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Dorival Caymmi faz 90 anos e ganha CD dos filhos

05-06-2008

Caymmi 90 Anos

Nana, Dori e Danilo gravam o CD Para Caymmi, com 20 sambas clássicos do pai para festejar seu aniversário

   Rio de Janeiro - O compositor Dorival Caymmi faz 90 anos em 30 de abril, mas o presente para as dezenas de milhares de brasileiros que embalam a vida com sua música já está pronto. É o CD Para Caymmi, de Nana, Dori e Danilo, seus filhos, que gravaram 20 sambas dele, todos clássicos. A idéia foi de Nana, que há um ano e meio lançou O Mar e o Tempo, com as canções praieiras de Caymmi. Este disco é complemento daquele e também uma reunião da família na data.

   "A causa de tudo é a mamãe (a cantora Stella, casada com Dorival há 64 anos) que quer o Dorivalzinho (como a família chama Dori) por perto. É preciso arrumar trabalho para ele aqui", brinca Nana, lembrando que o CD vai virar DVD, em show no Canecão, dia 30 de abril, com repeteco em São Paulo e Salvador.

   A escolha do repertório foi pragmática. Entraram 20 sambas feitos só por Dorival e que todo mundo canta desde que se entende por gente, mas nem sempre lembra que é dele. "No Brasil, costuma-se atribuir a música ao cantor, como acontece agora com A Vizinha do Lado (tocando sem parar na novela Celebridade, tema da manicure Jacqueline Joy)", comenta Dori. Ele assina os arranjos e optou pela simplicidade. "Procurei me manter dentro do espírito dele, que é muito dono de suas músicas. Ele nem sempre gosta dos arranjos que faço, pois acha jazzístico demais. Agora gostou. Senti sua satisfação e e ele até falou: ´Chorei de emoção, mas vocês não viram.´" Para Caymmi é mesmo emocionante. A qualidade técnica é perfeita, mas o astral dá a impressão de surpreender um sarau familiar, como tantos que acontecem Brasil afora, em que os sambas de Dorival são o repertório básico.

   Nana queria um som para animar churrascos de fim de semana e conseguiu. Mas tem muito mais, junta sofisticação e simplicidade: é puro Dorival Caymmi, feito porque quem melhor o conhece.

   Dorival nasceu em Salvador, em 1914, chegou ao Rio com 24 anos, já sambista, tentando ser jornalista. De cara, encantou dois poderosos da época, o empresário Assis Chateaubriand, dono de poderosas rede de rádios e jornais, e a cantora Carmem Miranda, estrela absoluta da época, a quem ele ensinou ginga, malícia e a cantar sambas brejeiros como O Que É Que a Baiana Tem?, primeiro hit do compositor, em 1939. De lá para cá foram cerca de 200 músicas e todas fizeram sucesso de alguma forma. Os três filhos, de temperamentos diferentes mas unidos como poucos, conviveram com isso e, fato raro no show biz mundial, são músicos bem sucedidos, independente da fama do pai.

   "Para mim ele é vital, porque eu, ainda criança, esperava ouvi-lo cantar no rádio para dormir e os músicos e amigos que ele trazia para casa foram responsáveis pela minha formação musical", comenta Dori. Nana lembra que, ainda criança, não tinha dimensão da importância do pai. "Mamãe mostrava que ele era o dono da casa, mas eu achava engraçado ver lá pessoas que eram famosas, da televisão. Imagine chegar da escola e encontrar Elizeth Cardoso, Procópio Ferreira, ter João Gilberto e o Trio Yraquitan tocando na sua festa de 15 anos", diz ela. "Canto desde os dois anos, adorava as músicas dele, mas só mais tarde, já adulta, percebi sua importância." Danilo admite ter o pai como modelo. "Quando comecei a compor, busquei me aproximar do público, como ele. Como fiz sucesso logo de cara com Andança (em parceria com Paulinho Tapajós e Edmundo Souto), sempre busquei essa forma direta de comunicação com o povo."

   Quem ouvir Para Caymmi vai concordar, pois não há tradução melhor do Brasil que O Samba da Minha Terra, Dois de Fevereiro, Eu não Tenho onde Morar, Saudade da Bahia, Vatapá, Rosa Morena e outros sambas do disco. No show do dia 30, praticamente a única comemoração dos 90 anos, Nana vai cantar parte do repertório de O Mar e o Tempo. "E vai ter também aquelas músicas que o público exige, como Peguei um Ita no Norte", conta ela, avisando que o ciclo Dorival Caymmi ainda não se encerrou. "Mais para a frente, vou gravar um disco só com seus seus samba-canções." (Beatriz Coelho Silva)

(© estadao.com.br)


Uma declaração de amor ao velho Caymmi

Compositor é homenageado pelos filhos em CD luxuoso da Warner

Michelle de Assumpção
Especial para o DIARIO

   O baiano Dorival Caymmi não toca nem canta mais, escuta pouco, mas troca idéias com a esposa, os filhos e suas bisnetas, que estão sempre por perto. Sua rotina sossegada foi alterada no dia em que o filho Dori chegou para lhe mostrar a primeira prova do disco Para Caymmi, de Nana, Dori e Danillo, que os filhos fizeram como uma homenagem ao seu aniversário de 90 anos, completados no próximo dia 30 de abril, com direito a show no Canecão e gravação de um DVD. Seu Dorival, que é um homem fechado e quando tem que reclamar não economiza, chorou. "Ele comentava com mamãe cada faixa, depois me disse que estava feliz com meu trabalho, com a minha dedicação e o resultado de tudo. Foi a primeira vez, de todas as coisas que fiz com as músicas dele, que ele me disse algo assim", confessa Dori, de estilo notadamente diferente da família.

   A idéia tinha sido da Nana. "O disco era uma surpresa para ele, não tinha nem gravadora, quando estava tudo pronto entreguei para Marcelo Maia, marketing da Warner. Sabia que era um bom produto", diz Nana, que mesmo assim ficou surpresa com o acabamento luxuoso dado pela gravadora, o que certamente colocou abaixo seus planos de tornar o álbum, além de bem feito, popular. "Vai ficar um pouco mais caro, mas é pelo acabamento que recebeu", justifica a filha, que tomou a liderança da etapa inicial do projeto: chamou os irmãos, escolheu os sambas, bancou o estúdio e decidiu que o canto seria em uníssono, uma prática comum entre eles, tecnicamente harmônico, pela similaridade dos timbres, sendo dois graves e um agudo. Além do que, o pai sempre gostou de vocal.

   Quando Dori chegou dos Estados Unidos para atender ao pedido da irmã, chegou com uma ruga de preocupação. Sua música, jazzística, moderna, instrumental, nunca tinha sido muito aceita dentro de casa. Tinha medo de não saber dar ao trabalho a simplicidade que agradaria ao pai. "Já havia gravado umas canções praieiras dele, no CD Tome Conta do Meu Filho que Eu Também Já Fui do Mar, nesse caso fui fiel, mas eu agradava pouco em casa", contaDanilo. Os sambistas cariocas deram às canções o balanço que os sambas de Caymmi pedem. Então, à interpretação familiar, somou-se esse time de bambas: Gordinho (tamborim, agogô, tantan), Don Chacal (Xequerê, xique-xique, samll shake), Marcos (pandeiro, repique de mão, prato e faca, conga), Beloba (tamborim) e Ubirany (caixinha do Ubirany).

   Para Dori, fazer o disco terminou sendo um exercício para reconhecer a importância da música regional brasileira, como base na cultura nacional. Seu pai, a literatura de Ariano Suassuna e a retomada do frevo são citados por eles como aspectos relevantes para combater a aculturação e os estrangeirismos na cultura. "Faço parte de uma elite musical que não é valorizada no Brasil", diz, lembrando que o pai também é de uma outra elite, relegada em detrimento à música banal, superficial e vulgar.

   Nana não quis saber de cronologia ou temas quando escolheu as músicas do pai para gravar. Excluiu às que incluíam trechos de domínio popular e mandou ver. "Quase todo repertório foifeito na Bahia", diz ela, deixando a pista de que todas são de antes de 1938, quando o mestre das canções praieiras lançaria os alicerces de uma obra que ganharia ares cariocas sem perder suas pegadas baianas. De Acontece que Eu Sou Baiano a Samba de Minha Terra, Vatapá, O Que É Que a Baiana Tem, Rosa Morena, Maracangalha, estão todas lá, consagrando a obra-prima desse autor baiano que criou um gênero único que, no CD, virou ao mesmo tempo popular e erudito, mar e terra, regional - sobretudo nos cartões postais que pinta de sua terra - e por isso mesmo universal. Simples como o mar que quebra na praia, que fica mais bonito ainda dito pelo próprio Dorival.

Serviço

CD Para Caymmi, de Nana, Dori e Danillo
Gravadora - Warner
Quanto - R$ 27,50 (pré-venda)

(© Pernambuco.com)

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