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05-06-2008
César Romero Um merecido tributo a quem tanto viveu e pintou a Bahia vai ser prestado a partir de quarta-feira, pela MCR Galeria de Arte (Ondina Apart Hotel), com a abertura da exposição Homenagem a Jenner Augusto. A mostra se fixa basicamente na produção do artista nos anos de 85 e 86, e nela se encontra temas variados: jarros de flores de mil matizes, ex-votos e candeeiros, frutas tropicais e garrafas, alguns alagados revisitados, casarios da velha Bahia e paisagens. Vê-se, no conjunto de obras, a maestria das manchas e sombras, a capacidade que Jenner Augusto - morto no ano passado - tinha em mudar de assunto e manter-se fiel à pintura: profunda variação cromática e amor em cada gesto. Jenner conhecia seu ofício. Poucos no Brasil tinham, como ele, um profundo respeito aos materiais. Assim, tintas, solventes, chassis, telas e pincéis eram, em suas mãos, sempre de primeira qualidade. Sua paixão era a cor, especialmente os azuis, aqueles filtrados dos olhos tão iguais. Jenner via o mundo como uma grande pintura, que ele elegia partes, trechos, detalhes e achados. Era canhoto e costumava se desligar do aqui e agora para encontrar seus "motivos plásticos". "Saio em busca da cor. Certa cor, que está retida, ou que me surpreende como um soluço, ou uma miragem", comentou. Da Bahia, sua pintura correu mundo, atravessou mares, navegou rios, banhou-se em lagos e diques, viciou-se na luminosidade da nova terra, que era absolutamente sua por eleição (Jenner nasceu em Sergipe). Poucos artistas amaram tanto a Bahia como ele. Aqui, achou céus de magnífica amplitude, casarios e suas misteriosas perspectivas, barcos à flor d''água, coqueirais, pescadores e pôr-do-sol. Registrou, com seus pincéis, cangaceiros, santos, coroinhas, igrejas, laranjais, ex-votos e pássaros de vultosa plumagem. Tudo que a terra do Nordeste pariu do seu ventre de dor e de amor. Ele viu mais além: flores de estranhos matizes, frutas de frescor tropical e paisagens. Lirismo - Jenner Augusto construiu seu próprio caminho, estabeleceu seu estilo de pintar, foi da figuração à abstração com desenvoltura, mas se definia como um paisagista. Poucos artistas no Brasil se dedicaram à paisagem, como ele. Outros exemplos são Guignard, Costagneto, Eliseu Visconti, Pennacchi, Benedito Calixto, Manuel Santiago e Alberto Valença. O artista exerceu seu ofício de forma sincera e coerente. Tudo era remoído na memória, um "adorável tormento", como ele dizia. Mesmo fora do atelier, estava criando em intermináveis observações do mundo ao derredor. Ele sabia "ver" o mistério das coisas mais simples e prosaicas, como vasos de flores, garrafas e naturezas mortas. Tudo era pretexto para pintura. Jenner não estava ligado a forma ou fórmulas: era versátil, leve, buscava o prazer de pintar, a informalidade. Tímido, calado, de quando em vez, a voz mansa deixava sair: "A tela é o espaço em branco; a cor, o universo". Seu impressionismo lírico estava atado à infância e à adolescência. A música de Jenner era a cor em ajustes bem feitos, entonações refinadas. Tirava efeito das pinceladas rápidas e rítmicas, das misturas cromáticas, das massas e manchas, dos espaços das telas. Cartazes - Nascido em Aracaju, em 1924, veio morar em Salvador em junho de 1949 para, ao lado de Mario Cravo Jr., Carlos Bastos, Genaro de Carvalho, Lygia Sampaio e Rubem Valentim, manter aceso e fixar o movimento primeiro de renovação nas artes plásticas da Bahia. O primeiro contato com a pintura se deu aos 15 anos, quando começou a pintar cartazes de filmes para o cinema Lagarto e executava faixas e cartazes comemorativos do fim da Segunda Guerra Mundial. Junto com os pintores Florival e Álvaro Santos, J. Inácio e Reinaldo Siqueira, acompanhados pelo poeta Freire Ribeiro, saíam pelas cidades do interior de seu Sergipe, pintando paisagens e casarios das cidades históricas. Faz sua primeira individual em Aracaju, em 1945, no Instituto Geográfico e Histórico. Em 1949, registra no famoso Bar Cacique a primeira manifestação modernista em seu estado. Nesse mesmo ano, já na Bahia, se entrosa com artistas e intelectuais no fervilhar da renovação em nossa cultura plástico-visual. Com a inauguração da Galeria Bonino, no Rio de Janeiro, o mercado de arte no Brasil começou a ganhar molde e foi em 1964 que Jenner teve sua primeira individual naquela cidade. Um grande sucesso de público, crítica e vendas. Aí, instalou-se em mercado próspero e duradouro, com seu tema mais conhecido: Alagados. (© Correio da Bahia)
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