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05-06-2008
A camponesa Zabé da Loca cativa platéia em Brasília com flauta de PVC Pedro BurgosBRASÍLIA - Para tornar a vida de trabalhadora rural no semi-árido nordestino menos sofrida, Isabel Marques da Silva sempre contou com seu pífano. Analfabeta, dizendo ser ''ruim de lembrar datas'', ela sorri quando recorda o primeiro contato que teve com a pequena flauta rústica, que prefere chamar de pife. Foi aos 7 anos, em 1931, com o pai em Buíque, interior de Pernambuco. - Desde os 7 eu tocava mais meus irmãos na casa de meu pai. Foi casando de um em um aí ficou o mais novo, e eu fiquei tocando mais ele. Aí depois morreu o pai, mãe, duas irmãs, o irmão, vim embora praqui pra Parnaíba. Me casei, fiquei tocando mais o marido, o marido morreu e eu fiquei só. Aí apareceu os filhos, os sobrinhos, aí ficaram tocando mais eu, até o dia que Deus quiser, né? É assim, com extrema simplicidade, que Zabé - como prefere - resume 80 anos de vida, completados em 12 de janeiro. A artista foi descoberta em 1995 pelo produtor Ricardo Paixão. Gravou um disco com tiragem reduzida, esgotado. O suficiente para fazer com que ganhasse, na Paraíba, o apelido de Rainha do Pife. Além do talento cru e latente, a flautista chamava a atenção por morar numa loca (espécie de gruta pequena). Zabé da Loca - como ficou conhecida após 25 anos no lugar - teve nova chance de gravar um disco, melhor produzido: Cantos do semi-árido, lançado ano passado. Anteontem ela fez dois shows no Centro Cultural Banco do Brasil em Brasília, cidade onde mora Edith, filha de seu primeiro casamento. Ela fez sua primeira viagem de avião para realizar as últimas apresentações do projeto Da Idade do Mundo, que trouxe artistas cujo talento foi revelado ao grande público tardiamente. Vieram anteriormente o bamba baiano Riachão, 82 anos, o maranhense Antônio Vieira, 84, e a cantora carioca Vó Maria, 92, ex-mulher de Donga (autor do primeiro samba, Pelo telefone, de 1917). - Tô com uma gripe brava. Vim praqui mas não podia vir não. Vim mais pra fazer os gostos do povo - confessou Zabé, que dizia estar ''sem fôlego'' para tocar todas as músicas em seu pife, um PVC com toscos buracos. Cantos do semi-árido foi gravado com o patrocínio do Ministério da Cultura, Fundação Quinteto Violado, projeto Dom Hélder Câmara e Ministério do Desenvolvimento Agrário. Para deixar Zabé à vontade, os técnicos levaram todo o equipamento para o assentamento Santa Catarina, em Monteiro (PB), onde ela mora atualmente e aí gravaram Zabé e seu terno (outro pife, uma caixa, prato e zabumba). Há menos de um ano, Zabé ganhou uma casa do Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária), mas não abandonou a sua loca. - E eu me esqueço dela? Tá tudo arrumado ainda, quando eu não quero ir pra casa fico lá. Tem argumas (sic) cobras lá perto, mas eu sou vacinada delas de nascença - garante. O repertório do CD e do show é calcado nos clássicos da música nordestina, como Asa branca e Juazeiro, de Luiz Gonzaga, e algumas composições suas e do seu grupo, notadamente de Beiçola, seu sobrinho e afilhado, e José Marcolino, o Setenta, seu filho. Os dois, além de três ''vizinhos e agregados'', vieram a Brasília para acompanhá-la nos shows. O carioca Carlos Malta, especialista em instrumentos de sopro, fez uma participação especial, acompanhando Zabé em algumas músicas. Durante a passagem de som, Malta abriu uma maleta com pífanos e flautas de bambu chinesas, impressionando Beiçola. Ao ouvir o som agudíssimo do instrumento oriental, o grupo nordestino tomou um susto. Na hora do show, o maestro começou a solar em seu flautim de metal, chamando Zabé para acompanhá-lo. Recebeu uma bem-humorada negativa: - Não sei fazer essas coisas de musiqueiro (músico profissional), não! O público que compareceu ao teatro do CCBB às 13h - horário que não é normalmente aproveitado pelo centro cultural de Brasília - dava risadas com a simplicidade de Zabé quando ela falava. Mas o sentimento geral era de reverência. (© JB Online)
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