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Sonho de consumo da classe média vira curta

05-06-2008

Menina do Algodão

O roteiro foi escrito em 1996, auge do consumismo nacional, mas só agora é concretizado

RAFAEL GUERRA

   No meio da década de 90, o plano real lançava uma euforia consumista para a classe média brasileira. A economia dolarizada permitia a todos equipar a vida com celulares, computadores e brinquedos eletrônicos. Esse universo despertou a atenção do cineasta e crítico de cinema do Jornal do Commercio Kleber Mendonça Filho (Encurralado, Menina do Algodão e o ainda inédito Vinil Verde), que filma, em 35mm, o curta-metragem Eletrodoméstica. O set de filmagem é em um apartamento vizinho ao do diretor, no bairro de Setúbal, o que o ajuda a criar um ambiente bem familiar, pois o filme é fruto de dezenas de observações do próprio Kleber, sobre sua vizinhança, uma crônica filmada sobre a classe média recifense.

   O filme se passa no apartamento da dona de casa Bia (Magdale Alves, de Amarelo Manga), que mora com seus dois filhos, os não-atores mirins Gabriela Maia e Pedro Cunha. Durante esse tempo, não acontece nada de extraordinário, apenas pequenas coisas, que fazem parte do cotidiano de qualquer pessoa normal de classe média. É uma obra sobre a intimidade das pessoas. “A idéia é que o Eletrodoméstica seja como quando alguém pega uma lupa e observa um objeto comum. Começa, então, a notar detalhes interessantes que não eram percebidos sem a lente. Quero que o filme passe esse sentimento para as pessoas”, afirmou Kleber.

   Para o diretor, esse é um filme de época. “Ele se tornou datado, por que eu fiz o roteiro em 1996 e essa história do consumismo não era tão importante na época. Hoje, apesar de eu não ter mudado quase nada, a minha relação com os personagens é diferente. Vivemos em um outro Brasil”, explicou Kleber. O roteiro de Eletrodoméstica ganhou R$ 50 mil do Concurso de Curta-Metragem do Ministério da Cultura. “Já havia inscrito duas vezes no Ari Severo e duas no MinC. Talvez o novo governo tenha ajudado”, arriscou o cineasta.

   Kleber repete a parceria com Daniel Bandeira, com quem trabalhou em A Menina do Algodão e Vinil Verde. Desta vez, Daniel está trabalhando como assistente de produção e na gravação do som. A direção de fotografia está a cargo do paulista radicado no Recife, Tuta Santos, a produção é de Brenda da Mata. Juliano Dorneles é o diretor de arte e Pedro Sotero, o outro assistente de produção. “É uma equipe bem jovem, e isso é muito legal”, afirmou Kleber.

   As gravações começaram no último sábado e vão até amanhã, mas ainda não há data prevista para o trabalho de finalização. O diretor também não definiu o tempo de duração da obra. O que se pode adiantar é que o filme começa com imagens de Setúbal ao som de Eu queria morar em Bervely Hills, da já saudosa banda Paulo Francis Vai pro Céu.

(© JC Online)


Recife tem seu minuto de vídeo

Estudantes lançam o I Festival 60 Segundos de Vídeo do Recife com o tema Meu Banheiro Meu Mundo

   Os realizadores pernambucanos de vídeos de um minuto terão a oportunidade de exibir seus trabalhos em um festival inspirado no já tradicional Festival do Minuto de São Paulo. Os estudantes Izabel Carvalho, Léo Guieiro, Maurício Carvalho e Sérgio Leão vão promover o I Festival 60 Segundos de Vídeo do Recife, no dia 24 de maio, às 19h, no cinema da Fundaj. Os vídeos participantes deverão ser feitos por estudantes universitários e o tema será Meu Banheiro Meu Mundo.

   Para Sérgio Leão, a idéia de fazer o festival era criar um espaço para que os estudantes mostrem seus trabalhos. “Achávamos que não havia muita oportunidade para um estudante divulgar o que está produzindo. O festival de São Paulo, por exemplo, é restrito aos moradores da cidade. Resolvemos criar, nós mesmos, uma alternativa”, afirmou Sérgio.

   As inscrições para o festival acontecem de 10 a 14 de maio, cada estudante pode inscrever no máximo três trabalhos, e o preço de cada vídeo inscrito é R$ 10. No dia 24 acontecerá a mostra competitiva, a escolha dos vencedores por um júri especializado, que ainda será escolhido, e a premiação. O primeiro colocado ganhará uma máquina fotográfica digital no valor de R$ 300, o segundo ganha R$ 200. Os três melhores colocados recebem o troféu 60’’.

   O evento terá cobertura, na íntegra, da TV Universitária e os três vídeos mais bem-colocados serão exibidos no programa Curta Pernambuco. Para mais informações sobre o evento, os interessados podem acessar o site www.festival60segundos.kit.net ou enviar email para festival60s@pop.com.br. Fone: 3241.5784.

   A Sessão de Arte desta semana vem em dose dupla. Além de Albergue Espanhol, que teve muita procura no último fim de semana e por isso será repetido, o público também pode conferir o filme Dicionário de Câmara, inédito no Recife. Os obras serão exibidas em salas diferentes, na sexta e no sábado, no Multiplex do Shopping Boa Vista, do Grupo Severiano Ribeiro.

(© JC Online)


Classe média em primeiro plano

   As paranóias da vida urbana aos poucos se tornam objeto de investigação autoral do cineasta Kleber Mendonça Filho, que passou a infância em Casa Forte e depois mudou-se para Setúbal, mergulhando no mundo dos muros de concreto, edifícios e grades de segurança, logo transformados em inspiração para o vídeo Enjaulado, bastante falado no Recife, em 1994. A inquietação da metrópole volta acompanhada de uma abordagem sobre o consumismo da classe média brasileira em Eletrodoméstica, primeiro filme do diretor rodado em película. Vencedor do concurso de roteiros do Ministério da Cultura, o novo curta está sendo filmado em um apartamento no prédio dele, confirmando o quanto o projeto é pessoal.

   "Não vejo a classe média sendo retratada pelo cinema nacional. Com exceção de alguns milionários, todos os cineastas brasileiros são de classe média, mas fogem disso", observa Kleber, dizendo a que veio. O roteiro é ambientado em Setúbal, no Recife dos Anos 90, quando as famílias estavam delumbradas com seu poder de compra após anos de "cultura da inflação". A protagonista, interpretada por Magdale Alves, é uma dona de casa que vive uma obsessão consumista por eletrodomésticos. "Se o filme funcionar, o público vai reconhecer várias vinhetas da vida cotidiana. Não há nenhuma grande cena. Não há pânico ou medo como em Enjaulado, é tudo muito corriqueiro", adianta o cineasta, escondendo os elementos de tensão.

   Sobre a estética adotada, Kleber classifica seu curta como "uma entidade mecânica", pois procura manter os enquadramentos matematicamente posicionados em ângulos perpendiculares às paredes e ao chão (direção de fotografia de Tuta Santos). Segundo o diretor de arte Juliano Dornelles, foi necessário também recriar objetos de cena da época, como orelhões da Telpe, telefones celulares analógicos, embalagens de produtos da década passada e referências culturais, como um pôster dos Mamonas Assassinas e uma camiseta dos Cavaleiros do Zodíaco, usada por Pedro Cunha, ator mirim que interpreta um dos filhos da protagonista. De formageral, entretanto, pouca coisa foi produzida, já que a intenção era manter as características da locação, inclusive o excesso de fechaduras, grades de ferro e pregos de segurança.

   As filmagens de Eletrodoméstica começaram no sábado e continuam até esta quinta. Ele deve ficar pronto até o fim do ano, o que possibilitaria a inscrição no Festival de Brasília. Kleber Mendonça Filho tem mais dois curtas sendo finalizados, Vinil Verde (feito com fotografias) e Filme de Praia (filmado em Kiev). Em 2003, ele dirigiu ao lado de Daniel Bandeira o filme A Menina do Algodão. (J.C.)

(© Pernambuco.com)

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