05-06-2008
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Glauber Rocha |
Arnaldo Bloch
Domingo passado, no quintal do Tempo
Glauber — a bela casa em Botafogo que abriga o acervo do cineasta. Dona
Lúcia, a zelosa mãe, oferece um vatapá para convidados, oriundi do
Cinema Novo e gente de cinema em geral, em comemoração ao aniversário do
filho, que foi no dia 14. Em tempo de Mel Gibson, é também tempo do gênio
baiano: a estréia, há três semanas, de “Glauber o filme, labirinto do Brasil
”, de Silvio Tendler, dividiu a classe e rendeu, dias atrás, um artigo
confessional de Arnaldo Jabor, no qual o cineasta/colunista via no filme um
retrato “maluco beleza” de Glauber e questionava as utopias.
Próxima à porta, uma outra Lúcia
baiana serve acarajés aos que chegam: os cineastas Zelito Vianna, Mário
Carneiro, Paulo César Saraceni, Gustavo Dahl, Maurice Capovilla, Eduardo
Coutinho, Cacá Diegues, o presidente da RioFilme, José Wilker, discípulos e
agregados.
Num pequeno auditório anexo ao
acarajé, tudo pronto para a exibição, depois do almoço, de “Retrato da
Terra”, outro documentário, de Paloma Rocha, filha de Glauber, e Joel
Pizzini, de concepção completamente diferente da do filme de Tendler.
Responsável pela lista de convidados, o produtor Luiz Carlos Barreto, o
Barretão, não angariou a presença de Jabor ou de Tendler. Mas estava bem à
vontade:
— É quase unânime entre nós: o filme
do Silvio não bateu bem. Concordo com o Jabor, houve uma ênfase no
folclórico. Fiquei chocado com o depoimento do João Ubaldo. De muito mau
gosto. Coisa para comentar num botequim no Leblon. Não é moralismo. Mas não
posso dizer que o Glauber peidava para todo o canto. Como um palhaço de
circo. O Ubaldo não era quem ele é quando o Glauber me apresentou a ele como
“o maior escritor da Bahia.”
Mário Carneiro faz coro:
— Meu coração não ficou satisfeito.
Senti falta de Glauber no filme.
A singela história do pum
incomodou também a filha Paloma Rocha.
— Era desnecessário. Mas é um filme
que cumpre o papel primário, é didático — pondera.
— O Glauber dos anos 70 está sendo
ocultado e prevalece o da fase européia. Parece que era um desvairado. Não.
Era um construtor. E fez a revisão da história do cinema e formulou um
pensamento sobre os seus fundamentos. Sem falar na obra crítica, que
escreveu quando ainda estava na Bahia.
A unanimidade é burra. Cacá Diegues
destaca como qualidade a desmistificação pelo humor:
— O filme aproxima a gente do que o
Glauber era de fato. A imagem contemporânea dele só como um guerreiro em
nome de idéias absolutas é absurda. Glauber não era isso. Era generoso,
carinhoso, bem-humorado e fraterno. A construção dessa imagem mineral do
Glauber faz muito mal ao que ele fez e foi. Quanto ao Jabor, é um de nossos
mais iluminados articulistas. Concordo que as utopias devem se renovar, mas
discordo num ponto: narcisismo ou não, a utopia é civilizatória, existe para
que se discuta o destino da Humanidade.
Nem todos estão interessados na
discussão: Paulo César Saraceni diz que se trata de bobagem, que importante
é conclamar todos a assistir a “A idade da Terra”, o último filme, rejeitado
pelas esquerdas.
— Sem que se assista muito e se fale
muito de “A idade da Terra” o cinema brasileiro não vai ficar bom, ficará
alijado da herança que Glauber deixou. O cinema caiu terrivelmente depois da
morte dele. Dei uma entrevista ao Silvio sobre isso e ele não a pôs, o que
me chateou.
O documentarista Eduardo Coutinho é
econômico nas palavras:
— Não falo sobre cinema brasileiro
nem sob tortura. Só digo que existem mil filmes possíveis sobre Glauber.
Bem mais falante, José Joffily — que
fez imagens do velório e do enterro de Glauber, ainda inéditas — improvisa
sinopses:
— É muito prolífico. Dá para fazer um
documentário só sobre a cinematografia, um centrado numa obra, outro sobre a
relação de Glauber com o cinema europeu, ou com os parceiros contemporâneos.
Qualquer cobrança que se faça sobre o filme deve levar isso em consideração.
Dona Lúcia é enigmática:
— O filme conta uma verdade: Glauber
nasceu, criou, divulgou sua vida e morreu.
Mas é, também, emocional:
— Não gosto de ver porque me faz mal
ao coração. Tinha quatro filhos, perdi três, um atrás do outro.
Financiador do documentário através
da RioFilme, José Wilker — acompanhado de Guilhermina Guinle, numa passagem
rápida pelo almoço — resume:
— Neguinho quer ver sempre o filme
que quer fazer, e não o filme que foi feito. Esse é o problema.
Até então, um aspecto bastante
incômodo do filme (e da vida de Glauber) está ausente: a ênfase nas
acusações do cineasta contra seus colegas de geração. Barreto quebra o
silêncio:
— Teve a repercussão de “A idade da
Terra” em Veneza, teve a história do Geisel, o tempo mostrou que ele estava
certo, e o próprio sucesso de Glauber. Sentia-se perseguido, cobrado e, no
fim, traído. Não é novidade que ele tinha um temperamento paranóico embora
profético. O pessoal do Cinema Novo se sentiu de certa maneira atingido, mas
ninguém deu uma importância definitiva. Nós todos continuamos a nos
relacionar com ele, fizemos de tudo para ele voltar ao Brasil.
Zelito dá a sua versão.
— O Glauber batia numa freqüência
diferente do ser humano normal. Interpretava a realidade à sua maneira,
exacerbava, profetizava, inventava, criava, delirava. Muito difícil saber
efetivamente o que pensava. Mas acho que o que aconteceu com ele de mais
grave é que, no fim, perdeu o senso de humor, começou a se levar a sério.
Rompeu consigo próprio.
No finzinho da tarde, após a
sobremesa rica em cocadas e tortas, o auditório enche-se para a sessão de
“Retratos da Terra”. O filme é aplaudido, e as pessoas começam a ir embora.
Ficam Capovilla, Saraceni, Barreto e Mário Carneiro. Vão para o quintal e,
numa mesa, inauguram a longa saideira.
— Glauber não fala com palavras, mas
com frases que são palavras e que, juntas, formam um discurso global sobre
as contradições deste país. “Retratos da Terra” é um filme emblemático, é de
uma descontinuidade criadora incrível. Quando mais desconstrói, mais
constrói, e põe sentido nas contradições — discursa Capovilla.
— É o verdadeiro filme sobre o
Glauber. Não é aquele “Labirinto”, não — empolga-se Barretão.
— Foi feito em 25 dias — exalta
Paloma.
— Está na hora de trazer os jovens
para cá, há 800 alunos de cinema no Rio, é hora de fazer o Cineclube Glauber
Rocha, um espaço para a transgressão da jovem cinematografia brasileira.
Ninguém convencional pode entrar aqui! — proclama Capovilla.
— E quem disser que viu “A idade da
Terra” ganha um vatapá de Dona Lúcia — complementa Saraceni.
— O Glauber dizia que ele era o
Cinema Novo. Numa discussão na casa do Barreto, ele atacou: “Não adianta
ficar gritando, no fim vai ficar só um”, e eu dei uma banana e respondi:
“Vai ficar todo mundo.” E ele ria como um louco.
Carneiro puxa uma discussão sobre a
influência da formação protestante de Glauber refletindo a violência em sua
obra. Saraceni argumenta em contrário, “Glauber é amor”. Capovilla encerra o
dilema:
— Numa festa na casa do Avellar
estávamos todos nós, todo o Cinema Novo, sentados, chega o Glauber, põe-se
diante de nós como num palco e diz: “Estou contra vocês. Odeio vocês. Estou
contra tudo o que está aqui.” E vai embora. Isto é fundamental para se
completar a biografia de Glauber: ele é o conjunto do nosso cinema. Todos
desunidos e unidos dentro daquela porra que se chama cinema.
(©
O Globo)
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