Notícias
Tão perto, tão longe

05-06-2008

'A pessoa é para o que nasce': filme sobre três irmãs cegas, que pedem esmola nas ruas de Campina Grande (PB)

 

Festival de documentários 'É Tudo Verdade' reacende a polêmica sobre o distanciamento ideal entre o diretor e seus personagens

Alexandre Werneck
Especial para o JB

   No momento mais surpreendente do documentário A pessoa é para o que nasce, Roberto Berliner, o diretor, pára para conversar com suas três personagens, as irmãs cegas paraibanas Regina, Francisca e Maria Barbosa. Ele tem que explicar a elas que, casado, não pode corresponder aos sentimentos de Maria, apaixonada por ele. O filme, que abre hoje no Centro Cultural Banco do Brasil, às 19h, em sessão para convidados, o festival anual de documentários É Tudo Verdade, promete causar polêmica graças à maneira como invade (e muda) as vidas das personagens, irmãs que pedem esmola nas ruas de Campina Grande (PB) tocando ganzá e cantando. Pois parece que a verdade do É Tudo Verdade este ano é justamente a medida dessa distância imprecisa entre documentarista e objeto.

   No mesmo momento em que o também polêmico 33, de Kiko Goifman, está em cartaz em São Paulo e se prepara para chegar ao Rio, revelando a busca do diretor pela mãe biológica que ele nunca conheceu, vários filmes do festival parecem moldados para mostrar que quando esse objeto é uma pessoa, é difícil definir a distância segura entre aquele que filma e aquilo que é filmado.

   No caso de A pessoa é..., Berliner foi convencido pelo co-diretor e montador Leonardo Domingues e pelo roteirista Maurício Lissovsky a manter na versão final a cena, rodada sem pretensões cinematográficas pela câmera de Jacques Cheuiche.

   - Foi o momento mais difícil de toda a produção e ainda é até hoje. Elas já insinuavam aquela paixão há algum tempo e não houve jeito de não conversar com elas. Filmamos aquilo porque filmamos tudo. Mas a cena não ia entrar. Nunca apareci em nenhum dos meus documentários. Mas, aos poucos, fomos notando que o filme era, em parte, sobre como a sua realização havia influenciado a história delas - diz Berliner.

   O diretor reconhece que a sua entrada nas vidas das irmãs as transformou. Graças ao filme, as três participaram do festival Percpan, em Salvador e São Paulo, onde ganharam mais destaque que Gilberto Gil. O diretor paga uma pensão mensal às cantoras, que receberam ainda cachês pela participação no filme e terão um futuro percentual da bilheteria. Até agora, já conseguiram comprar uma nova casa.

   O papa do documentário brasileiro, Eduardo Coutinho, diretor de Cabra marcado para morrer e Edifício Master, conhecido justamente por defender uma grande distância entre ele e seus personagens, a ponto de só aparecer nos filmes como entrevistador, diz que não vê necessariamente problema em o diretor se inserir pessoal e emocionalmente na obra:

   - Isso já acontece há muitos anos, o diretor filmar o próprio umbigo. Não tenho nada contra ou a favor. Depende de o umbigo do cara ser ou não ser interessante para o público.

   Pois esse ''cinema umbigo'' tem pelo menos um exemplar ao pé da letra no festival: Mensageiras da luz, do niteroiense radicado em São Paulo Evaldo Mocarzel. O diretor, até pouco tempo em cartaz com À margem da imagem, em que já reduzia a distância entre ele e os personagens (moradores de rua da capital paulista), permitindo que eles falassem (mal) dele, agora coloca não só o seu umbigo, mas o do próprio filho na tela. Em um trabalho sobre parteiras da Amazônia, não teve pudor de filmar o parto cesariano de Mateus, seu caçula, nascido em novembro de 2002, e usar as imagens no filme, em contraposição ao método natural utilizado por suas personagens.

   - Não tive como não me tornar parte integrante da história. Não podia me fechar a usar aquele nascimento, que aconteceu enquanto estava preparando o projeto - diz Mocarzel, que fez o filme quando descobriu que a participação social das parteiras no Norte é tão forte que elas chegaram a constituir uma associação no Amapá.

   Cabe a pergunta: se é mesmo ''tudo verdade'', até que ponto um documentário não perde sua capacidade de descrição do ''real'' ao reduzir tanto a distância entre cineasta e personagem e chegar a fazer do próprio diretor objeto do filme? Não se corre o risco de ser tendencioso ou, no mínimo, pouco isento?

   Para a pesquisadora Consuelo Lins, professora da Escola de Comunicação da UFRJ, que acaba de lançar o livro O documentário de Eduardo Coutinho, a isenção não existe. A tendência está chegando tarde ao cinema brasileiro, diz ela, já que acontece na Europa e nos Estados Unidos desde os anos 60. 

(© JB Online, 25.03.2004)


O cinema umbigo

   - A diferença é que agora isso é problematizado pelos filmes. Nos documentários clássicos, não se falava disso, mas não temos acesso às relações que os documentaristas mantinham com seus personagens, que também deviam ter seus problemas - diz Consuelo Lins, ela mesma uma documentarista que teve que driblar o desejo de aproximação de uma personagem sua, a travesti Índia, figura central de seu filme Juliu's Bar, exibido no É Tudo Verdade de 2001.

   Para Berliner, que assume ter estabelecido, a partir do documentário, uma relação com as irmãs Barbosa ''pelo resto da vida'', o que conta é a maneira como esse contato é estabelecido:

   - Procuro ser honesto. Não tento ser agradável, a priori, com nenhum entrevistado.

   No caso das irmãs cegas e o diretor, a explicação para tanta intimidade pode estar no tempo de convivência. O longa é a terceira obra da equipe da produtora TV Zero inspirada nelas, o que criou uma convivência de quase sete anos. Eles as conheceram em 1997, quando fizeram em Campina Grande um programa para a série Som da rua, da TVE. Em seguida, rodaram o curta que tem o mesmo título do longa, que, exibido no É Tudo Verdade de 1999, e que ganhou o prêmio da competição nacional do evento. Com o prêmio, financiaram o filme atual, que demorou quatro anos para ficar pronto e mudou muito ao longo do processo.

   - Inicialmente, havia uma pretensão de distância, de se fazer um filme na terceira pessoa, mas as coisas foram mudando. No começo, eu só montava e estava achando o envolvimento do Roberto com elas muito perigoso. Mas depois, também me envolvi - diz Domingues.

   Em muitos casos o envolvimento pode ser prévio, não ser nascido do filme. No caso de Abry, por exemplo, da mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros, o documentarista Joel Pizzini teve como co-diretora a cineasta Paloma Rocha, nada menos que a neta de sua personagem, Lúcia Rocha, mãe de Glauber Rocha e fundadora do espaço Tempo Glauber. O filme, que traz a histórico da famosa Dona Lúcia até sua internação em um hospital em São Paulo, aos 84 anos, não só expõe a fragilidade da personagem diante da possibilidade da morte, como acaba expondo a relação entre ela e os cineastas.

   - Um filme não pode ser neutro, tem que ser apaixonado. O diálogo entre o ético e o estético é sempre um problema, por isso fizemos um filme de ambigüidades - diz Pizzini, que foi convidado pela própria Lúcia Rocha para filmá-la no hospital e que relutou muito em transformar o trabalho em filme, devendo a decisão à entrada de Paloma no projeto e à sua capacidade de traduzir o universo da família.

   Em Do outro lado do Rio, da mostra competitiva nacional, o diretor Lucas Bambozzi, que acompanhou brasileiros que fazem o trânsito clandestino entre o Oiapoque e o território da Guiana Francesa, acaba por se tornar, ele também, um ''criminoso'': vê-se obrigado a atravessar a fronteira clandestinamente. Já A alma do osso mostra um personagem que queria permanecer isento, um eremita mineiro, mas acaba obrigado a fazer contato com a civilização através do diretor Cão Guimarães.

   Mas o exemplo mais radical do ''cinema umbigo'' no festival talvez esteja na mostra O Estado das Coisas: Todas as garotas que já amei, do brasileiro radicado em Londres Henrique Goldman, mostra depoimentos de ex-namoradas do diretor sobre... ele. Mesmo que Goldman não apareça na tela, talvez seja o filme de maior revelação da intimidade do cineasta.

   - Tudo pode acontecer. A paixão inclusive, e isso tem que estar no horizonte do cineasta. Ele tem que estar preparado para lidar com isso - diz Consuelo Lins.

   Pois Berliner não faz mesmo nenhuma questão de fugir desse problema. Diretor também de filmes publicitários, ele assume sua falta de isenção:

   - O que fiz foi um comercial das três. Estou tentando colocar um novo produto no mercado, um outro padrão de beleza, o daquelas três mulheres.  

(© JB Online, 25.03.2004)


O canto de senhoras cegas abre o 9 É Tudo Verdade

Jaime Biaggio

   Começa hoje, no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), o 9 É Tudo Verdade — Festival Internacional de Documentários. E começa sob o signo da música de três irmãs cegas de Campina Grande (PB), as protagonistas de “A pessoa é para o que nasce”, de Roberto Berliner, filme que abre o evento, às 19h30m, em sessão para convidados. Melhor dizendo: “A pessoa é para o que nasce”, da produtora TV Zero.

   — A gente tem um projeto de cinema que é nosso, dos sócios — diz Berliner (diretor do filme, em todo caso). — Esse é o nosso primeiro longa-metragem e pretendemos que todos sejam assinados pela coletividade TV Zero (que, além dele, inclui o co-diretor e montador Leonardo Domingues, o roteirista Maurício Lissovsky e o diretor de fotografia Jacques Cheuiche) .

   As três irmãs, com idades entre os 50 e tantos e os 70 e tantos outros anos, vivem de cantar e tocar ganzá por dinheiro em lugarejos do interior do Nordeste. Foram filmadas pela TV Zero pela primeira vez em 1997, para a série de documentários da produtora “O som da rua”, sobre músicos anônimos, exibida na TVE. De lá para cá, Roberto Berliner já voltou para procurá-las sete vezes, rodou um curta-metragem em vídeo sobre elas e — agora, com tudo pronto, ele se permite confessar — alavancou a produção do longa de 84 minutos que apresenta hoje com o dinheiro de um prêmio de produção de curtas-metragens.

   — Eu já as havia filmado em vídeo e, para justificar os R$ 40 mil, apresentei o que eu tinha feito em vídeo como curta. Mas na verdade peguei o dinheiro e apliquei no longa.

Evento acontece este ano em Brasília pela primeira vez; em SP, é simultâneo ao Rio

   O tal curta, que os “TV-Zeros” sempre consideraram mero trampolim para o longa, formato em que sempre enxergaram este projeto específico, chegou a ser premiado no É Tudo Verdade de 1999. Ganhou prêmios também no Festival do Rio daquele ano (o primeiro), no de Recife e também em São Francisco e Bilbao.

   — Quis dar a elas o tratamento das grandes personalidades, quis mostrar que são tão grandes quanto qualquer uma dessas personalidades que viram filme — diz Berliner, que mantém contato com as três senhoras e lhes envia R$ 120 por mês a título de ajuda. — Elas serão parceiras do que o filme vier a dar. Também demos a elas o dinheiro de prêmios ganhos em festivais pelo filme. Fora isso, o curta teve impacto na vida delas. Foram chamadas a tocar no PercPan depois dele, por exemplo, e a partir daí começaram a aparecer shows.

   O evento vai até 4 de abril, no cinema, no Teatro II e na sala de vídeo do CCBB. Acontece simultaneamente em São Paulo, onde a sessão de abertura acontece amanhã, com a exibição do longa israelense “Checkpoint — Posto de controle”, de Yoav Shamir, sobre as barreiras permanentes pelas quais os cidadãos palestinos da Cisjordânia e da Faixa de Gaza passam sempre que precisam ir de uma cidade para outra. Dois dias depois de terminar no Rio e em São Paulo, o É Tudo Verdade vai, pela primeira vez, para Brasília, onde dura apenas uma semana, até o dia 11 de abril.

(© O Globo, 25.03.2004)


Conheça os principais destaques do festival

   Além das competições nacional e internacional, e da tradicional mostra O Estado das Coisas, o É Tudo Verdade tem atrações novas ou específicas da edição 2004.

RETROSPECTIVA JEAN ROUCH: O recentemente falecido pioneiro do documentário de pesquisa antropológica é homenageado com a exibição de alguns dos seus trabalhos mais famosos, como “Eu, um negro” (1959) e “A pirâmide humana” (1961).

MÚSICA BRASILEIRA: A retrospectiva nacional deste ano traz os dez documentários sobre música brasileira eleitos por cineastas, críticos e pesquisadores os mais importantes: “Nelson Cavaquinho”, de Leon Hirszman, “Os Doces Bárbaros”, de Jom Tob Azulay, e “Bananas is my business” (sobre Carmen Miranda), de Helena Solberg, são alguns deles.

OS NOVOS AMERICANOS: Série de sete documentários sobre migrantes de diversos continentes que escolheram viver nos EUA.

FOCO LATINO-AMERICANO: Esta nova seção do festival traz este ano produções de Porto Rico, Argentina, Chile, Colômbia, Peru e México.

(© O Globo, 25.03.2004)

Com relação a este tema, saiba mais (arquivo NordesteWeb)


powered by FreeFind

© NordesteWeb.Com 1998-2004

O copyright pertence ao veículo citado ao final da notícia