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05-06-2008
Ator, diretor e autor teatral Newton Moreno, de 35 anos, encena Agreste e assina o texto que inspirou A Melhor Parte do Homem, atrações do FTC JANAÍNA LIMAEnviada especial CURITIBA – Mesmo sem nenhum espetáculo na Mostra Contemporânea, a oficial do Festival de Teatro de Curitiba (FTC), Pernambuco está muito bem representado no evento graças ao ator, diretor e dramaturgo Newton Moreno. Aos 35 anos de idade, este recifense, que mora há 14 anos em São Paulo, vem se revelando como um dos mais talentosos jovens autores da cena contemporânea e colhendo elogios da crítica nacional. Aqui em Curitiba não é diferente. Agreste, texto de Newton sobre a descoberta do amor por dois sertanejos, está sendo considerado uma das melhores produções da mostra. O espetáculo realiza a última apresentação no evento hoje. É a segunda vez que Newton Moreno participa do FTC como autor. No ano passado, ele foi um dos escritores selecionados para a Mostra de Dramaturgia Contemporânea, projeto desenvolvido em São Paulo e repetido na mostra com sucesso. A proposta era unir três textos curtos, encenados em seqüência. Newton marcou presença com Dentro, com temática homoerótica, explorando a prática do first fucking. “Foi um projeto que deu muito certo. Inspirado nele, estou tentando realizar outra montagem, intitulada Body Art. A idéia é encenar Dentro e outro texto meu, A Cicatriz e a Flor. Ambos tratam dessa coisa do físico, da relação do homem com seu corpo. Dentro aborda mais essa coisa do sexo, do lado sexual do relacionamento entre dois homens e A Cicatriz e a Flor aborda a mania das pessoas de mexer no corpo. Ao mesmo tempo, são dois discursos amorosos”, analisa o dramaturgo. Body Art vai unir os grupos Teatro Promíscuo e A Kacha, e tem previsão de estréia para maio, no horário alternativo da meia-noite, no Teatro de Arena, em São Paulo. AMOR SERTANEJO – O amor é mesmo a fonte de inspiração de Newton Moreno. Assim como Dentro e A Cicatriz..., Agreste fala de amor. A diferença é que aqui o universo é outro, em vez da realidade das grandes cidades, a ação se desenvolve “nas brenhas”, como define o autor. “É uma história que acontece numa cidade do interior, são um homem e uma mulher que descobrem e vivem o amor incondicional. Simples assim. Só que eles se apavoram porque desde o princípio sentem que um perigo paira pelo ar. E tem todo aquele jogo de aproximação: o jeito de chegar é manso, tímido, as coisas demoram para acontecer, tudo leva tempo”, revela o autor, que se inspirou nas histórias contadas por uma amiga para conceber o texto. “Tenho uma amiga do Recife que trabalha com mulheres do interior, dando orientação sexual no Sertão, e ela me contou umas histórias muito curiosas sobre o quanto as pessoas ainda desconhecem elas mesmas. Não sabem como funciona o corpo feminino. Fiquei muito impressionado com essas histórias e a medida dessa ignorância”, diz Newton. (© JC Online) Uma ponte entre Brasil e Alemanha Para evitar cair numa proposta regionalista em Agreste, Newton Moreno buscou o diretor Marco Aurélio, com quem já havia trabalhado antes, como ator. “Conhecia bem o trabalho do Marco Aurélio, fiz pelo menos três peças com ele. Precisava de um diretor como ele, que intervém na dramaturgia. Ele tem uma formação de teatro alemão, eu trago as minhas referências do teatro pernambucano, como Valdemar de Oliveira, Luiz Marinho, Ariano Susassuna e aí fizemos essa ponte Brasil-Alemanha. Deu certo, a peça ficou exatamente com essa atmosfera sutil de história do interior do Brasil, mas numa linguagem universal. Por exemplo, ontem, na platéia, tinham três inglesas, que adoraram o espetáculo sem entender uma palavra do texto”, assinala.Além de Agreste, Newton ainda assina o texto que inspirou a peça A Melhor Parte do Homem, da Cia. Nossa Senhora de Teatro Contemporâneo, atração do Fringe. “Não vi ainda, porque, na verdade, eu só cedi um texto (O Espelho), para Giovana Soar, uma amiga que é a atriz e diretora dessa peça. Ela adaptou o conto e transformou em teatro”, explica. Satisfeito com o sucesso de Agreste, que cumpriu temporada de sucesso em São Paulo, Newton se dedica a pelo menos mais dois projetos: finalizar um livro de contos, que tem o título provisório de A Obra e a montagem A Mulher do Trem _ da qual participa como ator, com o grupo Os Fofos Encenam, do qual é um dos criadores. Foi com Os Fofos que ele participou do Festival Recife de Teatro, em 2002, com a montagem Deus Sabia de Tudo e Não Fez Nada, a qual escreveu, dirigiu e ainda atuou. “A Mulher está cumprindo uma temporada muito boa, é uma peça divertida, que explora o circo-teatro. É a história de uma família circense, que apronta muito. Faço o Gusmão, um velho comediante, que sonha em dar uma escapadinha no casamento, mas a mulher é uma megera daquelas”, conta Newton Moreno. (© JC Online) Assombrações de Freyre no palco Nem o livro de contos, nem a Mulher do Trem, nem Agreste, nem Body Art. O projeto do ano de 2004 para Newton Moreno tem raízes mais profundas com a cultura pernambucana e ligações com ninguém menos que Gilberto Freyre. O dramaturgo acaba de finalizar a adaptação teatral de Assombrações do Recife Velho, livro de contos do sociólogo sobre as lendas que habitam o imaginário coletivo dos pernambucanos.O trabalho foi desenvolvido com o apoio da Fundação Vitae, da qual Newton foi bolsista durante todo o ano de 2003. “Foi um trabalho e tanto. Passei algum tempo no Recife, tive todo o apoio da Fundação Gilberto Freyre e da família Freyre, o que foi essencial. A primeira versão do texto está pronta e foi entregue à Vitae. Agora, estou trabalhando numa segunda versão, que vai originar a montagem teatral”, revela Newton, que assumirá também a direção da peça. A idéia inicial do ator era montar Assombrações no Recife e de lá levar a peça para São Paulo. Como não conseguiu patrocínio para a empreitada, ele decidiu agora fazer o caminho inverso. “Estou com um produtor, estamos correndo para viabilizar a produção e estrear o espetáculo até o fim do ano em São Paulo. Agora, levar a peça ao Recife é indispensável. Temos que arrumar qualquer jeito de ir pra lá”, diz Newton, que sonha em fazer a peça em um antigo casarão. “Era o meu desejo desde o começo, mas está difícil. Acho que vamos optar por encenar num galpão. Palco de teatro mesmo não dá de jeito nenhum.” Newton adaptou o texto de forma a ser narrado por dois contadores de histórias, um erudito (que poderia ser próprio Gilberto Freyre) e um popular. Eles serão os responsáveis por narrar as lendas de personagens como A Loura do Banheiro, Papafigo, Cafuti (o Diabo), Fantasma do Menino Feliz, entre outras. “Não sei quantas lendas vão compor a peça ainda. Não me detive só às que são narradas por Freyre, acrescentei casos mais atuais, como a lenda da Perna Cabeluda e a de Cumadre Fulozinha. Estou pensando como incluir, por exemplo a história da Menina Sem Nome”, adianta o diretor, que planeja o espetáculo para durar uma hora e meia. Assombrações vai ser a nova produção do grupo Fofos Encenam, tem estréia prevista para outubro, e terá no elenco um pernambucano, o ator Carlos Athayde, que também integra o grupo. Uma produção que certamente não poderá ficar de fora do Festival Recife de Teatro. As Assombraçõe do Recife Velho serviu de mote também para o site orecifeassombrado.com.br. Os textos foram adaptados para televisão e cinema por Bráulio Tavares, exibida na TV Jornal. Os episódios, dirigidos por cineastas como Adelina Pontual, Lírio Ferreira, Lula Queiroga e Camilo Cavalcanti foram transcritos para película e viraram um longa-metragem. A jornalista viajou a convite da organização do evento. Colaborou Marcos Toledo (© JC Online)
Poética de um jovem dramaturgo
Newton Moreno, pernambucano festejado pela força do seu texto teatral, fala sobre o amor no FTC e ratifica sua busca por uma nova linguagem cênica
Ivana Moura
Curitiba - O dramaturgo Newton Moreno, 35 anos,
carrega o Sertão na alma. Mas ele só se deu conta disso com Agreste, sua
quarta peça encenada e que faz sua terceira sessão hoje no Festival de
Teatro de Curitiba. Antes, ele escreveu Deus Sabia de Tudo e Não Fez Nada,
que também dirigiu, Dentro e A Cicatriz é a Flor, três peças de temática
homoerótica. Formado em Artes Cênicas pela Unicamp, Moreno começou sua
carreira no Recife e passou pelo extinto curso de Formação de Ator da UFPE.
Atualmente está desenvolvendo o projeto Assombrações do Recife Antigo, a
partir da obra do sociólogo Gilberto Freyre. (© Pernambuco.com)
Entrevista l Newton Moreno
DIARIO DE PERNAMBUCO - Em que consiste o projeto Assombrações do Recife Antigo? NEWTON MORENO - No ano passado, eu ganhei a Bolsa Vitae para fazer a adaptação do livro de Gilberto Freyre para o teatro. Passei março de 2003 no Recife fazendo pesquisas sobre o universo das lendas urbanas. O grosso do projeto vem da obra de Freyre. Mas tem outras histórias, como da Perna Cabeluda, do surgimento dessa lenda. Pois teve gente que perdeu até o ano escolar porque não saía à noite com medo da Perna Cabeluda. Também vamos utilizar a lenda da Comadre Florzinha. Já conclui a bolsa Vitae e agora estou finalizando o texto. DP - A estrutura do texto vai ser fragmentada, como em outras peças suas? Newton - Sim, são várias cenas com o mecanismo de ator-narrador, como um condutor da história. Devo utilizar umas 20 cenas, divididas em grupos: infância, figura do diabo, fantasmas amorosos. Cena de dona de engenho com preto velho. A Perna Cabeluda não se agrupa. O trabalho é fragmentado. DP - Você considera o projeto Assombrações como um retorno temático ao Recife? Newton - Fiz a opção de morar em São Paulo, estudar lá, fazer carreira. Mas sinto muitas saudades do Recife. O projeto é um retorno, sim. Fala da cidade. O próprio livro de Gilberto Freyre é uma declaração de amor à cidade. Sinto também muita falta de trabalhar no Recife e acho que Assombrações vai permitir isso. DP - Quais as temáticas que mobilizam você enquanto dramaturgo? Newton - Duas coisas me interessam. As motivações da cultura popular, do contador de histórias são matéria-prima para meu trabalho, assim como o homoerotismo. Não sei exatamente o que é o que se chama de dramaturgia contemporânea, mas quero experimentar algo novo, buscar outras linguagens. DP - Quais foram suas motivações para escrever Agreste? Newton - Uma amiga minha, que trabalha com educação sexual no Sertão, me contou histórias sobre o desconhecimento das mulheres sobre si mesmas, da grande ignorância do que significam - não só com relação ao próprio corpo. Parti da noção de ignorância ehorror para construir a peça. DP - O texto é uma história de amor... Newton - A história é de uma simplicidade atroz. É um manifesto poético sobre a descoberta do amor. A linguagem tem um grande apelo visual. Na estrutura, utilizo o épico, o contar a história, o lírico, que são as imagens e o dramático, que são os diálogos. Joguei com essas três coisas para dar uma dinâmica. O básico é isso: o cagaço de saber que o amor começou, que o amor ia se confundindo entre os dois. A trama se passa no Sertão, onde o tempo é outro, o ritmo é outro. (© Pernambuco.com)
Uma fábula sobre a ignorância
Uma pérola no meio de tantas fórmulas teatrais desgastadas exibidas no Festival de Teatro de Curitiba. O espetáculo Agreste, do pernambucano Newton Moreno, com direção de Marcio Aurélio, é uma fábula sobre a ignorância, o preconceito e o amor incondicional, como a própria Companhia Razões Inversas sintetiza a encenação. O tema é universal: duas pessoas consumidas por um amor irresistível, incontrolável. Neste caso, um casal de lavradores. O cenário é o Sertão nordestino, numa seca de rachar os sentimentos, mas onde brota o amor. Eles vivem um para o outro, até a morte do marido, quando a mulher, machucada pela perda, é vítima da intolerância de uma cidade inteira e sofre retaliações por amar. "O foco não está na questão regional. Mas na metáfora - que poderia ser em qualquer lugar - da ignorância, da destruição, do desejo, do corpo enquanto organismo, enquanto ser social", esclarece o diretor Marcio Aurélio. Ele explica que o deslocamento do tempo e do espaço para o Sertão nordestino reforça a dimensão trágica das relações humanas. Agreste está dividido em blocos. Os dois atores, Paulo Marcello e João Carlos Andreazza, se revezam em alguns papéis, entre narrador-personagem e personagem-narrador. "Aí entra o prazer do jogo. Do amor que você nunca sabe onde vai dar, da descoberta, da verticalidade, do escuro mesmo com o sol a pino. E o amor mesmo é difícil de encontrar". Com 30 anos de carreira, Marcio Aurélio é conhecido como diretor extremamente exigente. Ele quer a precisão da cena. Isso fica muito claro em Agreste. Na peça ele faz referências às artes plásticas - inspira-se nos trabalhos do artista plástico Joseph Beuys e dos fotógrafos Angélica Del Nery e Chema Madoz - e da performer. Dois atores, um candeeiro e poucos elementos cênicos. Um tratamento delicado e sensível para falar de amor - tema tão banalizado por todas as mídias. De um amor urgente, inadiável, primordial. E da ferocidade humana, que condena. A peça nos agarra pela estética, simples, dura, seca. Encanta e revela em feches de luz a extensão da palavra amor e o horror dos que não são tocados por ela. (© Pernambuco.com)
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