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Nelson Pereira de To- dos os Santos e Sertões

05-06-2008

Vidas Secas

Um ensaio do cineasta Rosemberg Cariry sobre Nelson Pereira dos Santos em que o primeiro aponta a genialidade poética do autor de Vidas Secas, faz uma leitura breve sobre o moderno cinema brasileiro e dispara contra o que ele chama de ''truculência colonizada''

Rosemberg Cariry
Especial para O POVO

   O cinema brasileiro tem uma trindade. Humberto Mauro, com seu lirismo interiorano e cheio da delicadeza de um país que se descobria futuro, é o Pai. Glauber, com seu sertão barroco e violento, é o Filho. O Espírito de Todos os Orixás, o homem que acendeu uma candeia na escuridão de um tempo e com luz esculpiu mil rostos mestiços para o povo brasileiro em movimento, chama-se Nelson Pereira de Todos os Santos.

   Nelson é um homem de origem popular e, por isso mesmo, herdeiro de saberes e sensibilidades coletivas que deram ao seu cinema éticas e estéticas de feitio único. Se o cinema de Nelson nasce em tempo de mudanças profundas em todo o mundo, sofrendo, por igual, as influências do seu tempo, é também verdade que ele soube unir essa herança plural em um cinema marcado pela originalidade e pela brasilidade. A sua câmera, enamorada do neo-realismo italiano, sobe os morros cariocas e descobre, nos sambistas explorados e marginalizados, uma tristeza tão triste como nenhum cantor dos trópicos antes sonhara sentir e uma beleza tão bela que nenhum poeta carioca antes ousara perceber.

   O moderno cinema brasileiro é inventado por Nelson Pereira dos Santos nos morros cariocas. Rio 40 Graus e Rio Zona Norte são filmes que nomeiam o tesouro da cultura e das artes afro-brasileiras e afirmam o samba como expressão da brasilidade. Na época, o Partido Comunista torceu o nariz (esperava o realismo socialista soviético que já caía de podre na imposição stalinista), a intelectualidade bem pensante teve náuseas (o povo fede e tem que ser mostrado como os homens-monstros de Cidade de Deus), a censura proibiu (os homens de bem e talentosos deste país são brancos), a crítica vociferou (nunca seremos como ''holiúde'', onde os negros são bonitos, bem nutridos e têm dentaduras invejáveis). Certa vez, em um desses festivais da vida, eu conversava com Nelson sobre o ''analfabetismo de Brasil'' e a ''truculência colonizada'' de uma certa crítica-cinemeira dos ''Cadernos BÊS'' do Rio/São Paulo e dos seus imitadores provincianos. Nelson, sábio como um monge budista, disse-me: ''Ainda bem que hoje eles não têm o poder de polícia''.

   Nelson sabia do que falava, afinal, no início da carreira, foi perseguido pela polícia, a partir de um raciocínio bastante simples: quem sobe o morro deve ser cúmplice de bandidos. O que ninguém lembrava é que no morro, para citar apenas dois exemplos, entre centenas de outros, morava a genialidade do samba na voz de Zé Keti e a poesia brasileira era pura beleza e universalidade nas canções do pedreiro Cartola. A arte da elite brasileira tem ressentimento e medo do povo. Cartola é maior do que Tom Jobim. Patativa é maior do que Drummond. Nelson Pereira é um homem do povo e afirmou a beleza do povo. Daí ser considerado um herege e ser ameaçado, com a fogueira da santa inquisição, por um partido que ainda sofria da ''doença infantil do comunismo'' e por uma elite intelectual, representante do fascismo tupiniquim, afrancesada e almofadinha. O Cinema Novo era Nelson Pereira dos Santos. Glauber, o filho, além do grande cineasta dos primeiros filmes (Deus e o Diabo na Terra do Sol, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro e Terra em Transe) era o propagandista, o homem da cobra, o vendedor da pomada Padre Cícero e do Bálsamo da Vida.

   Era impossível inventar o Brasil apenas com os morros cariocas, era preciso um outro mergulho na alma e na carne do Brasil profundo. Diz um provérbio espanhol que Deus faz os doidos e que eles se procuram. Parafraseando, eu diria: Deus faz os gênios e eles se encontram. O encontro de Nelson Pereira dos Santos com o austero Graciliano Ramos (os dois eram comunistas arejados) iria gerar o mais importante filme brasileiro de todos os tempos: Vidas Secas. Vidas Secas é um ensaio brasileiro de humanismo e universalidade. O filme é uma obra-prima realizada em uma paisagem de vazios e essencialidades; uma paisagem captada com a precisão e a verdade transcendental de um monge Zen quando pinta os seus bambus sobre os vazios. Mesmo fixos pelo nanquim, os bambus das pinturas Zen tremulam ao vento. Assim como Josué de Castro na sua Geografia da Fome, Nelson viu o sertão como um cenário cósmico, com sua natureza retorcida pelo sofrimento eterno, onde o homem representava a sua tragédia. O sertão era a gênese.

   Nessa paisagem, o silêncio é uma faca-gemido-de-carro-de-boi, cortando a alma e a poesia se faz toda de pedra, de marmeleiros raquíticos, de arribançãs desesperadas, de lágrimas secas, de poeira de veredas, de papagaio mudo que alimenta a tristeza das crianças e de uma cadela chamada Baleia, a qual chora com mais intensidade do que mesmo os homens. Tudo bicho, ainda misturado à natureza, em busca de consciência e de humanidade; tudo barro seco em busca do sopro de Deus. A poesia de Vida Secas é eterna e a fotografia, talhada na celulóide, como se fosse xilogravura cortada na umburana bravia, só poderia nascer da alma ensolarada de um sertanejo das ribeiras do Acaraú: o cearense Luiz Carlos Barreto. Vidas Secas é um filme eterno e toca a alma mais profunda da paisagem, onde o Brasil foi inventado em sua universalidade: o sertão. Depois de Nelson, como em Guimarães, os sertões passaram a carecer de porteiras e se estenderam até as areias do Saara, até as estepes russas, até os desertões da Andaluzia, até o imaginário do mundo: Cannes, Berlim, Moscou, Veneza, Tóquio, Pequim, Calcutá, Chicago e Cuba. O cinema de Nelson influencia novas gerações de cineastas em todo o mundo. Nelson Pereira dos Santos é o mais importante cineasta brasileiro do século XX.

   O que mais falar de Nelson? Da beleza e do vigor da religiosidade popular do Amuleto de Ogum? Da estética vigorosa e da profundidade do discurso político e humanista de Memória do Cárcere? Ou dos seus recentes documentários Casa Grande e Senzala e Raízes do Brasil? Nesses filmes, Nelson homenageia dois grandes estudiosos do Brasil que muito contribuíram para a sua formação intelectual: Gilberto Freire e Sérgio Buarque de Holanda. Nelson Pereira dos Santos é sempre assim, um apaixonado e um profundo conhecedor do povo brasileiro, por ser, ele mesmo, uma das expressões mais belas e generosas desse mesmo povo. A obra de Nelson deveria ser estudada nas salas de aula da rede pública escolar e o seu nome anunciado em placas luminosas como orgulho do Brasil. Encerro este artigo da forma como o comecei, feito uma cobra mordendo o próprio rabo: Humberto Mauro é o Pai. Glauber é o Filho. O Espírito de Todos os Orixás, o homem que acendeu uma candeia na escuridão de um tempo e com luz esculpiu mil rostos mestiços para o povo brasileiro em movimento, chama-se Nelson Pereira de Todos os Santos. O resto é menino da burguesia brincando de fazer cinema ''fascistóide'' nas favelas e o complexo de inferioridade brasileiro festejando nos jornais porque um filme foi indicado ao Oscar, na festa da Casa Grande, digo melhor, na farsa da Casa Branca. Nelson Pereira dos Santos é Senzala.

Rosemberg Cariry é cineasta

(© NoOlhar.com.br)

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