responsável por esse registro musical da Bahia que não existe mais. Se o Donga fez o Pelo telefone, ele fez o que representa o Pelo fax e, se não tivesse aposentado, faria o Pelo e-mail - brinca.

   Outro capítulo da saga foi garantir uma gravadora que comprasse o projeto.

   - Os músicos gravaram sem saber se seriam pagos. Se eu fosse mais nova, ia com cada um para aquele motel, o Vip's. Graças a Deus, a Warner se interessou. Fizemos o disco rápido, porque queríamos ser os primeiros de uma lista de homenagens que vem por aí - observa Nana.

   Ela tem razão. No fim do mês, a fila anda com o relançamento da caixa da EMI (cuja primeira versão é de 2000), composta de boa parte dos discos de Dorival. Em junho, é a vez de os discos do projeto Songbook voltarem às lojas. Há também o recém-produzido disco Caymmi, 90 anos: mar e terra, com gravações de vários intérpretes. Isso sem contar as homenagens oficiais que já pipocam no Rio e em Salvador.

   - Aliás, deixa eu dar um recado aí para o meu ex-marido, o ministro Gilberto Gil: você foi muito delicado em dar uma medalhinha em homenagem ao papai recentemente. Mas convenhamos, Dorival merece muito mais. ''Faça por ele como se fosse por mim'' - falou Nana, citando um verso de Ismael Silva e mostrando que, pelo bem de Dorival, o escracho pode voltar à tona.

(© JB Online)


Caymmi em variações

Coletânea e disco dos filhos cumprem papel de tributo

Tárik de Souza

   Apesar de terem gravado os coletivos Caymmi's grandes amigos (1986), Dori, Nana, Danilo e Dorival Caymmi (1987) e Família Caymmi em Montreux (1991), é a primeira vez que os filhos músicos do patriarca Dorival engajam-se sem ele num trio vocal para revisar parte de seu repertório. Para Caymmi, de Nana, Dori e Danilo - 90 anos (WEA) aproveita a efeméride redonda do compositor para alinhavar 20 de seus sambas, alguns condensados em pot-pourris, nas vozes harmoniosas de timbres inusitados de Nana, Dori e Danilo Caymmi. A mesma Nana, em duos com Nelson Gonçalves num pot-pourri de sambas canções (Não tem solução, Só louco, Nem eu), gravado em 1987, integra a compilação Caymmi 90 anos - Mar e terra (BMG), CD duplo que captura da polifonia vocal dos Anjos do Inferno (Dora, 1947) a recente Maria Bethânia, em grande forma, extraindo o suprasumo do genial fiapo de samba Maricotinha, em gravação de 2001.

   A coletânea assusta no início com a versão descalibrada do Trio de Ouro (na formação de 1950, já sem Dalva de Oliveira) para O mar e a pálida releitura de Baby Consuelo de Dois de fevereiro, num clima meio axé, gênero que o autor abomina. Caymmi ainda é desfeiteado em Roses and roses (Das rosas, em versão de Ray Gilbert que emplacou nos States na voz do cantor Andy Williams, em 1965). Ele contracena com a diva do jazz Sarah Vaughan e seu nome não consta nem da ficha técnica nem do encarte. Há outros momentos menos inspirados como o anêmico Milagre do Grupo Fundo de Quintal, de 1990, ou o empostado Você não sabe amar de Francisco ''El Broto'' Carlos, de 1950. Mas a coletânea recupera-se na pungente Oração de Mãe menininha por D. Ivone Lara (1993), Sodade matadera, na viola e voz de Almir Sater (1996), Nem eu por uma Angela Maria límpida e sem arroubos em 1953 e Só louco por Gal Costa, idem, em 1997.

   Também brilham os subestimados modernistas vocais Titulares do Ritmo em Rosa morena, Fafá de Belém no simbólico Tomei um ita no norte (1993), Sérgio Ricardo em Maracangalha e principalmente o inusitado e jazzistico encontro de Angela Rô Rô e a guitarra de Helio Delmiro em Nunca mais, façanha do falecido produtor Almir Chediak.

   Já o encontro vocal do trio de Caymmis também produz alguns estranhamentos: uma pirâmide de vozes onde a cereja do bolo é o timbre cortante de Nana, contraponteado pelo cálido Danilo e um Dori um tanto na retranca. Mas a ele cabem os arranjos (e um dos violões) na medida, adaptando o samba de sotaque baiano de Dorival para uma linguagem mais carioca, coloquial, guardando algum parentesco instrumental com o choro, especialmente pelos bandolins dos ases Pedro Amorim e Ronaldo. Embora mais populosa (Jurim Moreira, bateria, Gordinho, Don Chacal, Marcos Esguleba e mais Beloba e Ubirany) a percussão também é usada com parcimônia.

   O repertório, como não podia deixar de ser, é impecável, já que Dorival Caymmi, apesar de ter uma obra considerada pequena (na verdade são 120 composições, não é tão pouco assim) fez um controle rigoroso da qualidade de sua produção. Desfilam no CD os megaclássicos Eu não tenho onde morar, Rosa morena, Maracangalha, O que é que a baiana tem, Saudade da Bahia, O samba da minha terra (de onde saiu o verso que virou ditado popular, ''quem não gosta de samba/ bom sujeito não é/ é ruim da cabeça ou doente do pé'') e outros menos evidentes, mas também muito conhecidos, como Acontece que eu sou baiano, Requebre que eu dou um doce, Um vestido de bolero, Vatapá, Lá vem a baiana, Dois de fevereiro, São Salvador, O dengo que a nega tem, Eu cheguei lá e mais. O sincopado Severo do pão, gravado apenas em 1987, é a única pérola obscura do garimpo onde só há jóias.

(© JB Online)


Quem não festeja Caymmi bom sujeito não é

Hagamenon Brito

   Está aberta a temporada de festas para os 90 anos de Dorival Caymmi, dia 30 de abril. Apropriadamente, os filhos saem na frente com o lançamento do álbum Para Caymmi de Nana, Dori e Danilo - 90 anos (Warner Music), no qual interpretam sambas clássicos do patriarca, um dos pilares da construção da canção brasileira.

   "A idéia foi minha. Peguei o livro Cancioneiro da Bahia, de papai, selecionei alguns sambas, e chamei Dori, que mora em Los Angeles, e Danilo. A intenção era pôr o acompanhamento típico do samba carioca nas canções, misturando o samba baiano com o carioca", explica Nana, 63, nascida no Rio, assim como Dori, 57, e Danilo, 55.

   A festa de lançamento do CD aconteceu anteontem, na cobertura do Shopping Rio Sul, com entrevistas, almoço típico baiano e pocket show do espetáculo que estréia dia 30 de abril no Canecão, quando será gravado o DVD. Na Bahia, o show deverá ser apresentado no Teatro Castro Alves (para convidados) e na praça Castro Alves.

   Em Piqueri, cidade mineira da esposa-musa Stella e onde Caymmi encontra-se, o patriarca ouviu e aprovou o CD, o que não é fácil, dado ao perfeccionismo com a sua obra. "Eu chorei quando ouvi e vocês não viram", falou, lembra o arranjador Dori. "Como papai não gosta de demonstrar emoção desse jeito, nós ficamos muito tocados".

   Produzido por José Milton, o tributo familiar inclui pérolas como Acontece que sou baiano, O samba da minha terra, Você já foi à Bahia?, Requebre que eu dou um doce, Lá vem a baiana, A vizinha do lado (redescoberta através da novela Celebridade), Dois de fevereiro, Saudade da Bahia, Rosa morena, São Salvador e 365 igrejas.

   "Foi difícil escolher. Ficaram de fora Doralice e Adalgisa. Dori pensou em Oração da Mãe Menininha, que também não entrou. Eu já gravei um disco com as canções praieiras de papai, O mar e o tempo/2003. E quero fechar a trilogia com o repertório de sambas-canções", afirma a despachada Nana, não escondendo a ambição de ser a intérprete-símbolo do pai.

   Nana é a mais baiana dos filhos de Caymmi. "Ela devia morar em Salvador. Toda vez que vai à Bahia volta com quilos de farinha de Nazaré e camarão seco. É um cheiro danado e a gente ainda tem que carregar", brinca Dori. "E eu vou agüentar carregar dez quilos de farinha? Graças a mim é que ainda se come comida baiana em casa", retruca a irmã.

FICHA
Disco: Para Caymmi de Nana, Dori e Danilo - 90 anos
Artista: Nana, Dori e Danilo Caymmi
Produção: José Milton
Gravadora: Warner
Preço: R$35 (em média)

*O jornalista viajou ao Rio a convite da Warner Music

(© Correio da Bahia)


Filhos recriam os sambas de Caymmi

Hugo Sukman

   Dorival Caymmi não chega a esculhambar, não é de sua índole. Mas não gosta e prefere até ignorar quando alguém pega uma canção sua e, segundo os otimistas, faz uma releitura. Deturpação, para os pessimistas.

   — Mas desta vez papai ouviu, chorou, e guardou o disco com ele — orgulha-se Dori, o filho-maestro, que, por ser justamente o grande arranjador, chegado a umas modernidades e a encher as canções de acordes inusitados, é o primeiro a mexer na música do pai e a (não) ouvir, volta e meia, a esculhambação da indiferença.

    Dorival chorou ao ouvir “Para Caymmi de Nana, Dori e Danilo” (Warner), disco que os filhos fizeram à guisa de presente para os seus 90 anos, que se completam em 30 de abril com direito a show do trio no Canecão e gravação de DVD. Idealizado por Nana, o CD concentra-se exclusivamente nos sambas de Caymmi, 20 deles agrupados em 14 faixas.

   — Peguei no “Cancioneiro da Bahia” só os sambas, aqueles que a gente ainda não tinha cantado juntos — diz Nana, que vem de lançar “O mar e o tempo” (sobre canções do pai) e anda imbuída em reforçar, com novas e sucessivas gravações, a imortalidade da obra de Caymmi. — Não é um presente para ele, mas para nós, para os netos, para todo mundo. Estamos fora do rádio, da TV, então somos nós mesmos que precisamos levar a música dele para as novas gerações.

Trio vocal e percussão carioca dão o tom do disco

   Nana ilustra essa necessidade de manter a música de Caymmi viva o tempo todo com uma história de um paradoxal sucesso. Uma bisneta de Caymmi ouviu “A vizinha do lado”, música na voz de Carol Saboya das mais tocadas da trilha sonora de “Celebridade”, onde aparece cada vez que Jaqueline Joy requebra, e simplesmente não sabia que era de Caymmi.

   — Se aos 90 anos, depois de tanto tempo, papai ainda faz um sucesso tão espontâneo, é porque a música dele é mesmo eterna — diz Nana.

   A forma com que os sambas foram gravados ficou a cargo de Dori, com mais uma sugestão de Nana: que os três irmãos formassem um trio vocal, tendo como modelo o velho Trio Irakitan.

   — Lembro-me da festa dos meus 18 anos, do Trio Irakitan lá em casa, sempre gostei de vocal e papai também — diz Nana.

   Mas ao contrário de grupos vocais brasileiros de antanho, de Quatro Ases e Um Coringa a Os Cariocas, com suas harmonizações vocais complexas, Dori optou pela simplicidade, ele e Danilo fazendo as vozes graves, Nana, como raramente faz, explorando os agudos.

   — Fazemos em uníssono mesmo — admite Dori. — Adoro vocal, lembro-me de chegar na casa do Luiz Eça e entrar de gaiato num arranjo vocal. Luizinho não podia ver três pessoas juntas e já ensaiava um vocal...

   Galhofeiros, Nana, Dori e Danilo imitam os arranjos vocais da época da bossa nova. No disco, entoam os sambas do pai de forma leve, simples. E, dando o molho que confere toda a modernidade do disco, com a percussão de samba feita por músicos cariocas, feras do samba do Rio como Beloba, Esguleba, Gordinho, Don Chacal.

   — Uma das coisas que mais me emocionou foi chegar aqui e ver como os percussionistas cariocas conhecem e cultuam a obra do papai — diz Dori, que como Nana e Danilo é do Rio, cidade de adoção do próprio Dorival.

   A harmonia vocal do trio de filhos e a percussão carioca é que fizeram Dorival chorar.

(© O Globo)


Novos caminhos para velhas canções

   Mordaz como sempre, Dori Caymmi costuma dizer que é seu pai, ao lado de Noel Rosa e Ary Barroso, um dos inventores do samba. O Donga de 1917, do “Pelo telefone”, fazia outra coisa.

   Ao se ouvir, de cara, “Acontece que eu sou baiano”, faixa que abre “Para Caymmi de Nana, Dori e Danilo”, é impossível não concordar com Dori.

   Dorival é como o próprio samba: originário da Bahia, descobriu no Rio sua verdadeira linguagem. O samba moderno, como nós o conhecemos, é samba no Rio e a partir do fim dos anos 20. Donga e a turma da Tia Ciata faziam pontos, maxixes, etc. Na Bahia, faziam-se batucadas, sembas, etc. Samba é coisa dos morros, dos subúrbios, das rádios e gravadoras do Rio de Noel, Ismael, Paulo da Portela, etc.

   Por motivos simplesmente estéticos, porque soa mais bonito e ao gosto de Dorival, Dori fez os sambas de Caymmi, normalmente de temática baiana, de forma carioca. Sem querer (querendo) põe Caymmi no seu lugar de direito, o de um dos pais do samba brasileiro.

   “Vatapá”, “Você já foi à Bahia?”, “Lá vem a baiana”, “Saudade da Bahia”, “Trezentos e sessenta e cinco igrejas” e tantos outros ficam tão naturais em arranjos calcados num semi-regional de violão, violão de sete e bandolim, e percussão carioca (Beloba, Esguleba, Don Chacal, Gordinho e Ubirany) que o mito do Caymmi como encarnação da Bahia quase se reduz a um lugar-comum.

   É claro que se trata de um exagero crítico, Caymmi é e será sempre o tradutor estético de uma Bahia que ele conheceu criança e que é origem da nacionalidade. Mas, sofisticados como só, harmoniosos como quem já nasceu cantando juntos, Dori, Nana e Danilo abrem caminhos novos, mesmo com velhas e deliciosas canções. Não há presente melhor para um artista do tamanho de Dorival.

(© O Globo)


Puro Caymmi

Symona Gropper *
Rio de Janeiro

  
   A mandona Nana, o brincalhão Dori, o tímido Danilo. Três irmãos, três jeitos de ser, três jeitos de cantar. Três vozes que herdaram a musicalidade e o tom grave do pai, o cantor e compositor Dorival Caymmi, que completa 90 anos no dia 30 de abril. Três vozes que se reuniram para fazer um CD que fosse um presente de aniversário e que servisse para “poupar o papai das comemorações”, explica Nana. “Papai tá velhinho e tem sempre uma pessoa que abraça e o derruba no chão”, acrescenta Dori.

   O CD - Para Caymmi de Nana, Dori e Danilo – 90 Anos – foi lançado segunda-feira no Rio de Janeiro, em meio a um almoço de comida baiana, com direito a um minishow dos filhos de Caymmi, muito aplaudido pelos jornalistas, radialistas, principais lojistas do País, o pai-de-santo Célio (que providenciou as baianas típicas) e toda a cúpula da gravadora Warner. Diante da importância dos convidados, Dori, dono de um humor delirante, não resiste: “Alguém tem o telefone de Bin Laden?”
 
   SIMPLICIDADE – “Eu chorei, mas vocês não viram”, admitiu Dorival Caymmi, para o filho Dori, depois de ouvir o CD lá em Pequeri, Minas Gerais, onde mora com Stella, sua mulher de toda a vida. O CD foi idéia de Nana, que chamou os irmãos e garante que o faria com recursos próprios se a Warner não tivesse comprado a idéia. Sem contar que ela sabia que “quem tem material de Caymmi vai botar uma capinha nova e relançar”. Resolveu se antecipar a isso, fazendo um produto novo, só dos sambas do pai.

   “Este é um presente que estamos dando ao velho. Não tem compromisso com estética ou com inovação, nem tem muito arranjo”, explica Dori, um arranjador sofisticado que optou por respeitar a música e o jeito de cantar de Caymmi, porque “o papai não gosta de modificações melódicas nem de mudanças no andamento”.

   Totalmente dedicado aos sambas de Caymmi, o disco resultou numa mistura bem-dosada do samba baiano com o samba carioca (os três filhos nasceram no Rio de Janeiro – Nana no Grajaú, Dori no Andaraí e Danilo no Leblon).

   Sempre mandona, foi Nana quem decidiu que o canto dos três seria em uníssono, fugindo do vocalize em que eram entoados os sambas de Caymmi nas décadas de 30 e 40. Os três timbram bem juntos - Dori e Danilo nos baixos, Nana sustentando os agudos. Há também momentos de solos, que permitem a cada um mostrar o seu canto.

   ETERNIDADE - “É um craque, esse rapaz, o Dorival”, brinca Dori, referindo-se ao pai, que inclui numa “trilogia imbatível, que tem uma história pra contar: Dorival Caymmi, Ary Barroso e Noel Rosa”.

   “Este é um disco para não esquecer, porque é muito fácil esquecer no Brasil”, observa Nana. Além de ser um disco histórico. “Noventa anos não é qualquer pai que faz, muito menos um pai assim, com esse talento todo”.

   Por enquanto, Caymmi não foi esquecido. “Cada vez que pinta uma novela global, o pai tem que ir trabalhar”, lembra ela. Danilo, seu parceiro nessa área, bota “um acelerador de baiano nele” e geralmente pede a Caymmi que escreva umas quadrinhas para ele musicar. Sem contar as canções antigas que continuam fazendo sucesso nas trilhas noveleiras, como A Vizinha do Lado, que está em Celebridade, e que até as crianças estão cantando.

   A Vizinha do Lado também é uma das 20 canções que estão no CD recém-lançado. Além dos sambas antigos, o (relativamente) atual Severo do Pão, composto em 1987, que Nana, Dori e Danilo não conseguem cantar sem rir, lembrando do pai contando essa história que se passou em Salvaddor no início do século XX: lá vinha Teresa, vendedora de acarajé e botou o tabuleiro no chão, para descansar; aí veio o Severo, vendedor de pão, gentilmente ajudar e botou o tabuleiro de acarajé na cabeça. Foi então que passou uma galera e achou que Severo tinha “virado a mão”, riem eles.

   “O repertório dele é eterno”, observa Nana. E exemplifica com Maracangalha: “A gente pode ir ao banheiro, que a platéia se encarrega de cantar. É a hora do xixi”, ri ela.
 
* A editora do Caderno 2 viajou a convite da Warner

(© A Tarde Online)


Homenagem faz Caymmi chorar

Nana, Dori e Danilo celebram os 90 anos do pai

PEDRO ALEXANDRE SANCHES
DA REPORTAGEM LOCAL

   Dorival Caymmi chorou. À beira de completar 90 anos, o patriarca baiano da música brasileira recebe homenagem ímpar de seus filhos em "Para Caymmi de Nana, Dori e Danilo - 90 Anos".

   É o filho do meio, Dori, 60, quem relata a reação do pai à audição do disco: "Ele adorou. Chorou, coisa que não acontece com meu pai. Disse "vocês não viram, mas eu chorei'". "Mamãe disse que viu, confirmou", completa, referindo-se à matriarca Stella, 82.

   O caso não é de tristeza, no entanto. Projetado pela filha mais velha, Nana, 62, o CD fecha foco nos sambas de Caymmi, sob repertório e arranjos predominantemente alegres.

   "A idéia dos sambas veio porque é uma data de festa. Queria dar um presente a ele e a todos nós, uma coisa alegre, engraçada, dançável", define Nana.

   Dori, encarregado dos arranjos, diz que o trabalho foi simples: "Foi um disco rápido, de reflexo, sem arranjos rebuscados".

   O caçula, Danilo, 56, é o único a descrever certa resistência inicial. "Num primeiro momento, eu e Dori ficamos um pouco assustados. Mas isso passou quando vimos que os timbres de voz se destacavam uns dos outros."

   A homenagem ao pai coincide com um disco em dupla com o médico pediatra, compositor e cantor Manu Lafer, "Patriota", que será lançado com shows hoje e amanhã, no Sesc Vila Mariana.

   Danilo diz que não houve muito conflito ou discussão entre os irmãos: "Só houve uma flauta que não estava boa e foi tirada por mamãe. Ela sempre interfere muito, foi uma cantora importantíssima, que só não seguiu carreira".

   Dori também diz que as discordâncias são leves e se resolvem com rapidez. "Pintam uns pegas de opinião às vezes, Nana é muito "opinionada". Danilo brinca que o nome do show vai ser "Essa Porra Não Vai Dar Certo'", brinca.

   É que a homenagem familiar terá desenlace no dia do aniversário de Caymmi, 30 de abril, no Canecão, no Rio. Dorival estará presente, mas não deve subir ao palco, segundo Dori.

   "Ele anda mal, escuta mal e vê mal. As chances de levá-lo ao palco são mínimas, o médico não aconselha. Na verdade depende de mamãe. Se ela achar que pode...", diz Dori, remetendo de novo à influência de dona Stella.

   No mais, vai lento o ritmo das homenagens a Caymmi. A EMI (ex-Odeon), casa em que ele gravou a maior parte de sua obra, promete a reedição de uma caixa de CDs de três anos atrás. A BMG (ex-RCA) aproveita o mote e lança a coletânea dupla "Mar e Terra", em que outros intérpretes cantam Caymmi.

(© Folha de S. Paulo)

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