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05-06-2008
Documentarista premiado, Sérgio Machado arrisca-se na direção de trama sobre um triângulo amoroso João Bernardo CaldeiraSALVADOR - O baiano Sérgio Machado, 45 anos, é fã dos documentários do cineasta Eduardo Coutinho, diretor do histórico Cabra marcado para morrer. Sérgio, que depois do premiado Onde a terra acaba está rodando há duas semanas Cidade baixa, acredita que Coutinho é dono da obra mais significativa do cinema nacional. E é inspirado no documentarista que ele sabe exatamente o que quer fazer de seu primeiro longa-metragem de ficção: conciliar ficção e documentário, drama e realidade. Eis a tarefa de seu cinema. Nos papéis principais estão Lázaro Ramos, Wagner Moura e Alice Braga, que terão a companhia do consagrado ator José Dumont. Tomado pela euforia e excitação, graças ao início das filmagens, Sérgio Machado conversou com o JB, por telefone, da cidade baiana Cachoeira, umas das locações de Cidade baixa. - Coutinho é uma influência enorme. Sua obra traz um espírito que gostaria que meu filme também tivesse. Procuro incorporar situações que vivenciei. Há um desejo documental. Cidade baixa será todo filmado em câmera na mão, com um orçamento estimado em R$ 3 milhões e terá como locações Salvador e cidades do interior da Bahia. A idéia inicial era filmar uma versão da ópera de Wagner, Tristão e Isolda, mas Sérgio voltou atrás, depois de discutir o roteiro com os colaboradores João Moreira Salles e Karim Aïnouz e também com os parceiros da produtora Videofilmes, como Walter Salles, Daniela Thomas e o próprio Eduardo Coutinho. A história gira em torno de um triângulo amoroso entre Deco (Lázaro Ramos), Naldinho (Wagner Moura) e Karinna (Alice Braga). Os dois primeiros têm um barco com o qual ganham a vida fazendo fretes. Um dia eles dão uma carona para Karinna, uma dançarina de strip-tease que sonha com uma vida melhor em Salvador. Mas uma reviravolta no enredo acaba determinando uma intensa ligação entre eles. - Durante a viagem há uma briga e um deles é machucado. Eles então fogem e os três se apaixonam. Normalmente, o triângulo gira em torno da impossibilidade, mas quero mostrar que as possibilidades do amor são múltiplas. Não é preciso ter só uma pessoa. Morador do Jardim Botânico há dois anos, Sérgio chegou a ingressar no Mestrado em Cinema da Universidade Federal Fluminense, mas ainda não conseguiu concluí-lo. Em 1993, sua trajetória mudou de rumo quando o diretor Walter Salles assistiu a seu primeiro curta-metragem, Troca de cabeça, a pedido do amigo e escritor Jorge Amado. Walter gostou tanto que acabou convidando o diretor para trabalhar com ele em sua produtora, a Videofilmes. Sérgio se tornou então assistente de direção de Walter em filmes como Central do Brasil e O primeiro dia. Ele também foi co-roteirista de Madame Satã e Abril despedaçado e trabalhou ao lado do diretor Guel Arraes no especial da Rede Globo Pastores da noite, baseado na obra de Jorge Amado. - Tudo começou quando recebi um convite do Jorge Amado para assistir a meu filme com ele e Zélia Gattai em sua casa. Ele adorou e me perguntou o que eu queria que ele fizesse por mim. Respondi que só o fato de estar ali já era bacana, mas ele mandou uma cópia para o Waltinho (Walter Salles), que, meses depois, me ligou. Encontramos enormes afinidades - conta. Em 2001, Sérgio lançou Onde a terra acaba, uma espécie de biografia de Mário Peixoto, diretor de Limite, um dos primeiros filmes do cinema brasileiro, feito em 1931. Em 2002, a película levou o prêmio especial do júri do Festival de Gramado. Agora, Sérgio se aventura na ficção. Serão ao todo oito semanas de filmagens, nas quais ele tentará provar que o reconhecimento das diferenças é o primeiro passo para a aproximação: - O que me move a dirigir filmes é o desejo de falar sobre pessoas que, aparentemente, são diferentes, mas que podem ser iguais. Amam e têm os mesmos medos. No meu set de filmagem é proibido julgar os personagens. Temos que olhar esses universos com nenhuma idealização e alguma delicadeza. (© JB Online) Indo aonde o cinema estiver Revelada em Cidade de Deus como a jovem namorada do traficante Bené, a atriz Alice Braga tem 20 anos, ainda não atuou em novelas, tampouco no teatro. Faz parte de uma nova geração de atores brasileiros que floresce ao mesmo tempo em que a cinematografia nacional chega ao expressivo patamar de 30 filmes lançados por ano, segundo números de 2003.E não foi apenas graças ao sangue da tia, a diva Sônia Braga, que Alice foi um dos destaques do filme dirigido por Fernando Meirelles. Desde menina ela trabalha em comerciais de publicidade, a atividade dos pais. Mas foi com o filme, que concorreu a quatro prêmios do Oscar, que ela alavancou disputados convites para fazer testes para novelas da Rede Globo. Mas Alice preferiu ir com calma e partiu para Nova York, onde estudou interpretação e inglês. Procurando sossego e independência, nem se hospedou na casa da tia, moradora da cidade. - Apesar do enorme sucesso de Cidade de Deus, preferi estudar e me preparar. Queria ficar no meu canto e buscar a liberdade de estar sozinha. Foi ótimo porque me deu um tempo para respirar - conta a atriz. Na volta ao Brasil, ela recebeu convites para atuar em Cidade baixa e também no próximo filme do mexicano Carlos Bolado, Sólo dios sabe, no qual desempenhará o papel principal. Quem sabe não é o começo de uma carreira internacional, como construiu a tia Sônia? Alice já tem até uma agente em Nova York, que a contatou depois do sucesso de Cidade de Deus. - O que vier será lucro - diz a atriz, radiante com os primeiros passos e cheia de sonhos. - Só quero poder trabalhar, seja onde for. Se tivesse que escolher entre TV e cinema acabaria ficando com a segunda opção. Cinema é a minha grande paixão. (© JB Online)
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